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29 de março de 2026

Jornal não deveria tratar crise no RJ como parte da paisagem – 28/03/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Jornal não deveria tratar crise no RJ como parte da paisagem – 28/03/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

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Embora venha sendo bem coberto pela reportagem, o caos político-institucional no Rio de Janeiro está mal dimensionado no jornal —e não só neste.

A configuração paroquial que a imprensa tem dado ao enrosco fluminense destoa do tamanho da crise, da importância do estado e de suas potenciais conexões nacionais, sobretudo nas relações que envolvem PL, União Brasil e família Bolsonaro.

As notícias que chegam ao jornal nem sempre encontram o caminho até os leitores, seja por falta de espaço nos destaques, seja por falta de explicações para situações nebulosas. No caso do estado do Rio, foi difícil acompanhar a lógica dos eventos, e o jornal não facilitou a vida de quem tentou.

A semana começou com a renúncia do governador Cláudio Castro (PL), numa manobra revelada dias antes como tentativa de ele escapar “da inelegibilidade e conseguir ser candidato ao Senado em outubro”, segundo a coluna de Lauro Jardim, no Globo.

Mas a saída efetiva do cargo, na segunda (23), estava longe de poder ser dada como notícia velha, assim como a sequência de desventuras posteriores.

No dia seguinte à renúncia, o TSE condenou Castro à inelegibilidade por abuso de poder político e econômico na eleição de 2022 e ordenou a cassação do mandato do deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), mandado de volta à prisão na sexta (27).

O jornal chegou a publicar um texto tentando dar conta das reviravoltas no Executivo estadual, mas é preciso reconhecer que o título não ajudava muito: “Entenda como o RJ pode ter 4 governadores em um mês”. Por enquanto, foram dois, mas esse é um caso em que a incerteza assusta mais do que a matemática.

Estavam lá, porém, explicações sobre como o buraco no Legislativo abriu outro no Executivo. “Bacellar está afastado do comando da Alerj [Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro] desde dezembro de 2025” por suspeita de participação “no vazamento de informações da operação que prendeu o ex-deputado TH Joias, ligado ao Comando Vermelho”, mas Bacellar “não renunciou à presidência da Alerj”, e “o cargo foi ocupado interinamente pelo deputado Guilherme Delaroli (PL)”. Só que, “como não é o titular do posto, ele [Delaroli] não poderia assumir o Palácio Guanabara”.

Foi assim que o presidente do TJ-RJ, Ricardo Couto de Castro, virou governador interino no vácuo de manobras e impedimentos —a renúncia, a primeira prisão com afastamento de Bacellar e o plano de 2025 que tirou o vice-governador para acomodá-lo numa sinecura e favorecer Bacellar no projeto bolsonarista para o governo do estado pós-Castro.

Ouvido pela Folha, o governador interino declarou que “um presidente de tribunal não está preparado para ser governador” e que sua missão é de transição.

Embora ganhasse algumas horas de chamadas nas vitrines digitais do jornal, esse conjunto se espalhava e se perdia com facilidade. Na versão papel/Edição Folha, que ainda costuma fazer o chamado “registro histórico”, o efeito era o oposto, de muita coisa espremida e deixada de fora.

Em paralelo, a situação se complicava no Legislativo fluminense. Na Alerj, deputados elegeram um novo presidente logo depois da cassação de Bacellar. O escolhido foi Douglas Ruas, o mesmo nome ungido em fevereiro pelo então governador e por Flávio Bolsonaro para disputar o comando do estado depois que a primeira opção, Bacellar, caiu em desgraça. A eleição despertou protestos da oposição e terminou anulada pela Justiça fluminense, porque descumpria determinações do TSE, como o prazo mínimo para a sua realização e recontagem dos votos sem Bacellar.

No pé da capa da Folha, um título minúsculo avisava da anulação. Parecia um dia qualquer, numa semana quase qualquer. A ausência de comoção diante da já longa decadência e dos sinais de falência do estado apenas reforça o tamanho do problema.

No dia em que o TSE condenou Cláudio Castro, ele foi o terceiro destaque da capa do papel da Folha. O espaço era pequeno, praticamente o mesmo dado à renúncia do governador. Em relação à renúncia, nem mesmo o carioca O Globo, que acompanha os eventos com mais equipe e menos letargia, achou que ela fosse caso de manchete. Preferiu, assim como a Folha e os demais jornalões, destacar os preâmbulos da aventura kassabista na corrida eleitoral, com a desistência de Ratinho Jr. no BBB presidencial montado pelo PSD.

O partido de Gilberto Kassab, aliás, é um dos implicados no cenário fluminense. “A eleição direta é um pedido do partido de Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo estadual em outubro. Ele afirma que aceita concorrer para o mandato-tampão caso ele seja realizado com voto popular”, informa a Folha.

Nesta sexta, com a votação no STF a respeito da eleição no RJ e a segunda prisão de Bacellar, ficou claro que a história não poderia mais ser tratada como algo de segunda categoria. A decisão do ministro Cristiano Zanin que suspendeu a eleição indireta mantém o assunto quente. Ainda assim, na Folha, o Rio ficava em terceiro na hierarquia de notícias da capa física deste sábado.

Um editorial da Folha diagnosticou: “O segundo estado mais rico da nação parece enredado em clientelismo, corrupção sistêmica e infiltrações do crime organizado nas esferas de poder. A chance de os fluminenses começarem a escapar dessa teia, ao menos, está próxima: as eleições de outubro”.

Este jornal e os demais jornais, porém, precisam reavaliar sua cobertura e seu papel na naturalização de crises graves que acabam tratadas como pés de página.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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