José Reis juntou dois temas em uma mesma coluna publicada na Folha, em 2002. Um vinha da genética e da psiquiatria: “um gene ligado à neurose”. O outro vinha da história antiga: a lenda das “formigas monstruosas” descritas por Heródoto.
Ele citou um estudo que relacionava uma variante do gene da serotonina a traços como “ansiedade, desconfiança, medos”. O texto resumiu o método: pesquisadores escolheram 505 pessoas sensíveis a perguntas como “sua cabeça às vezes fica cheia de pensamentos aterradores?” e cruzaram testes de personalidade com exames genéticos.
Reis destacou que o gene aparecia em duas variantes, “uma longa e outra curta”, e que a “curta” foi associada às manifestações descritas. O artigo ainda lembrava que os próprios cientistas apontavam uma combinação de ambiente e experiência: “a variação nos traços de personalidade (…) deve ser produzida por uma complexa interação de fatores ambientais e ‘experienciais’”.
Depois, contou como uma expedição desmontou um mal-entendido que atravessou séculos. O colunista escreveu que as “formigas monstruosas e peludas” que “mineravam ouro” eram, na verdade, marmotas. O mito tinha nascido de um erro de interpretação do nome persa, “formigas da montanha”.
Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.
Neurose e formigas monstruosas (9/5/2002)
Trataremos hoje de dois assuntos em vez de um só. Um deles é sobre um gene ligado à neurose e o outro, sobre lendárias formigas monstruosas cujo mistério foi, afinal, desvendado.
O primeiro reúne uma série de experimentos por Lesch e colaboradores e foi publicado na revista científica americana “Science” (nº 274, 29 de novembro de 1996, págs. 1527 a 1531). Os pesquisadores descobriram um gene com duas variantes ligado à maneira pela qual a serotonina é reabsorvida pelas células nervosas. A serotonina é um poderoso e ativo neurotransmissor, dotado de propriedades antidepressivas, conforme a dose. Depois de secretada pela célula nervosa ela pode ser reabsorvida, pelo menos parcialmente.
O gene vem em duas variantes, uma longa e outra curta. Esta última é a que foi relacionada com a neurose. Ela induz a reabsorção de um número menor das moléculas, ao contrário da longa.
Os autores escolheram um grupo de 505 indivíduos que se mostravam sensíveis a perguntas do tipo “sua cabeça às vezes fica cheia de pensamentos aterradores?” e os submeteram a testes de personalidade e exames genéticos. Encontraram correlação significativa entre a presença do gene curto e as manifestações neuróticas (ansiedade, desconfiança, medos etc.). Cerca de 70% desses indivíduos tinham o gene curto.
Apenas 3% ou 4%, acreditam os cientistas, revelam variação da neurose na população geral, e eles supõem que “a variação nos traços de personalidade, inclusive os ligados à ansiedade, deve ser produzida por uma complexa interação de fatores ambientais e “experienciais” com numerosos produtos do gene”.
Lesch e colaboradores afirmam, baseados em suas análises genéticas e psicológicas, que uma grande maioria possui o gene curto e que este se acha ligado a neurose, tensão, suspeita, preocupação e pessimismo, além de medo e incerteza. Comentando esse artigo na “Time”, James Collins salienta que a presença do gene que produz a ansiedade pode ter explicação evolutiva, pois a espécie, quando apareceu, nada conhecia do ambiente que a esperava e, por isso, a cautela se tornava necessária.
O segundo tópico refere-se a uma notícia também publicada na revista “Time”, segundo a qual um antropólogo francês -Michel Peissel- e um fotógrafo britânico -Sebastian Guinness- conseguiram, após muita aventura, localizar a chave de um mistério criado por Heródoto, o “pai da História”. Esse antigo historiador, nascido muito antes de Cristo em Halicarnasso, afirmara a existência de formigas monstruosas e peludas, do tamanho de cães ou de raposas, que mineravam ouro em suas tocas e o carreavam para as arcas do rei da Pérsia.
Descobriram os exploradores que as “formigas monstruosas” não passavam de marmotas (roedores do grupo dos esquilos), cujo nome na antiga Pérsia significava “formigas da montanha”. Um erro de interpretação de Heródoto durante muito tempo criou as mais diversas versões da história. Na verdade, as marmotas se enfiam em tocas de terreno aurífero e o ouro gruda em seus pêlos.
Fonte.:Folha de S.Paulo


