
Crédito, Juan López G.
- Author, Rafael Abuchaibe
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 10 min
Juan López tinha 66 anos quando colocou um par de tênis e saiu pela porta de casa em Toledo, na Espanha, para correr pela primeira vez.
López explica à BBC News Mundo — o serviço em espanhol da BBC — que, apesar de ter pouco tempo para treinar porque cuida da sua esposa doente, ele ainda tenta sair para correr seis vezes por semana para se manter em forma.
“Ocupo todas as manhãs arrumando o café da manhã, as compras, enfim, as coisas de casa”, ele conta.
“E, à tarde, quando deixo minha mulher, Mari, quietinha no sofá, posso ir treinar. Aí, treino, seja inverno ou verão, entre duas horas e duas horas e meia.”
Aos domingos, tudo muda. Ele sai de manhã com um grupo de colegas e eles percorrem longas distâncias.
“É muito agradável, pois podemos ir conversando em um ritmo cômodo e chegamos a fazer vários quilômetros“, descreve ele.
López é um caso especial. Tão especial que uma equipe de pesquisadores da Universidade de Castela-La Mancha, na Espanha, decidiu estudá-lo profundamente.
Eles descobriram que sua idade metabólica (a idade do seu organismo, medida pela quantidade de energia, ou calorias, que o corpo gasta em repouso) equivale à de uma pessoa na casa dos 20 anos.

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“O que os músculos de Juan têm, principalmente, é que são muito eficientes em nível cardiorrespiratório, em termos de uso de oxigênio para produzir força”, explica à BBC o médico Julián Alcázar.
Os cientistas reconhecem que seu caso, em parte, é baseado na sorte, por não ter precisado lidar com nenhuma doença congênita importante na vida, nem ter sofrido acidentes que deixassem sequelas. Mas isso serve para explicar apenas uma mínima parte do quanto Juan López é especial.
O certo é que cada vez mais especialistas concordam que, para entender o segredo da longevidade, pode ser mais útil ouvir as histórias de vida de pessoas como este orgulhoso espanhol, em que a tenacidade e a capacidade de inovação se transformam em ferramentas fundamentais para viver uma vida longa e saudável.

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Paixão pela velocidade
O fato de López ter começado a correr aos 66 anos não significa que aquela fosse a primeira vez em que ele enfrentava a velocidade.
“Comecei minha vida com automóveis muito jovem”, conta ele, emocionado. “Comecei com 11 anos, com veículos que tinham rodas de ferro, e depois estudava à noite.”
López teve uma carreira de sucesso como mecânico de automóveis. Ele conseguiu montar sua própria oficina, onde ofereceu trabalho para vários aprendizes. Eles acabariam assumindo a administração do lugar quando López se aposentou.
Seus amplos conhecimentos de mecânica permitiram a ele, já na casa dos 60 anos, construir um carro de corrida para participar do autocross de Castela-La Mancha, na categoria de protótipos.
“Era um Seat 600, mas aproveitei só a carroceria, nada mais, e coloquei um motor muito forte [V6 de 2700 cc]. Reformei tudo, suspensões, rodas, freios, direção e instalei um motor central.”

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Alcázar explica que este estilo de vida ativo, com um trabalho que o mantinha em constante movimento, pode ter sido um dos fatores que colaboraram para a boa saúde de López ao longo da vida, oferecendo um bom ponto de partida na hora de começar a correr.
“Se, em vez de se dedicar à mecânica de veículos, Juan tivesse um trabalho no escritório, onde passasse muitas horas sentado, estaríamos falando que Juan teria hoje outros problemas de saúde ou outras rotinas que não o teriam ajudado a chegar aonde chegou”, segundo o médico.
Mas a longa relação de López com os automóveis estava chegando ao fim. Depois de dedicar a maior parte da vida adulta à sua paixão, ele decidiu abandoná-la.

Crédito, Juan López G.
“Aproveitei muitos anos”, conta ele à BBC News Mundo, “até que chegou o momento em que precisaria substituir homologações, gastar dinheiro e disse ‘este é o momento de sair’.”
Apesar das incertezas geradas pela vida após a aposentadoria, López tinha claro que deixar os automóveis não significava que ele iria ficar parado. Com todo o tempo que, agora, tinha disponível, ele precisou encontrar outra forma de entretenimento.
“E, então, encontrei outro caminho.”

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O caminho
Sem saber que sua decisão o levaria a abrir as portas para uma nova etapa de vida, López se lembrou de uma velha promessa feita a um primo, anos antes.
“Eu havia dito ao meu primo ‘quando me aposentar, farei o Caminho de Santiago com você'”, ele conta. “E assim fiz.”
“Primeiro, fiz um teste de 100 km e disse: ‘Quero fazer outro, mas inteiro, começando na França, San Juan Pie de Puerto até Santiago, 800 km, 20 dias.'”
Ao ver a quantidade de tempo que seu pai dedicava ao novo hobby, uma de suas filhas (a única que se dedica a um esporte, o alpinismo) sugeriu um exercício mais eficiente.
“Ela me disse ‘papai, você deveria começar a correr porque, andando, você passa muitas horas fora de casa’.” Na época, ele tinha 66 anos.
“Comecei, passava um minuto e não aguentava”, recorda López.
“Eu dizia à minha filha ‘fico sem ar’, ‘não consigo’, ‘não sirvo para isso’. E ela respondia: ‘Continue, continue por esse minuto e não pare.'”
“E, basicamente, foi assim que comecei, um pouquinho de cada vez.”
Cuidando para manter um regime de descanso e boa alimentação, Juan López começou a aumentar a distância. Ele conseguiu se conectar a um grupo de fundistas de Toledo e começou a treinar com eles.
López conta que sua forma surpreendeu seus colegas e um deles o incentivou a competir.
“Se você entrasse para a federação, acredito que ficaria entre os quatro ou cinco melhores da Espanha”, afirmou ele.

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Alcázar explica que esta aparente facilidade com que López entrou no atletismo pode ser explicada pelo seu morfotipo (ele é um homem magro e baixinho) e pela capacidade dos seus músculos de usar oxigênio e oxidar gorduras.
“A capacidade de Juan é acima do normal”, segundo o médico. “Ela equivale à que pode ter uma pessoa treinada para usar esse oxigênio e essas gorduras, pois o metabolismo é o mais importante para as corridas de ultralonga distância.”
“Basicamente, é o que faz economizar outro tipo de combustível, como os açúcares ou carboidratos, que são mais necessários em esforços de intensidade.”
Seguindo o conselho do amigo, López acabaria iniciando sua carreira de atleta, que o mantém nas manchetes da imprensa internacional até o dia de hoje.

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A diferença entre treinar e competir
Podemos ir muito longe contando quantas marcas mundiais López já bateu na sua categoria de idade e quantas medalhas ele colecionou desde que começou a competir, aos 70 anos. Mas o recorde mundial estabelecido por ele em 2025 é suficiente para contextualizar seus feitos.
López destruiu a marca anterior na categoria de 50 km para maiores de 80 anos, estabelecida pela lenda americana Don Winkley, de 5:36:39. Ele terminou a prova quase 49 minutos antes daquela marca, correndo os 50 km em 4:47:39.
Isso significa que ele manteve uma velocidade média de 5:44 minutos por quilômetro, demonstrando sua extraordinária capacidade aeróbica.
“O sucesso de Juan vem sobretudo da capacidade dos seus músculos de utilizar oxigênio, defende Alcázar, “pois o oxigênio que entra através do sistema respiratório passa para o nosso sangue, o nosso sangue o transporta para os nossos músculos e os músculos utilizam esse oxigênio.”
O estado de saúde da sua esposa fez com que Juan precisasse reduzir a quantidade de competições. Mas ele conta que mantém um treinamento rigoroso para se manter em forma, pois ainda sente que pode fazer muito mais.
“Não gosto da palavra ‘velho’ porque velho é algo que não serve mais”, conta ele, sorrindo. “E ainda me sinto capaz de fazer muito.”
“Uma das coisas que estou conseguindo é ajudar minha mulher, que depende de mim. Se ela se sentar ou cair, posso levantá-la perfeitamente e devo isso ao esporte que estou praticando.”

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É fundamental destacar este ponto, segundo Alcázar. Ele acredita que o segredo do exercício é poder mantê-lo de forma sustentada ao longo do tempo e transformá-lo em prática.
“O melhor programa de treinamento possível não serve para nada, se não for realizado”, explica ele.
“Eu poderia dizer a você exatamente qual é o exercício perfeito, a quantidade perfeita, a intensidade perfeita e passar para você. Mas, se você não for capaz de fazer, nem hoje, nem amanhã, nem pelo resto da sua vida, não serve para nada.”
López concorda com a afirmação. Seu conselho é não se concentrar no treinamento apenas para competir, mas para se manter em forma.
“Praticar esporte ou atletismo é muito bom na nossa idade”, ele conta. “Mas, com o cronômetro, já não é tão bom.”
“Se você fizer este exercício para manutenção, é muito mais saudável. Preciso me acostumar um pouco para continuar, pois é claro que, embora sem competir, o que não vou fazer é deixar de treinar.”

Crédito, Juan López G
Conselhos de um campeão
A chegada de Juan López aos laboratórios da Universidade de Castela-La Mancha foi meio que uma surpresa, segundo o professor Alcázar, mas foi uma fonte inestimável de informações sobre o bom envelhecimento.
“Um dia, não lembro quem foi do grupo de pesquisa que encontrou Juan, que estava correndo pela cidade de Toledo, e propôs que ele viesse ao laboratório.”
“Mas, naquele momento, nós não conhecíamos Juan e não sabíamos que ele iria conseguir o que conseguiu”, ele conta.
Os pesquisadores estudam López há três anos.
“Tivemos muita sorte ou foi uma grande casualidade ter conseguido monitorar Juan muito de perto por todo este tempo. O que ele nos faz é ajudar a entender melhor os efeitos do exercício nessa idade e o que ainda se pode conseguir.”
López não observa esses limites. Ele recomenda, isso sim, sair, testar as coisas e deixar que os limites o encontrem.
“Não me sinto velho, nem me enquadro no grupo de idade de outros amigos meus, vizinhos ou colegas, pois eles têm uma ideia equivocada de ‘não, não faço mais isso porque já não tenho idade’.”

Crédito, Juan López G.
“Você pode ter a capacidade física que for, mas, se ficar sentado no sofá, nunca irá desenvolvê-las”, prossegue ele.
“E me sinto muito satisfeito porque, não fosse pelo esporte, eu não estaria nas condições que tenho agora.”
O conselho mais importante oferecido por López e que podemos aplicar quando estamos treinando tem a ver com a motivação e como ele consegue mantê-la correndo por longas distâncias, quando o cansaço pode ser traiçoeiro.
“Quando faço essas corridas longas, como tenho uma família grande (minha esposa, minhas filhas, meus netos e um bisneto — 11, ao todo), divido as corridas em 11 partes e vou dedicando cada fração desse tempo a um dos meus personagens”, ele conta. “Assim, fica mais fácil para mim.”
“Mantenho a mente entretida em tudo isso e acredito que seja um bom sistema entreter a cabeça em algo que não seja o esforço.”
Talvez este sistema também sirva para nos motivar quando chegar a hora de nos movimentarmos.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


