“Acabei de chegar do bazar da Le Creuset e vou falar para vocês o que eu comprei e se vale a pena ou não”, diz Thainara Oliveira, estilista e criadora de conteúdo, na introdução de um vídeo de quatro minutos e 21 segundos no TikTok.
O primeiro item que ela mostra é uma caçarola bordô de 18 centímetros de diâmetro, com puxador dourado. “Ela é lindinha”, diz. E informa que, com o desconto de 30%, a panela saiu por R$ 1.244.
Em 2025, a empresa franco-belga completa cem anos. Ao longo do vídeo, Thainara mostra mais 12 itens que comprou em junho no bazar da marca em São Paulo. Quase todos custaram de três a quatro dígitos. O mais barato deles é uma espátula de R$ 71 (“acho bem caro para uma espátula”, pondera).
Com 21 itens no total, a coleção da estilista ainda não se compara à das administradoras do fã-clube As Doidas por Le Creuset (@asdoidasporlecreuset): Rayane Correia, advogada (196); Simony Fragoso, criadora de conteúdo (321); Aline Lima Pereira, assessora de imprensa (aproximadamente 200). A participante Marina Fidelis, arquiteta e urbanista, conta mais de 300.
Se hoje os utensílios de cozinha ultra coloridos da Le Creuset são objeto de desejo de colecionadores, grande parte do mérito é do empresário sul-africano Paul van Zuydam. Em 1988, o atual chairman comprou a empresa, à época em dificuldades financeiras.
Durante sua gestão, a Le Creuset se recuperou, cresceu e se tornou um fenômeno nas redes sociais, apostando em novas paletas de cores, edições limitadas, bazares e parcerias com franquias da cultura pop, como Harry Potter e “Star Wars“.
Zuydam diz ter incluído em seu testamento a proibição de demissões em massa em caso de venda ou fusão da empresa no futuro —sua contribuição para tentar amenizar o que chama de “parte maligna do capitalismo”.
Os números da Le Creuset no Brasil são impressionantes. O país representa cerca de 4% das vendas globais da empresa. Das 15 lojas da marca que mais vendem no mundo, cinco estão no país.
“Quatro anos atrás, o Brasil estava na 17ª posição na subsidiária do grupo. Neste ano, está competindo pelo terceiro lugar”, revela Paulo Pinto, diretor do grupo Le Creuset. Ele também estima que um terço dos seguidores dos perfis globais da marca nas redes sociais sejam daqui.
É nesses ambientes online que os admiradores da empresa se encontram para compartilhar informações. “É um espaço para trocar experiências, receitas, dicas de cuidados e celebrar juntos essa paixão que vai muito além dos utensílios. É um estilo de vida”, diz Simony sobre o fã-clube As Doidas por Le Creuset.
Ainda que reservem alguns itens apenas para decoração, todos os colecionadores ouvidos pela Folha juram usar os produtos para cozinhar no dia a dia. Dizem até que a comida feita neles fica mais gostosa.
Segundo Marta Freitas, engenheira de software, e Dheyson Castro, gerente de varejo que administra a página Universo Le Creuset (@universolecreuset) com a personal shopper Camila Olivier, o arroz fica mais soltinho na panela especializada Every (R$ 2.519 na versão de 20 cm).
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“Numa panela sem ser a Le Creuset, um arroz e feijão é só um arroz e feijão. Numa panela Le Creuset, é o arroz e feijão da família brasileira —aquele que a gente merece, sabe?”, diz a empresária Paula Schimek, dona de 135 peças da marca. “Por mim, todos teriam [produtos da Le Creuset]. Eu gostaria que todos sentissem exatamente o que eu sinto.”
Para quem ainda não pode investir mais de R$ 2.000 em uma panela de arroz, mas quer iniciar sua coleção, Paula e outros fãs recomendam começar com acessórios, como espátulas, saleiros, pimenteiros e descansos de talheres.
Chefs se dividem sobre o uso dos utensílios da marca em ambientes profissionais, mas concordam com os fãs quanto à qualidade técnica dos produtos, principalmente na retenção de calor.
“É excelente para quando você vai servir uma massa ou um risoto, por exemplo”, afirma Izabel Alvares, campeã do MasterChef Brasil 2015 e dona do Abelha Catering.
Victor Valadão, chef do restaurante Aiô, eleito novidade do ano no especial O Melhor de São Paulo 2025, ecoa as palavras dos colecionadores: “São panelas excelentes em termos de material, design e durabilidade. Se você cuida bem, principalmente no uso doméstico, pode passar de pai para filho.”
O ponto negativo apontado de forma unânime —até pelos executivos da empresa— é o peso dos utensílios de liga de ferro fundido com esmalte colorido.
“São panelas pesadas. Nem todo mundo tem força para segurar uma frigideira para fazer um ovo ou mais alguma outra preparação corriqueira do dia a dia”, diz Izabel.
Cadu Gasparini, chef brasileiro do wine-bar Gota, em Madri, diz que não é fã da linha de cerâmica da Le Creuset para uso profissional. “Mas de maneira geral acho que são bons produtos, se bem cuidados. Tenho um molde de torta deles que talvez seja meu utensílio favorito. A linha de ferro vejo possível dentro de um restaurante. A de cerâmica, não. Não é realista.”
Paulo Pinto diz que a empresa não tem em foco um “cliente perfeito”, seja ele um cozinheiro profissional ou amador. E resume assim a vocação da Le Creuset: “Um produto utilitário de luxo que funde design, estética e funcionalidade.”
Fonte.:Folha de São Paulo