
Crédito, Wellcome Collection
- Author, Dalia Ventura
- Role, BBC News Mundo*
Séculos atrás, sugerir que os médicos lavassem as mãos era praticamente um insulto.
Afinal, isso insinuava que elas estivessem sujas e, como deixou claro um obstetra do século 19, “os médicos são cavalheiros e as mãos de um cavalheiro estão sempre limpas”.
Em abril de 1847, ele instalou uma bacia cheia de solução de cal com cloro nas enfermarias obstétricas do Hospital Geral de Viena, na Áustria, e começou a salvar a vida de mulheres com apenas três palavras: “Lave as mãos”.
Em apenas um mês, as taxas de mortalidade caíram de 18,3% para 2%.
Se os resultados dessa experiência — e de outras que vieram depois — tivessem convencido todos os médicos da importância de sua teoria, talvez o hábito de lavar as mãos tivesse se espalhado para além do campo da obstetrícia.
Mas não foi o que aconteceu.
O médico húngaro acabou internado em um manicômio pelos seus colegas, que achavam que sua insistência obsessiva em lavar as mãos era loucura.
A ciência ainda precisaria avançar muito antes que a higiene passasse a ser considerada indispensável para a saúde, dentro e fora dos hospitais.
Perigo de morte
Nesse mesmo abril de 1847, no University College Hospital de Londres, John Phillips Potter, um jovem especialista em anatomia, machucou um dos dedos durante a dissecção de um cadáver infectado.
Ele não deu muita importância ao ferimento, mas a infecção se espalhou e, três semanas depois, ele morreu de septicemia.
“As vítimas da dissecção devem ocupar um lugar de destaque entre os mártires da ciência e do conhecimento”, comentou a revista médica The Lancet.
“Podemos salvar nossos artesãos das minas, dos teares e das engrenagens de muitos dos perigos inerentes às suas profissões, mas a nossa arte ainda não conseguiu libertar os nossos próprios trabalhadores desse veneno destrutivo.”
Entre a multidão que assistiu ao enterro estava Joseph Lister, um dos estudantes de Medicina que Potter havia instruído.

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Lister cresceu em um ambiente em que a vida dos organismos mais minúsculos estava sempre presente.
Seu pai, Joseph Jackson, além de ser um próspero comerciante de vinhos, dedicava seu tempo livre à pesquisa e havia inventado a lente acromática, que transformou o microscópio de brinquedo científico em uma ferramenta de descoberta.
Alguns desses pequenos organismos que os microscópios começavam a revelar haviam matado seu instrutor e também, como ele confirmaria depois, milhões de pessoas em hospitais de todo o mundo.
A situação era tão desesperadora que levou o médico James Y. Simpson, um dos cirurgiões que contribuíram para a introdução da anestesia, a afirmar: “Um homem deitado na mesa de operação de um dos nossos hospitais cirúrgicos está exposto a mais chances de morte do que um soldado inglês no campo de batalha de Waterloo”.
De fato, nas salas cirúrgicas e de recuperação, as infecções se espalhavam de paciente para paciente como incêndios florestais.
Nenhum cirurgião tinha certeza se seu paciente sobreviveria após uma intervenção.
A taxa de mortalidade por operações cirúrgicas maiores ou amputações de membros chegava a cerca de 40%, e alcançava 60% em hospitais franceses.
Mesmo as operações mais simples implicavam um alto risco de morte por infecção.

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As infecções hospitalares eram tão comuns que o fenômeno chegou a receber dois nomes: febre de sala e hospitalismo (esse último ainda é usado, mas para descrever outro problema).
Os hospitais eram responsabilizados por isso, e muito se falou sobre fechá-los e realizar o atendimento dos pacientes em casa.
Mas, ainda que houvesse alguma razão nisso, sem descobrir a causa não era possível encontrar uma solução eficaz.
E essa causa era um verdadeiro mistério: havia teorias, mas a ciência médica continuava sem saber o que fazer diante das infecções persistentes que mantinham as taxas de mortalidade tão altas.
Escudo contra micróbios
Lister — que após se formar como médico se apaixonou pela cirurgia — foi trabalhar em Edimburgo, na Escócia, e sofria ao ver como muitos de seus pacientes desenvolviam complicações pós-operatórias graves e até mesmo fatais.
Em 1885, ele mostrou uma ferida que estava cicatrizando sem supuração a John Batty Tuke — na época, o psiquiatra mais influente da Escócia — e disse: “O objetivo principal da minha vida é descobrir como conseguir esse resultado em todas as feridas.”
Mais tarde, como professor de cirurgia e à frente das salas de operações na Universidade de Glasgow, o problema estava constantemente presente, tanto em seu dia a dia quanto em sua mente.
Fazia anos que ele havia notado uma diferença marcada nos resultados entre fraturas simples, quando a pele permanecia intacta, e fraturas expostas, nas quais a superfície da pele se rompia e frequentemente terminavam em infecção hospitalar e amputação.

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Um dia, Lister estava conversando com um colega, o professor Thomas Anderson, quando este mencionou que, na França, o famoso químico Louis Pasteur havia demonstrado que, se fluidos suscetíveis à fermentação e à putrefação fossem mantidos livres de contato com o ar, eles permaneciam frescos.
Mais relevante ainda, o francês havia revelado que o leite azedava e o suco de uva fermentava devido ao crescimento e à ação de partículas vivas minúsculas (micróbios) que podiam ser transportadas pelo ar.
Imediatamente, Lister pensou em testar se, ao interpor um escudo antisséptico entre uma ferida — como as que permaneciam após uma operação — e o ambiente, seria possível prevenir complicações sépticas.
Era 1865. E, pouco depois dessa conversa afortunada, um menino de 11 anos de Glasgow contribuiu involuntariamente para fazer história.
O surgimento do método
A criança era James Greenless, que havia sido atropelado por uma carruagem na rua. Por isso, foi levado à sala de emergência da Glasgow Royal Infirmary.
O menino tinha uma fratura exposta na perna esquerda. Lister decidiu, então, testar o método.
Ele havia pensado que, para matar os micróbios, poderia usar um produto químico, afinal, substâncias antissépticas vinham sendo utilizadas há muito tempo.
Optou por uma substância que costumava a ser usada para limpar o esgoto na cidade de Carlisle e estava disponível na forma de uma solução de ácido carbólico 5%.
Determinou que as mãos, as roupas, os instrumentos cirúrgicos e as feridas deveriam ser lavados com esse produto.
Ao terminar a operação, fez um curativo embebido em ácido carbólico e, de forma crucial, orientou que o curativo fosse trocado várias vezes à medida que os dias passassem.
A ferida começou a formar crostas e sarar. Depois de seis semanas, Greenlees recebeu alta e estava completamente recuperado.
Foi o primeiro sucesso de Lister usando o método.

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Um cheiro de dar náuseas
Talvez surpreenda que algo tão simples — e hoje em dia óbvio — tenha sido tão revolucionário.
Mas, até então, os cirurgiões realizavam curativos ou deixavam as feridas sem proteção.
De fato, a higiene dos hospitais era deplorável.
Havia panos velhos, esponjas e instrumentos sujos espalhados pela sala de operação.
Médicos, aprendizes e auxiliares circulavam livremente entre os pacientes que tratavam e os corpos que dissecavam ou realizavam autópsias.
No ar pairava sempre aquele cheiro inquietante, levemente nauseante, de putrefação, que se impregnava nas roupas do pessoal e dos pacientes.
Os cirurgiões raramente limpavam os equipamentos cirúrgicos ou lavavam as mãos antes das operações.
Apesar de suas provas incontestáveis, as observações de Semmelweiss não tiveram nenhum impacto sobre as autoridades médicas da época.

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Tragicamente, um dia depois de Lister provar o sucesso do tratamento antisséptico na criança em Glasgow, Semmelweis morreu de uma infecção cirúrgica em Budapeste, na Hungria.
Lister só soube do trabalho de Semmelweis em 1883. Ao conhecer os detalhes, o declarou seu precursor.
Naquela época, a esterilização de instrumentos e a lavagem das mãos já eram amplamente praticadas, apesar das resistência inicial de muitos cirurgiões.
O antes e o depois
Após tratar 11 casos como o de Greenlees, dos quais nove se curaram sem infecção, em 16 de março de 1867 Lister publicou na The Lancet um artigo intitulado Um novo método para tratar fraturas expostas.
Aquele era o marco do nascimento da cirurgia moderna, segundo o médico e historiador Zachary Cope (1881-1974).
Lister descreveu os resultados positivos para seus pacientes: membros “que, sem dúvida, teriam sido condenados à amputação” devido à probabilidade de infecção, “podem ser preservados com a confiança de se obter os melhores resultados.”
E isso, que já era por si só valioso, era apenas o início.
Por temor às infecções e aos seus estragos, os cirurgiões quase nunca se arriscavam a realizar operações que envolvessem incisões, nem mesmo a drenar abscessos.
Com seu método, os abscessos podiam ser drenados, as incisões, cicatrizadas, e os hospitais, transformados em locais mais saudáveis.
“Como parece não haver dúvida sobre a causa dessa mudança, a importância do fato dificilmente pode ser exagerada”, escreveu Cope.

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Mesmo assim, a princípio a abordagem antisséptica de Lister teve uma recepção mista, que ia desde a aclamação até uma oposição feroz, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Mas Lister se manteve firme, aperfeiçoando sua técnica constantemente e, em 1871, seu método havia ganhado tanta aceitação que a rainha Victoria o convocou para remover um tumor no braço.
Com o tempo, ele foi nomeado cirurgião pessoal da rainha e honrado com um título nobre.
Seu método se espalhou por toda a Europa ao longo da década de 1870.
Em 1876, Lister cruzou o oceano para levar suas técnicas para os Estados Unidos, conseguindo não apenas que elas fossem adotadas, mas também inspirando outros a criar produtos que ainda hoje são familiares.
Um dos participantes de uma de suas conferências nos EUA foi o médico Joseph Joshua Lawrence, que desenvolveria uma fórmula de um antisséptico para vários usos.
Ele o batizou com o nome de Listerine, em homenagem a quem o inspirou.
Outro participante da mesma conferência, Robert Wood Johnson, se sentiu igualmente inspirado e, com seus irmãos, criou uma empresa para fabricar os primeiros curativos e suturas cirúrgicas estéreis produzidos em massa segundo os métodos de Lister.
Essa empresa era a Johnson & Johnson.
Em 1890, o mundo inteiro havia aceitado a grande inovação de Lister, e os micróbios que causavam a sepse haviam sido identificados e cultivados.
No final daquela década, os métodos antissépticos de Lister levaram à cirurgia asséptica e a introdução de instrumentos esterilizados em cirurgias.
Em 1898, o uso de luvas de borracha e a lavagem das mãos pelo cirurgião já eram obrigatórios.
No final do século, os cirurgiões realizavam regularmente mais tipos e maior quantidade de operações internas bem-sucedidas.
Além de ter sido o primeiro a aplicar os princípios de Pasteur nos seres humanos, Lister fez várias outras contribuições à ciência médica, desde isolar pela primeira vez bactérias em cultura pura (Bacillus lactis) até ser pioneiro no uso de tubos de borracha para drenagem de feridas, entre outras.
No entanto, ele é lembrado principalmente como inovador que revolucionou a história da cirurgia, dividindo-a em duas eras: a que veio antes e a que veio depois dele.
*Este texto foi publicado originalmente pela BBC Mundo em 2020.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL