Nessa noite sonhei com meus filhos. Olivia, 3, de cócoras, cavava um buraco na areia da praia. Daniel, 2, as pernas abertas como um minilutador de sumô, chupava um picolé azul –embora o mais correto fosse dizer que estivesse sendo chupado pelo picolé, pois de tão melecado com as gotas do sorvete azul parecia um Smurf.
Acordei feliz, com essa imagem na cabeça. Uns segundos depois, veio a constatação e o susto: eles não são mais aqueles bebês rechonchudos. Oli tem 12 e vai ao Lollapalooza ver bandas de que eu nunca ouvi falar. Daniel tem 11 e me faz perguntas sobre trigonometria que não faço ideia de como responder. Aquela imagem tão terna da praia ganha um travo.
Nove entre dez amigos com filhos, ao visitarem pais de primeira viagem, dão a mesma dica: “aproveita que passa rápido”. A gente ouve aquilo meio sem entender, achando a pessoa meio besta, tipo, claro que eu vou aproveitar e é evidente que não passa rápido. Ora, leva exatamente uma década para uma criança fazer dez anos, não? É uma eternidade. Aí um dia você acorda de tranquilos sonhos praianos e toma um caldo do mar revolto: essa década já passou.
Do susto pra saudade e da saudade pra uma certa revolta com a constatação óbvia e absurda de que aqueles bebês não existem mais. Foram fagocitados por esses pré-adolescentes que agora ouvem Chappell Roan e citam Pitágoras. Não me entendam mal. Eu amo esses dois pré-adolescentes. Fico orgulhoso que estejam cavando pelo mundo caminhos que eu jamais preveria e para os quais, acredito, pouco contribuí.
O que eu queria era que eles fossem exatamente quem eles são hoje. Cada um no seu quarto, no meu apartamento. Mas aí eu abro uma terceira porta, entro e estão os dois pequenininhos, dormindo em suas minicamas com uma lâmpada de urso fraquinha e amarela na tomada do canto. Poderia ser assim sucessivamente. Daqui a seis, sete anos, quando estiverem estudando pro vestibular (ou tocando no Lollapalooza ou ensinando geometria), gostaria de abrir uma porta e dar com os dois aos 12 e aos 11. Àquela altura, eu já saberia quem é Chappell Roan e teria aprendido as respostas sobre Pitágoras.
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“Aproveita, que passa rápido”, dizem os amigos. Que passa rápido eu já entendi. A pergunta mais dolorosa, contudo, é: “eu aproveitei?”. Onde estou naquela imagem da praia, no sonho? Será que estou fechado numa casa alugada, num sábado, penando pra terminar algo que à altura parecia ser pra mim tão importante quanto a cura do câncer, mas era só uma crônica, a orelha de um livro, um roteiro pra televisão? Será que estou na praia, mas tomando cerveja com meus amigos embaixo de um guarda-sol, em vez de aproveitar aquelas delícias compostas de amor, dobrinhas, areia —e no caso do Dani, açúcar, gordura hidrogenada e corante azul?
É muito clichê isso tudo, mas quem disse que a dor original é mais aguda que a do lugar-comum? Dar uma topada é mais clichê do que ter o dedão do pé atingido por uma escova de cabelo derrubada da pia por uma cacatua e ainda me parece que a topada dói mais. Aproveita, pessoal, porque passa rápido. Sem contar que o Lollapalooza é lá em Interlagos e trigonometria é complicado pra caramba. (Obrigado ao Sérgio e à Fabi que tão levando ao Lollapalooza e ao Paulo, professor particular de matemática).
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Fonte.:Folha de S.Paulo


