
Crédito, Acervo Luis Fernando Verissimo
- Author, Luiz Antônio Araujo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
Nacionalmente conhecido pelas crônicas de humor nas quais despontaram personagens como a Velhinha de Taubaté, o Analista de Bagé e o detetive Ed Mort, pelas tiras das Cobras e da Família Brasil e pelos roteiros para TV, cinema e teatro, Luis Fernando Verissimo era uma usina de inteligência e criatividade em carne e osso.
A produção é tão vasta que se torna difícil até mesmo defini-lo com base nas categorias existentes da produção literária e artística. Escritor? Cronista? Humorista? Roteirista? Intelectual?
Qualquer um desses rótulos corre o risco de deixar fora uma variedade de aspectos da trajetória do autor que sempre fez questão de não se levar demasiadamente a sério — nem aos outros — e que morreu neste sábado (30/8), aos 88 anos, em Porto Alegre (RS).
Mais do que os predicados como profissional, muitos dos que conheceram Verissimo de perto admiram sua grandeza humana.
É o caso do publicitário e escritor Fraga, amigo de Verissimo por 53 anos e a quem coube, entre outros privilégios, emprestar as feições para o Analista de Bagé: “Gosto mais do Luis Fernando como pessoa do que como escritor”, resume.
Fato é que Verissimo foi dono de diferentes facetas, algumas pouco conhecidas por seu público mais cativo.
Ele teve um lado desenhista, outro músico. Era fanático por futebol, apesar de ter passado parte da infância nos Estados Unidos e de ter sido visto muitas vezes como excessivamente influenciado pela cultura norte-americana e europeia. Cultivou uma relação afetuosa, porém difícil, com o pai e era bastante generoso com jovens artistas.
Conheça essas e outras histórias a seguir.

Crédito, Marcos Oliveira, ALRS, divulgação
O homem de imprensa
Nascido em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre, ele só passou a ser conhecido pelo sobrenome depois da morte do pai, Erico (1905-1975).
Antes disso, era “o filho do Erico” ou “Luis Fernando” — qualquer outro tratamento implicaria risco de ser confundido com o maior nome da literatura gaúcha.
Apesar de ter nascido e crescido em uma casa cheia de livros e acostumado à companhia de escritores e artistas — ou talvez por isso mesmo —, Verissimo jamais se viu como predestinado à atividade literária.
A primeira e mais marcante influência do pai, aquela na qual ele parece ter visto um espaço para si próprio, foi a atividade jornalística e editorial.
Natural de Cruz Alta, na região centro-norte do Rio Grande do Sul, que serviu de ambiente para boa parte de sua obra, Erico chegou a Porto Alegre em 1930 como tradutor da Livraria do Globo, uma das principais casas editoriais do país, e secretário de redação da Revista do Globo, principal publicação da casa.
Era uma posição de prestígio, mas insuficiente para mantê-lo e à mulher, Mafalda (1913-2003), antes dos primeiros êxitos literários.
Para complementar a renda, o escritor iniciante tornou-se colaborador do Diário de Notícias e do Correio do Povo, dois dos principais diários da época.
Sua militância jornalística foi tão marcante que, em 1935, Erico foi eleito primeiro presidente da recém-criada Associação Riograndense de Imprensa (ARI), que existe até hoje.
A exemplo do pai e de praticamente todos os grandes nomes da literatura gaúcha, Luis Fernando produziu grande parte de sua obra na e para a imprensa, inclusive diária.
Embora tenha crescido entre redações de jornais e a sede da Livraria do Globo, uma das principais editoras do país, acompanhando o pai, Verissimo estreou relativamente tarde no ofício, aos 31 anos.
Quando assumiu pela primeira vez como interino uma coluna de notas no jornal Zero Hora, em 1969, era casado com Lucia, pai de duas filhas (Fernanda, nascida em 1965, e Mariana, em 1967) e conhecido apenas pelo sobrenome ilustre.
Passara por empresas de publicidade como redator até se tornar, no início dos anos 1970, sócio de uma delas, com o argentino radicado no Brasil Anibal Bendatti, chefe de diagramação de Zero Hora.
Na era de ouro da publicidade impressa, o carro-chefe da parceria era a revista Carrinho, produzida para o Supermercado Real.
Foi no coquetel de lançamento da publicação, no início dos anos 1970, que Fraga apertou pela primeira vez a mão do futuro escritor.
Depois, fizeram dupla como redatores da agência MPM, além de colunistas do jornal Folha da Manhã, do grupo Caldas Júnior, que editava o Correio do Povo, principal veículo da imprensa gaúcha na época.
“Na MPM, ficávamos na mesma sala, cada um em uma mesa. O filho dele, Pedro (nascido em 1970), estudava no anexo do Instituto de Educação, e o meu filho também. Era um convívio muito próximo”, diz Fraga.
Outro companheiro de Verissimo na Folha da Manhã, o artista gráfico Edgar Vasques, deve ao escritor a consagração de seu mais célebre personagem.
“Quando ele (Verissimo) tirou férias, não havia outro humorista no jornal. Aí os caras me escalaram para substituí-lo. Eu disse: quem sou eu?”, recorda-se.
Para dar conta da tarefa, Vasques lançou mão do miserável latino-americano Rango, que criara em 1970, ainda como estudante na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Com o ambiente opressivo de censura sob a ditadura militar, a criatura amargara, no dizer do artista, “três aninhos na gaveta”.
Ao retornar à redação, Verissimo brincou com o substituto dizendo que “perdera o emprego”, lembra Vasques, logo alçado a titular de uma coluna própria no jornal.

Crédito, Luiz Antônio Araujo
O desenhista
Quando Verissimo lançou a primeira coletânea de crônicas, O popular, em 1973, pela José Olympio Editora, a matéria-prima foram os textos e tiras publicados na Folha da Manhã.
Ele dizia que havia aprendido os fundamentos da arte gráfica com o “velho Zeuner” no departamento gráfico da Editora Globo.
Formado na Academia de Artes de Leipzig, Alemanha, Ernst Zeuner (1895-1967) foi um dos responsáveis pela elevação do padrão gráfico das publicações da Globo, além de ter deixado pelo menos uma pintura icônica: o Quadro da Chegada, óleo sobre tela que retrata a chegada dos colonos alemães ao Rio Grande do Sul em 1824 e está no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.
Seu traço despojado e conciso mostrava outra influência: a produção de Jules Feiffer, Saul Steinberg e outros grandes nomes do desenho de imprensa dos Estados Unidos, que conhecera nas duas passagens da família pelos Estados Unidos (1943-1945 e 1953-1956).
Modesto, Verissimo costumava referir-se ao período até os anos 1970 como “a época em que eu desenhava mal”.
“Ele dizia, ironicamente: ‘Eu desenho quando tô com preguiça de escrever'”, afirma Vasques. E completa, rindo: “Como se fosse mais fácil”.
Em 1975, Verissimo retornou a Zero Hora como colunista diário e passou a colaborar também com o Caderno B do Jornal do Brasil.
No jornal gaúcho, nasceram tipos como o Analista de Bagé e o detetive Ed Mort, enquanto a Velhinha de Taubaté, “a última brasileira a acreditar no governo”, viria à luz em 1982 na revista Veja.
Verissimo deixaria de escrever apenas em 2021, em razão de sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC).

Crédito, Divulgação
A relação de Verissimo com o pai foi marcada pelo afeto, por um lado, e pela incomunicabilidade, por outro.
Em seu livro de memórias, Solo de clarineta, cujo segundo tomo foi organizado por Flávio Loureiro Chaves e publicado postumamente, Erico registra o desejo frustrado de uma relação mais próxima e transparente com o filho.
Ao mesmo tempo, o escritor reconhecia no temperamento fechado de Luis Fernando traços de sua própria timidez.
Às vezes, chegava a recorrer a terceiros em busca de pistas para se aproximar do filho.
“Por favor, me fala do Luis”, disse certa vez ao jornalista Ruy Carlos Ostermann (1935-2025), amigo de ambos e responsável pela passagem de Verissimo filho pela Folha da Manhã.
Não se tratava de uma dificuldade típica de Erico.
Indagado sobre se alguma vez notou Verissimo mais expansivo em 53 anos de amizade, Fraga sorri e responde de pronto: “Nunca”.
Relata, porém, um episódio que sintetiza a personalidade do amigo.
“Uma vez, vi um álbum de um cartunista alemão maravilhoso que só tinha para vender nos Estados Unidos. Pedi: ‘Luis Fernando, vocês estão indo de férias para os EUA, me traz este álbum que eu te reembolso'”, conta o publicitário.
Ao retornar, Verissimo entregou-lhe o volume e não aceitou ressarcimento. Fraga pediu-lhe, então, uma dedicatória e, quando o amigo estava com a caneta em punho, acrescentou: “Por favor, né? Escreve uma dedicatória bonitinha. Não vai escrever nada lacônico”.
A mensagem que acabou rabiscada no livro dizia: “Para o Fraga, com a amizade lacônica porém sincera do Luis Fernando”.
O incentivador de talentos
O retraimento não impedia Verissimo de atender religiosamente pedidos de entrevista e produção de prefácios, orelhas e declarações que lhe chegavam todos os dias às dúzias, normalmente mediados pela mulher, Lucia.
O jornalista e escritor Roberto Jardim foi um entre as centenas de agraciados pela generosidade do ídolo, que entrevistou pela primeira vez ainda como estudante de Jornalismo.
“Ele pediu que eu mandasse as perguntas por fax. Nem e-mail existia ainda. Mandei. Uma delas devia ser como ele se descrevia. Ele escreveu: ‘Um rapaz alto, moreno, cabelos castanhos ondulados, enigmático e sensual'”, diz Jardim.
À mão, Verissimo adicionou um comentário na folha de fax: “Espalha, espalha”.
Em 2020, Jardim voltou a contatar o escritor, desta vez com um pedido de texto de apresentação para seu segundo livro, Democracia Fútbol Club.
“Uma semana depois, acho, recebi um envelope com os originais, algumas linhas elogiosas e o texto que entrou na contracapa do livro”, afirma.

Crédito, Luiz Antônio Araujo
O músico
Aficionado por música de todos os gêneros, assim como o pai, mas com especial predileção pelo jazz, Verissimo frequentou desde a adolescência auditórios e estúdios de gravação.
Saxofonista amador, participou de conjuntos e bandas, a mais famosa das quais foi a Jazz 6, que se apresentou no Rio Grande do Sul e em São Paulo e gravou cinco álbuns, o último deles, Nas nuvens, em 2011.
“Costumávamos nos encontrar antes e depois de programas de TV que tinham apresentações musicais, antes do advento do videoteipe, quando a cultura local tinha espaço nas transmissões”, diz Batista Filho, presidente de honra da ARI.
O amor pelo jazz foi apurado na segunda passagem dos Verissimo pelos Estados Unidos, nos anos 1950.
Era o auge do bebop, estilo jazzístico caracterizado pelo virtuosismo no qual pontificaram Charlie “Byrd” Parker e Dizzy Gillespie, entre outros.
Com Erico empregado na União Panamericana, com sede em Washington, onde a família vivia, o jovem Luis Fernando costumava pegar o trem para Nova York a fim de assistir apresentações de seus ídolos.
Chegou a ouvir “Byrd” e outros ao vivo na noite nova-iorquina e decidiu-se a aprender trompete, mas, diante das dificuldades do instrumento, optou pela suavidade do sax.
Às vezes, as facetas de músico e desenhista mesclavam-se, como quando integrou o Conjunto Nacional com os irmãos Chico e Paulo Caruso, amigos de longa data, e outros.
Em outras, eram os artistas que buscavam inspiração em sua obra, como fizeram os também gaúchos Kleiton e Kledir ao compor Analista de Bagé, inspirado no personagem de Verissimo.
O torcedor fanático
Visto muitas vezes como excessivamente influenciado pela cultura norte-americana e europeia, Verissimo não disfarçava a brasilidade em um de seus aspectos característicos: a paixão futebolística.
Dizia com orgulho que tinha visto jogar os maiores times (Santos, Botafogo, Real Madrid) e jogadores (Pelé, Garrincha, Di Stefano) de sua juventude.
Em Porto Alegre, tornou-se ainda criança um frequentador impenitente de estádios.
Sua estreia como colunista coincidiu com a inauguração do Beira-Rio, estádio do Sport Club Internacional, time do coração, em 1969.
Futebol não era apenas tema frequente de suas colunas diárias, mas acabou por se tornar parte do cotidiano da casa dos Verissimo no bairro Petrópolis, frequentada por jogadores e dirigentes.
Foi durante um churrasco na residência com o zagueiro chileno Elías Figueroa, recém-contratado pelo Internacional, emocionou a todos ao declamar versos do poeta Pablo Neruda, seu compatriota morto meses antes, às vésperas do golpe militar de 1973 no país.
O apego de Verissimo ao Internacional refletiu-se em um detalhe quase imperceptível em seu velório.
Sobre o caixão, a família depositou um flâmula desbotada com o nome do clube acompanhado da frase “Campeão brasileiro”.
Como a peça não ostenta data e o time ergueu a taça do Campeonato Brasileiro em três oportunidades (1975, 1978 e 1979), é presumível que a comemoração seja alusiva à primeira conquista.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL