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6 de janeiro de 2026

Medicina, tecnologia e valores – 03/01/2026 – Opinião

Medicina, tecnologia e valores – 03/01/2026 – Opinião

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Nas últimas décadas, a medicina tem avançado muito a partir de testes feitos com aplicação rigorosa do método científico. Mas as evidências de testes clínicos têm limites, com consequências diretas na cobertura ofertada pelos sistemas públicos de saúde e pelas operadoras de saúde complementar.

Testes clínicos consomem muitos recursos, são complicados e demorados. A indústria farmacêutica faz o investimento quando a conjectura a testar envolve um fármaco. Mas, em áreas como a cirurgia, os procedimentos devem muito mais ao conhecimento nascido da prática médica do que aos testes científicos. Além disso, características individuais dos pacientes podem ter muita relevância para a escolha do tratamento, e é impossível incluir todas as variações individuais nesses estudos. Não há dinheiro para experimentar cientificamente todo o saber da medicina.

Na verdade, nunca se poderá contar apenas com evidências de testes clínicos, porque a urgência das condições de saúde dos pacientes demanda decisões que não podem aguardar o aceite da agência de fomento, os grupos de controle, a revisão cega dos pares e a publicação em revista de prestígio.

Esses limites e urgências precisam ser considerados, por exemplo, nas discussões sobre o custeio de tratamentos, público ou privado. Se depositarmos na medicina baseada em evidências um entusiasmo exagerado, como se somente ela pudesse ter todas as respostas, o que fazer quando não dispomos de “evidências dos testes clínicos”?

É um grande erro afirmar que a medicina não baseada em evidências dessa natureza não é mais medicina. Nos consultórios e nas salas de cirurgia de todo o mundo, a prática cotidiana produz conhecimentos que não podem ser desprezados. Um conceito cegamente positivista como este produz também o efeito adverso de inibir os muitos avanços que acontecem graças apenas às intuições de profissionais competentes.

A distribuição de informação originada em testes clínicos é extremamente desigual. Enquanto a cardiologia conta com centenas de estudos, outras especialidades carecem de evidências até para procedimentos corriqueiros.

Quando a medicina baseada em evidências chega aos seus limites, não será a tecnologia que dará as respostas. Elas só poderão vir de uma discussão sobre valores, sobre o que é certo ou errado fazer a partir de concepções morais. Nenhuma experiência científica consegue nortear essa discussão —e ela está hoje ausente nos debates sobre coberturas de procedimentos, que são baseados em supostos valores “exatos”.

Nem sempre, assim, pode-se negar cobertura a procedimentos médicos apenas sob a alegação de inexistência de evidências científicas sobre a sua eficácia. Se, por exemplo, um conjunto de cirurgiões experientes, versados na técnica de um tipo pouco frequente de cirurgia, defende que uma determinada incrementação técnica pode reduzir significativamente o risco de complicações durante o procedimento, assegurando uma melhor recuperação, esse conhecimento não pode ser ignorado sob o argumento de inexistência de testes clínicos.

Os valores éticos e morais também precisam ser relevantes para as decisões dentro dos sistemas de saúde, evitando a custosa e indesejada judicialização. A alegação de ausência de evidências baseadas em testes clínicos não pode se transformar em motivo de recusa automática de cobertura.

Apontar limites para a medicina baseada em evidências não é propagar nenhuma forma de negacionismo científico. Também não é validar a pseudociência. É, na verdade, realçar a complexidade da questão posta: a ciência pode muito, mas não pode tudo; e onde ela não pode dar a resposta, a resposta cabe à discussão sobre valores éticos.


TENDÊNCIAS / DEBATES

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Fonte.:Folha de S.Paulo

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