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24 de fevereiro de 2026

México: Por que a morte de chefão do tráfico ‘El Mencho’ não vai acabar com a violência dos cartéis

México: Por que a morte de chefão do tráfico ‘El Mencho’ não vai acabar com a violência dos cartéis

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Um membro do Ministério Público segurando uma metralhadora em frente a um ônibus em chamas em Zapopan, no estado de Jalisco, no México, em 22 de fevereiro de 2026.

Crédito, Ulises Ruiz/AFP via Getty Images

Legenda da foto, Agente de segurança segura metralhadora em frente a ônibus em chama em Zapopan, no estado de Jalisco, no México, após morte de traficante

    • Author, Fernando Duarte
    • Role, Da BBC News
  • Tempo de leitura: 5 min

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes pelas forças de segurança mexicanas em 22 de fevereiro é, sem dúvida, um grande triunfo para os esforços do país latino-americano em conter a influência e o poder de seus cartéis de drogas.

Mas como isso afetará a organização criminosa que ele deixa para trás?

Quem era ‘El Mencho’?

Cartaz de recompensa para 'El Mencho'. Nele consta: recompensa aumentada para até US$ 15 milhões por informações que levem à prisão e/ou condenação de Nemesio Ruben Oseguera Cervantes, também conhecido como 'El Mencho'.

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Cartaz que oferecia recompensa pela prisão de ‘El Mencho’

O homem conhecido como “El Mencho” era o líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), uma organização que, na última década, se tornou uma das mais temidas do México.

Sob seu comando, o CJNG desempenhou um papel importante no tráfico global de drogas desde aproximadamente 2011.

A organização diversificou suas operações, passando a atuar no tráfico de pessoas, na mineração ilegal de ouro e até mesmo na produção de abacate.

Em 22 de fevereiro de 2026, um comboio da Guarda Nacional na Cidade do México escolta um Rhino, um veículo blindado tático usado em operações de alto impacto e situações críticas de segurança, após as forças federais terem matado 'El Mencho'. Militares com capacetes de proteção estão em veículos abertos, portando metralhadoras.

Crédito, Gerardo Vieyra/NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto, Forças de segurança patrulham a Cidade do México logo após a morte de ‘El Mencho’

Especialistas entrevistados pela BBC News alertam que a complexidade da estrutura do cartel significa que a morte de “El Mencho” dificilmente derrubará a instituição.

“A morte de El Mencho é simbolicamente muito significativa”, diz a professora Annette Idler, especialista em segurança global da Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

“Ele era fundamental para o CJNG, que se tornou uma das organizações criminosas mais dominantes do México, com alcance nacional e internacional. Mas não acho que terá um grande impacto no tráfico de drogas em geral. A cadeia de suprimentos ainda existe.”

A carcaça de um caminhão em chamas em meio aos escombros. Um prédio e cabos telegráficos estão próximos, em um dia ensolarado com céu azul.

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Um caminhão pega fogo perto de Acatlán de Juárez, no estado de Jalisco, após o assassinato de ‘El Mencho’

Exemplos do passado comprovam a resiliência dos cartéis diante da perda de seus líderes.

O principal rival do CJNG, o cartel de Sinaloa, sobreviveu às repetidas capturas — e subsequentes fugas — de seu líder, Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo. Sua prisão mais recente ocorreu em 2016.

A professora acrescenta que os cartéis estão inseridos econômica e socialmente na sociedade mexicana. “Eles frequentemente oferecem oportunidades de emprego e sustento para as populações locais.”

Jennifer Scotland, especialista em crime organizado do instituto Royal United Services Institute, com sede em Londres, afirma que as organizações criminosas se preparam para a captura ou morte dos traficantes que as comandam.

“‘El Mencho’ é alvo do governo mexicano há muitos anos. Portanto, é possível que o CJNG tenha feito planos para sua sucessão”, disse ela à BBC News.

Seis guardas com uniforme cinza-claro, capacetes pretos e lenços pretos cobrindo o rosto fazem a guarda em uma calçada e rua. Eles estão armados com metralhadoras. Um prédio de tijolos vermelhos com janelas fechadas está atrás deles.

Crédito, Mario Guzman/EPA

Legenda da foto, Agentes da Guarda Nacional do México isolam área para onde o corpo do traficante foi levado após seu assassinato na Cidade do México

Em resposta à notícia do assassinato de “El Mencho”, Guadalajara — a terceira maior cidade do México e capital do estado de Jalisco — mergulhou no caos, com os soldados do cartel fazendo retaliações e promovendo uma onda de violência nas ruas.

Desde então, os ataques se espalharam por 20 Estados mexicanos, incluindo a capital, Cidade do México.

Mapa mostrando o México, o estado de Jalisco, Guadalajara e Puerto Vallarta. Um marcador indica o sudoeste de Guadalajara, com a inscrição "Operação contra o cartel em Tapalpa".

Isso parece corroborar os temores de que a morte do traficante possa levar a uma deterioração ainda maior da situação de segurança no México.

O CJNG ficou conhecido por seus ataques contra autoridades e forças de segurança, bem como por demonstrações públicas de violência brutal em sua guerra territorial contra organizações rivais.

Membros do Corpo de Bombeiros de Guadalajara trabalham para extinguir um incêndio que envolve vários veículos em Guadalajara, no México, em 22 de fevereiro de 2026. Um caminhão e um ônibus estão em chamas, cercados por um grande grupo de bombeiros.

Crédito, Francisco Guasco/EPA

Legenda da foto, Em Guadalajara, veículos foram incendiados após a morte de ‘El Mencho’

“Já estamos vendo retaliações descaradas do CJNG em todo o México na forma de bloqueios de estradas, incêndios criminosos e ataques à infraestrutura — que são respostas típicas de grupos do crime organizado mexicano, em protesto contra prisões de alto perfil e outras ações de repressão do Estado”, acrescenta Scotland.

Duas ameaças adicionais são possíveis lutas internas dentro do CJNG pela sucessão do traficante e uma tomada de poder por cartéis rivais. “Qualquer sinal de fraqueza pode levar grupos rivais — como o cartel de Sinaloa — a tentar retomar o controle territorial em áreas disputadas.”

Em 22 de fevereiro de 2014, 'El Chapo' caminha com a cabeça baixa e as mãos para trás, cercado por forças de segurança em uniforme camuflado verde. Ele veste uma camisa branca com gola, tem cabelos pretos, com algumas entradas, e um bigode preto.

Crédito, Susana Gonzalez/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, O chefe do cartel de Sinaloa, Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán, é escoltado por forças de segurança no Aeroporto Internacional da Cidade do México, em fevereiro de 2014

Há também a questão de como as autoridades mexicanas podem manter uma luta em duas frentes, já que as forças de segurança estão envolvidas em grandes operações contra o cartel de Sinaloa.

A professora de Oxford argumenta que a situação põe em xeque a atual “abordagem de decapitação” adotada pelo governo em relação ao crime organizado. Ela alerta: “Isso não aborda a estrutura criminosa nem a questão da demanda por drogas nos países ocidentais.”

Editado por Andrew Webb, da BBC World Service



Fonte.:BBC NEWS BRASIL

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