Enquanto escrevo essas palavras, quatro astronautas estão numa cápsula do tamanho de uma tenda a centenas de milhares de quilômetros daqui, a caminho da Lua. Tenho 47 anos e estou há 47 anos esperando por esse evento. Dá uma sensação de fechamento de mais um arco na narrativa da vida, um sentimento bom, que aparece mais e mais vezes conforme a gente vai envelhecendo, e faz a gente pensar: valeu a pena.
Eu me lembro de, ainda menino, contemplar a famosa “imagem do homem na Lua”, fotografia icônica feita por Neil Armstrong de Buzz Aldrin na “magnífica desolação” da superfície lunar, e contemplar aquela cena extraterrestre com o mais puro encantamento. Cenas ocorridas em 1969, dez anos antes de eu nascer. Se os conspiracionistas que dizem acreditar que o homem nunca foi à Lua bradam alto o fato de nunca termos voltado lá, imagine a frustração dos entusiastas? Foi com muita paciência e um bocado de convicção que aguardei por décadas esse voo da Artemis 2. Está acontecendo. Agora.
Confesso que, até uns dois ou três dias antes da decolagem, o que eu mais sentia era um certo vazio. Perguntava a mim mesmo: “Como é possível eu esperar tanto tempo por algo e, quando chega a hora, eu quero que eles adiem, se possível por um ano ou mais?” Convenhamos, não está fácil por esses dias se entusiasmar com os Estados Unidos, enfronhados em uma guerra infrutífera no Irã e envoltos em convulsão social, com protestos espalhados pelo país contra as atitudes narcisistas e imperiais de seu atual presidente.
E aí me lembrei que a Apollo 8, uma das minhas missões favoritas, ocorreu em dezembro de 1968 –ano em que os Estados Unidos estavam enfronhados em uma guerra infrutífera (Vietnã) e envoltos em convulsão social, com a luta pelos direitos civis e os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy. Em meio ao caos, Frank Borman, James Lovell e William Anders foram os primeiros a realizar essa incrível jornada, até então pertencente apenas aos sonhos de Johannes Kepler e Jules Verne.
Daquele 1968 medonho (tanto lá como cá, com o AI-5 e o recrudescimento da ditadura), a Apollo 8 é uma doce lembrança, um sinal de esperança em meio a tempos turbulentos, naquele Natal. A história gosta de rimas, e chegamos a um 2026 também extremamente tenso, e dele a Artemis 2 será uma das poucas luzes que nos guiarão rumo ao futuro, durante a celebração da Páscoa. Não sou religioso, mas gosto de poesia.
A história, com seus bons e maus momentos, se repete. Mas estamos aprendendo. Dificilmente a guerra no Irã vai se estender como a do Vietnã. A atual corrida espacial entre EUA e China não é o duelo de vida ou morte que foi a disputa entre EUA e URSS no século passado. E se as tripulações das antigas missões Apollo antes voavam “por toda a humanidade” sendo todas compostas de homens brancos americanos, a Artemis 2 leva às imediações da Lua a primeira mulher, o primeiro homem negro e o primeiro cidadão não americano a realizarem semelhante jornada –primeiros de muitos outros. Passo a passo, a humanidade pode ser celebrada e representada em sua plenitude, e não há retrocesso que vá impedir isso.
Que as próximas páginas da história contem momentos ainda mais bonitos, e que a humanidade consiga continuar se vendo como um empreendimento que vale a pena, a despeito de todos os erros e tragédias que, como humanos, por vezes ensejamos. De minha parte, é um sonho de menino que se realiza. E só isso, por mim, já valeu.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


