A cacica Catarina Kunhã Nimbopÿrua ancestralizou —termo da cosmovisão indígena utilizado para dizer que aquela pessoa migrou para o plano espiritual. Ela foi liderança do povo tupi-guarani no litoral de São Paulo, educadora e referência feminina no movimento de luta dos povos originários.
Kunhã Nimbopÿrua esteve à frente da luta pela elaboração da Constituição de 1988, sendo uma das vozes que garantiu os direitos territoriais e culturais aos povos originários naquele momento histórico e liderou o movimento da educação escolar indígena no estado.
Nascida em 1950, na Terra Indígena Bananal, no litoral paulista, dedicou sua vida à luta pelos direitos dos povos indígenas —atuou de forma pioneira em frentes como território, saúde, cultura e educação.
Participou da composição da União das Nações Indígenas, na década de 1970, ao lado de importantes lideranças, entre elas Ailton Krenak. A iniciativa foi considerada a primeira organização indígena de caráter nacional e teve incidência na conquista de direitos.
Formada em pedagogia, atuou em processos importantes relacionados à educação escolar indígena, tornando-se uma referência para diferentes gerações, principalmente na Terra Indígena Piaçaguera, em Peruíbe (SP), onde também foi professora e vice-diretora.
Ela se interessou por antropologia para contar a própria história e a história de seu povo tupi-guarani e seus antepassados. Durante sua caminhada, apontou uma série de apagamentos que foi sistematicamente imposta contra sua etnia.
Dedicou-se a perpetuar a tradição de repassar os conhecimentos de forma oral. Também lançou o livro infantil “Contos da Vovó e do Vovô Tupi-Guarani” e foi coautora da publicação “Diretrizes para a Gestão e Bem Viver”, voltada à administração territorial indígena.
Na capital paulista, ela esteve presente desde os processos que antecederam a criação do Museu das Culturas Indígenas, localizado no bairro Água Branca. Contribuiu de maneira decisiva para a consolidação desse espaço, que ela reconhecia como uma Tava, uma casa de transformação.
Como conselheira do Aty Mirim, entidade indígena do povo tupi-guarani, participou ativamente da construção dos caminhos institucionais do museu, compartilhou conhecimentos, orientou decisões e fortaleceu o compromisso da instituição com a escuta e o protagonismo indígena.
Organizações indígenas, instituições e políticos se manifestaram sobre a sua partida. A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) disse que ela foi uma “liderança política de primeira ordem e referência estratégica na defesa dos direitos originários”.
Sônia Guajajara, deputada federal (Psol-SP) e ex-ministra dos povos indígenas, ressaltou a cacica como “grande referência”.
Nascida em 25 de novembro de 1950, Catarina Kunhã Nimbopÿrua morreu no último dia 16, aos 75 anos. Deixou quatro filhos e dez netos.
Fonte.:Folha de S.Paulo


