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- Author, Miranda Green
- Role, BBC Future
Na pantanosa Nova Orleans, no Estado americano da Louisiana, o calor é penetrante. Tanto que seus moradores dizem que o clima da cidade é basicamente o verão, salpicado com outras estações.
O diretor médico de gestão de emergências do Centro Médico Universitário New Orleans, Jeffrey Elder, observa muitos pacientes sofrerem de insolação.
“Infelizmente, nós observamos isso em todos os verões, de diferentes formas”, ele conta.
“Pode ser alguém mais idoso que simplesmente não usa, ou não pode usar o ar-condicionado, ou cujo aparelho está quebrado. Ele fica sozinho em casa e alguém o encontra mais tarde, em estado alterado de insolação.”
As crianças e os idosos são especialmente suscetíveis ao calor, segundo Elder, pois são menos capazes de regular sua temperatura corporal.
Quando chegam ao pronto atendimento, muitas vezes apresentam quadros considerados casos de emergência.
Normalmente se encontram em estado mental alterado. Alguns chegam inconscientes, com temperatura interna do corpo de 39,5 °C ou mais, segundo Elder.
A primeira medida, segundo o especialista, é resfriá-los com banhos de gelo.
Paralelamente, pesquisadores e ativistas declararam à BBC que a saúde dos cidadãos norte-americanos está em risco, já que as pessoas têm dificuldade para pagar pelo uso de aparelhos de ar-condicionado, que podem ajudar a evitar doenças e mortes relacionadas ao calor.
Manter os espaços internos mais frescos com ar-condicionado em comunidades como Detroit, no Estado do Michigan, se mostrou eficaz para impedir o superaquecimento nos meses de verão.
Mas este é um luxo pelo qual nem todas as pessoas podem pagar.

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Em 2020, cerca de 34 milhões de residências nos Estados Unidos passaram por insegurança energética — a incapacidade de pagar pelas suas necessidades básicas de energia, como ar-condicionado e aquecimento — segundo pesquisa da Associação Americana de Informações Energéticas, uma agência governamental. Na época, este número representava quase 25% de todas as casas do país.
“O acesso ao ar-condicionado é algo importante nesta região [Nova Orleans]”, segundo Elder.
“Não apenas ter simplesmente acesso, mas ter acesso a ar-condicionado de boa qualidade e em funcionamento, não abaixo dos padrões.”
O economista do setor de energia Mark Wolfe é diretor-executivo da Associação Nacional de Diretores de Assistência à Energia dos Estados Unidos (Neada, na sigla em inglês). A entidade ajuda os Estados com programas de assistência energética.
Ele afirma que as preocupações com os impactos de longo prazo do calor em todo o país são relativamente recentes.
“Dois anos atrás, você tinha uma onda de calor que durava talvez um ou dois dias”, ele conta.
“Você pode ficar em um apartamento superaquecido por um dia, mas não consegue ficar por uma semana. Se ficar nele por uma semana, você pode morrer.”
Em 2020, cerca de 25 milhões de famílias relataram terem reduzido ou passado sem alimentos ou remédios para pagar a conta de energia. E cerca de 12 milhões de residências receberam aviso de desligamento — uma em cada 10 no país.
O impacto climático do ar-condicionado
Mas o aparelho também é uma ferramenta essencial para proteger as pessoas contra o aumento das temperaturas globais, o que nos leva a esperar com que as emissões causadas pelo ar-condicionado aumentem no futuro.
O gasto com energia é desproporcionalmente alto entre as pessoas mais pobres nos Estados Unidos.
As famílias de baixa renda gastam cerca de 10% da sua renda com energia. E os americanos como um todo gastam com energia 6% dos seus rendimentos, segundo um relatório publicado em 2020 pela organização de pesquisa sem fins lucrativos Conselho Americano para a Economia Eficiente de Energia.
Isso pode levar as famílias a fazer malabarismos para definir quando ligar o ar-condicionado, se tiverem o aparelho em casa. E, muitas vezes, elas sofrem as consequências de viver sem essa comodidade.
O calor extremo causa anualmente mais mortes nos Estados Unidos do que os furacões, tornados e terremotos, segundo o Serviço Nacional do Clima do país. Mas os especialistas afirmam que os dados sobre os impactos gerais do calor ainda são insuficientes.
Wolfe afirma que existem poucos estudos que demonstrem os impactos sofridos pelas comunidades americanas em virtude do calor extremo. E existem ainda menos pesquisas que mostrem o real número de mortes causadas pelo calor.
Isso ocorre, em parte, porque nem todos os hospitais contam com classificações padronizadas das doenças relacionadas ao calor, segundo Elder — incluindo o próprio Centro Médico Universitário New Orleans.
O problema, segundo ele, é que uma pessoa atingida pelo calor pode ser diagnosticada de “um milhão de formas diferentes”, tornando o rastreamento extremamente difícil.
Um paciente pode receber, por exemplo, um diagnóstico de rabdomiólise (uma condição rara, mas potencialmente mortal, que envolve a rápida dissolução dos músculos) devido a uma decomposição muscular ocorrida após a exposição ao calor, explica Elder.

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Ainda assim, as pesquisas deixam claro que o calor atinge a saúde das populações de baixa renda de forma desproporcional.
A histórica discriminação territorial levou as comunidades não brancas a serem sistemicamente predispostas a morar em bairros com pouco acesso à sombra das árvores.
O calor também exacerba certas condições pré-existentes, como doenças cardíacas e diabetes, que apresentam incidência desproporcional em comunidades de baixa renda, negras e de origem latina.
Isso se deve, em parte, à falta de acesso à assistência médica e alimentos saudáveis.
Alguns dos empregos disponíveis para os indivíduos de baixa renda também podem trazer maiores riscos. Descobriu-se, por exemplo, que o calor é um fator envolvido em doenças renais crônicas entre pessoas que trabalham ao ar livre.
Pessoas em situação de rua também apresentam maior propensão a morrer de calor, além de sofrerem complicações de saúde permanentes após a insolação.
Problema que ‘não irá desaparecer’
Um estudo de 2023 entre mulheres grávidas que se consultavam em um hospital no sul da Califórnia, nos Estados Unidos, associou a exposição das mães ao calor do ambiente, a curto e longo prazo, a consequências mais sérias à saúde da mãe, durante a hospitalização para o parto.
Também se descobriu que mães que moram com mais árvores ou grama em volta das suas casas costumam ter menor chance de condições potencialmente mortais após a gravidez, embora existissem claras disparidades de saúde entre mães com diferentes níveis educacionais.
“Este é um problema que não irá desaparecer”, afirma a advogada Karen Lusson, do Centro Nacional de Direito do Consumidor, uma organização sem fins lucrativos sediada em Boston, no Estado americano de Massachusetts. A entidade se dedica a examinar questões de direito do consumidor para pessoas de baixa renda.
“Estamos, agora, em 2025 e, novamente, o Serviço Nacional do Clima prevê eventos de calor extremo e temperaturas acima da média“, destaca ela.

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Para os moradores de baixa renda, não conseguir pagar a conta de eletricidade, muitas vezes, significa escolher entre comer e ligar o ar-condicionado.
“Você começa a perguntar ‘o que posso sacrificar?'”, conta Sherita Hamlin, mãe de cinco filhos que mora na região oeste de Chicago, em Illinois (Estados Unidos).
No verão, Hamlin se esforça para entreter seus filhos, fornecendo acesso à internet para a escola de verão, oferecendo três refeições por dia e evitando o superaquecimento, quando as temperaturas da cidade sobem a mais de 38 °C.
“Nós sacrificamos produtos que compramos na mercearia”, ela conta. “Você começa a procurar cupons, nas vendas.”
“Às vezes, eu precisava ir ao banco de alimentos, conseguia dinheiro ali e trazia para esta conta”, em referência à energia elétrica para uso do ar-condicionado.
Os custos mais altos dos últimos 12 anos
A socióloga Diana Hernández é autora de diversos estudos sobre o gasto de energia pelas comunidades de baixa renda. Ela observou como as famílias vivem com as consequências de não conseguir pagar pelo ar-condicionado, durante as pesquisas para seu livro Powerless: The People’s Struggle for Energy (“Impotentes: a luta das pessoas pela energia”, em tradução livre), publicado em 2025.
“Uma mãe que conheci na Filadélfia [no Estado americano da Pensilvânia]… disse que sua filha tem eczema”, relembra ela.
Hernández conta que, no verão, o apartamento daquela família ficava tão quente que a condição de pele da criança inflamava.
“A menina simplesmente coçava sua pele porque eles não tinham acesso a ar-condicionado”, segundo ela. “E, mesmo se tivessem, ligar o aparelho seria muito caro. O que ela precisava era de uma casa com conforto térmico.”
Estudos demonstram que os eczemas se agravam com o aumento da exposição ao sol, da umidade e das temperaturas.
Para Hernández, estas são “as pequenas, mas significativas indignações desta experiência”.
Em todo o território americano, a previsão é que os custos da refrigeração doméstica irão subir mais do que a inflação.
Em 2025, os consumidores dos Estados Unidos enfrentarão os custos de energia para refrigeração mais altos dos últimos 12 anos, segundo uma análise anual do Neada e do Centro de Pobreza de Energia e Clima, uma organização nacional de pesquisa sem fins lucrativos.
A análise projetou a conta anual média de eletricidade nos Estados Unidos em US$ 784 (cerca de R$ 4,26 mil), o que representa um aumento de 6,2% sobre os custos do ano passado.
Mesmo calculando a inflação sobre esses números, o aumento ainda é de 4,3%, segundo as instituições.
Não existe política nacional para limitar os desligamentos forçados de energia pelas companhias em casas que não conseguem pagar suas contas. Cada Estado lida com os desligamentos de forma isolada.
O programa Liheap
Criado pelo Congresso americano em 1981, o programa fornece anualmente US$ 4,1 bilhões (cerca de R$ 22,3 bilhões) para cerca de seis milhões de famílias com dificuldades para pagar suas contas de energia elétrica. Este auxílio permite que elas consigam se refrescar no verão e se aquecer no inverno.
O programa normalmente faz os pagamentos diretamente às concessionárias, para manter a energia dos moradores ligada.
A maioria dos beneficiários ganha menos de US$ 20 mil por ano (cerca de R$ 109 mil anuais ou R$ 9 mil por mês), segundo o Instituto Elétrico Edison, uma associação que representa as companhias elétricas de propriedade de investidores americanos.

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No mês seguinte, o governo Donald Trump anunciou seus planos de pôr fim ao Liheap. Seu ciclo atual de financiamento termina no outono do hemisfério norte.
Ativistas comunitários receiam que os cortes podem ser desastrosos para a grande maioria das famílias necessitadas.
“A rede de segurança energética está ameaçada”, segundo Hernández. “O acesso à energia salva vidas.”
Grace Wickerson é gerente da Federação de Cientistas Americanos, uma organização sem fins lucrativos de pesquisa sobre políticas.
Para ela, sem o Liheap, restará aos Estados americanos decidir se devem ou não ajudar os membros de suas comunidades que enfrentarem dificuldades para pagar suas contas de energia elétrica.
Ela receia que isso, provavelmente, irá significar que os Estados democratas, tradicionalmente mais abertos à oferta de serviços pelo Estado, irão se manifestar, mas não os Estados republicanos.
Pesquisadores e ativistas alertam que, em relação ao calor extremo, eventuais lideranças estaduais não serão suficientes para suplementar o financiamento perdido, se o governo federal levar adiante o encerramento do programa Liheap.
‘Pessoas irão morrer’
“Essas pessoas irão morrer se esses programas forem cortados”, alerta o epidemiologista ambiental Jaime Madrigano, professor da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, no Estado americano de Maryland.
Em 2024, Nova Orleans implementou uma norma em toda a cidade, exigindo que os donos de imóveis alugados forneçam sistemas de refrigeração que mantenham os quartos abaixo de 26,7 °C.
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (HHS, na sigla em inglês) é o responsável pelo programa Liheap.
Sua porta-voz, Emily Hilliard, declarou que a Administração de Crianças e Famílias (ACF), subordinada ao seu departamento, cumpriu suas obrigações, liberando o valor anteriormente alocado de cerca de US$ 4,1 bilhões (cerca de R$ 22,3 bilhões) de financiamento para o Liheap, no ano financeiro de 2025.
Hilliard destaca que o Congresso americano é responsável por determinar o orçamento do ano fiscal 2025-26.
“Cabe ao Congresso decidir se e por qual valor o programa Liheap será financiado”, afirma ela. “O HHS permanece comprometido com a administração eficaz dos recursos fornecidos pelo Congresso.”
Atualmente, estes fundos se destinam a fornecer às famílias de baixa renda acesso a serviços essenciais, como creches e educação primária.
Hilliard informou que seus orçamentos propostos para os dois programas no ano financeiro de 2026 são de cerca de US$ 17,3 bilhões (cerca de R$ 94 bilhões) e US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 9,2 bilhões), respectivamente.
Em Chicago, Sherita Hamlin conta que fez uso do Liheap uma vez para conseguir religar a eletricidade, quando não conseguiu pagar a conta de agosto de 2018.
Na ocasião, o programa concedeu a ela uma bolsa de emergência de US$ 780 (cerca de R$ 4,2 mil). Seu receio é o que irá acontecer com ela e seus vizinhos, se o programa federal realmente for eliminado.
“É devastador, pois sei que muitas famílias dependem dele”, segundo ela.
“Penso no que eu enfrentei… as famílias certamente precisarão sacrificar alguma coisa. Basicamente, as necessidades da vida.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL