Elon Musk talvez tenha expectativas irrealistas para o Starship, megafoguete construído pela SpaceX. Mas tudo bem, porque, mesmo sendo menos do que ele espera, ainda assim será muito mais do que jamais tivemos em termos de capacidade de lançamento espacial.
O contraste ficou mais do que evidente no começo da última semana, quando o dono e projetista-chefe participou da transmissão ao vivo do lançamento do décimo voo integrado do veículo. Enquanto Musk falava, na última segunda-feira (25), sobre a perspectiva de resgatar e reutilizar ambos os estágios, pousar o primeiro deles em questão de poucos minutos na plataforma, reabastecer e realizar novo lançamento no espaço de uma hora, seus funcionários esperavam pacientemente por uma brecha meteorológica que desse oportunidade ao voo. Não aconteceu, e o teste, originalmente marcado para domingo (24), mas adiado por um problema nos sistemas de solo, acabou adiado para terça (26).
Isso mostra que, mesmo que todos os problemas técnicos com o foguete e seu sistema de lançamento sejam resolvidos (como tudo leva a crer que serão), decolar com um Starship a cada hora parece ser exagerado. Não há o que fazer quanto às condições meteorológicas, que nem sempre serão favoráveis. Esses fatos incontornáveis da vida no planeta Terra meio que sabotam as ideias mais extravagantes para o veículo, como o transporte de passageiros ponto a ponto na Terra. OK, de foguete, você pode ir de São Paulo a Tóquio em meros 45 minutos. Mas quanto tempo você precisa esperar para o abastecimento, embarque e desembarque? E se o tempo está ruim? Esperará horas? Dias? A ideia de que isso vá substituir uma fração significativa da aviação comercial atual é pouco crível. Será um misto exótico de voo de luxo/turismo de aventura, na melhor das hipóteses. Para aplicações militares, talvez seja mais útil.
Ocorre que não precisamos de foguetes para transporte ponto a ponto na Terra. Mas eles são essenciais para viagens espaciais, à órbita ou a outros corpos celestes. E a arquitetura do Starship permitirá o transporte de centenas de toneladas, por exemplo, à superfície da Lua ou de Marte, a um custo muito inferior a tudo que já foi feito antes.
Mesmo descartando o hardware a cada lançamento, como tem acontecido nos últimos voos, ele é muito mais barato que qualquer outro foguete. Basta para isso notar que já vimos dez voos do Starship em pouco mais de dois anos e meio (desde abril de 2023), enquanto o SLS, foguetão da Nasa feito no estilo “velha guarda”, baseado em tecnologias dos antigos ônibus espaciais, teve um único lançamento, em novembro de 2022, e voará pela segunda vez na missão Artemis 2 em abril de 2026.
A grande questão é se o Starship poderá ficar pronto a tempo de a Nasa voltar à superfície lunar com astronautas antes da primeira alunissagem tripulada chinesa, que deve acontecer antes de 2030. Mas a corrida que a SpaceX está fazendo não é um sprint de cem metros rasos, como foi o programa Apollo, e sim uma maratona. Quando o Starship estiver voando com frequência (mesmo que seja algo tão modesto quanto duas vezes por semana, como a empresa já faz com seu Falcon 9), o acesso ao espaço nunca mais será o mesmo.
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Fonte.:Folha de S.Paulo