A Inglaterra que eu imaginava ao ler os romances de Jane Austen e das irmãs Brontë se materializou no Peak District, uma região montanhosa a duas horas de carro de Manchester. Foi mais exatamente no alto da escarpa de arenito Stanage Edge que se revelou diante de mim uma paisagem vasta e ondulada, cortada por ventos constantes e coberta por charnecas que variam de cor ao longo do ano, do verde ao roxo – naquele final de outubro, predominava um bonito marrom outonal.
Ainda que não seja muito desafiadora fisicamente, a trilha exige certa atenção devido às rochas irregulares que se debruçam rumo ao precipício. Melhor estar acompanhado pelos guias da Peak Walking Adventures, que conduzem por atrativos como a caverna que teria sido o esconderijo de Robin Hood e a “pedra da Keira Knightley”.
Essa última nada é mais do que o local onde a atriz gravou uma das cenas mais emblemáticas da adaptação de 2005 de Orgulho e Preconceito, em que Elizabeth Bennet admira a vastidão com um vestido esvoaçante. Tirar uma foto imitando-a é inevitável para fãs da obra como eu.


O arrebatamento total veio no final do passeio. Aos pés de Stanage Edge está a mansão que inspirou a Thornfield Hall de Jane Eyre, obra-prima de Charlotte Brontë. Chamada North Lees Hall na vida real, a construção em formato de torre que data do final do século 16 não pode ser visitada porque se trata de uma residência privada. Mas admirar sua fachada foi mágico o bastante, assim como topar casualmente com o atual proprietário, ainda que ele não lembre em nada o Edward Rochester do livro.

A caminhada por Stanage Edge continua por campos pontilhados de ovelhas até chegar ao pequeno vilarejo de Hathersage, onde o almoço no tradicional pub do The George tem gostinho de recompensa. O estabelecimento de mais de 500 anos de idade também funciona como hotel, e teve a própria Charlotte Brontë como hóspede.
Na impossibilidade de gravar em North Lees Hall, o casarão real que inspirou a escritora, as três principais adaptações de Jane Eyre para o cinema foram rodadas a trinta minutos dali, na espetacular Haddon Hall. Com incríveis 900 anos de idade, essa é uma das casas senhoriais medievais mais bem preservadas de toda a Inglaterra.

Diferente de muitas construções do tipo no país, Haddon Hall nunca passou por uma grande modernização e graças a isso permaneceram parados no tempo os seus salões com tetos de madeira, vigas expostas, tapeçarias antigas e lareiras monumentais. O destaque é a Long Gallery, iluminada por janelas de vidros coloridos e irregulares.

Além de Jane Eyre (1996, 2006 e 2011), o lugar já foi usado como locação para outras produções de época, incluindo A Princesa Prometida (1987), A Outra (2008), Wolf Hall (2015), Duas Rainhas (2018) e O Jogo da Rainha (2023). A sensação de déjà vu é, portanto, inevitável durante a visita.


Enquanto a ambientação intimista, medieval e até um pouco escura de Haddon Hall refletem perfeitamente a atmosfera descrita por Brontë, a vizinha Chatsworth House, distante apenas 15 minutos de carro, traduz muito bem a obra de Jane Austen.
Ordenada, equilibrada e deliberadamente grandiosa, a mansão barroca é há quase 500 anos a residência dos duques de Devonshire e muitos estudiosos da literatura inglesa acreditam que ela possa ter inspirado Pemberley, a propriedade do Sr. Darcy em Orgulho e Preconceito.

Contrários a essa teoria apontam que não há provas definitivas de que Austen sequer tenha visitado a região, mas o fato é que Chatsworth House ficou definitivamente associada à autora depois de ter sido usada como locação para o filme de 2005 estrelado por Keira Knightley e Matthew Macfadyen. Fãs de Orgulho e Preconceito vão gostar de saber que o busto do Sr. Darcy que aparece em cena pode ser visto na lojinha de souvenires.

A visita à casa, que é quase um palácio-museu, passa por salões decorados com afrescos dramáticos, escadarias monumentais, pinturas de mestres como Rembrandt e outros ambientes feitos para impressionar, incluindo a coleção de esculturas clássicas da Sculpture Gallery, que aparece com destaque no filme. Os jardins são quase uma atração à parte, e podem facilmente ocupar horas do passeio.

Tanto Haddon Hall quanto Chatsworth House ficam nas imediações de Bakewell, a base mais estratégica para explorar o Peak District. Com um centrinho aprazível onde construções de pedra abrigam lojas e cafés, a cidade é famosa principalmente pelo Bakewell Pudding.

Espécie de torta, o doce leva uma camada de geleia e um recheio cremoso à base de ovos, manteiga, açúcar e amêndoas, além de um ingrediente que permanece até hoje um segredo guardado a sete chaves. A tradição manda prová-lo no Old Original Bakewell Pudding Shop, que afirma ter sido o local onde a receita foi criada. Para mim, lembra muito o português pastel de nata, com o diferencial da geleia.


Esticadas até Castleton e Buxton
De Bakewell, são menos de trinta minutos de carro até a charmosa Castleton, uma vila espremida entre colinas onduladas e formações calcárias. Além de perambular pelas construções de pedra do centrinho, que é cortado por um riacho, o programa por ali consiste em visitar a caverna Treak Cliff e as minas de Blue John, uma rara pedra de coloração azul que só existe na região.

Trilheiros também costumam incluir no roteiro caminhadas até o topo da Mam Tor, um dos picos mais famosos do Peak District, ou por Cave Dale, um vale de aparência épica que recentemente serviu de locação para a série House of the Dragon.

Mas eu me contentei em passar de carro pela estrada sinuosa Winnats Pass, que corta um vale estreito de encostas íngremes e também é digno de cinema.

Basta dirigir por cerca de 20 minutos para a natureza selvagem dar lugar à uma elegante cidade georgiana. Frequentada desde o período romano pelas suas águas termais, Buxton recebeu investimentos da aristocracia inglesa a partir do século 16 para se transformar em uma cidade-spa aos moldes de Bath.
A referência ficou bem clara quando me vi diante do Buxton Crescent, praticamente uma cópia em versão menor do famoso Royal Crescent de Bath. Reaberto em 2020 depois de passar 17 anos em reforma, o Buxton Crescent é ao mesmo tempo hotel, spa de águas termais e um museu que conta a história da cidade.


Depois de visitá-lo, vale bater perna nos arredores para ver mais construções de arquitetura georgiana, que também remetem de alguma forma aos romances de Jane Austen. Alguns destaques incluem a Opera House, os Victorian Pavilion Gardens e o St Ann’s Well, fonte onde é possível experimentar a famosa água termal de Buxton – com sabor bem menos sulfuroso do que o de Bath, aliás.

Rabbie’s ToursPara quem prefere evitar dirigir na mão inglesa ou simplesmente gosta de estar acompanhado de um guia que sabe tudo do destino, vale a pena conferir os serviços da Rabbie’s Tours, que monta roteiros personalizados pelo Peak District partindo de Manchester. |
Hospedagens para se sentir em um livro
Parte da propriedade de Haddon Hall, o Peacock at Rowsley é uma construção de 1652 convertida em um hotel boutique. Ainda que tenham em comum as camas com dossel, os móveis antigos e as lareiras, cada uma de suas 15 acomodações possui uma decoração única.


O Cavendish Hotel Baslow, por sua vez, é um refúgio de campo elegante que faz parte dos domínios da Chatsworth House. Acordar com a vista para ovelhas pastando em um campo encoberto pela neblina faz parte do charme do lugar, assim como a mistura de mobília histórica com peças contemporâneas de cores vibrantes. A isso se soma um serviço realmente atencioso, que fez com que o Cavendish fosse eleito o “Hotel do Ano” pelo jornal britânico The Times em 2025.


Por fim, vale a pena afastar-se cerca de 30 minutos de carro em direção ao sul só para se hospedar no maravilhoso Wildhive Callow Hall. Aqui, uma mansão vitoriana do século 19 foi restaurada de forma criativa para incorporar uma estética eclética e colorida, que a tornou um dos mais interessantes hotéis do Peak District.

Há quartos no edifício principal, mas também é possível dormir em pequenas casas de madeira espalhadas pelo terreno, como eu fiz.

A caminhada entre as árvores para ir do meu quarto rumo ao café da manhã virou uma parte deliciosa da rotina matinal, mas à noite eu não abria mão da conveniência dos carrinhos de golfe que fazem o transporte entre a mansão e as cabanas. Especialmente para jantar no Garden Room, restaurante que funciona em um solário envidraçado, ou me aconchegar em uma das salas com lareira, cenários perfeitos para ler e reler Austen e Brontë.


Newsletter
Aqui você vai encontrar dicas de roteiros, destinos e tudo o que você precisa saber antes de viajar, além das últimas novidades do mundo do turismo.
Inscreva-se aqui
para receber a nossa newsletter
Cadastro efetuado com sucesso!
Você receberá nossas newsletters em breve!
Fonte.:Viagen


