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27 de abril de 2026

Não dá pra ser avó dos filhos – 27/04/2026 – Vera Iaconelli

Não dá pra ser avó dos filhos – 27/04/2026 – Vera Iaconelli

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Depois de ser filho, neto e bisneto de alguém, pode acontecer de assumirmos nossa própria descendência.

Nesse caso, vamos da plateia para a coxia ver como o teatro da parentalidade é armado, descobrir seus truques e ilusões, passar de pedra a telhado. Há quem diga que seria melhor pai/mãe se tivesse tido pai/mãe melhores, colocando na conta da gestão anterior seus próprios limites. A seguir esse raciocínio, chegaríamos a Adão e Eva, cuja prole, entre o assassinato e o incesto, não deu bom exemplo.

Que uma geração prometa a si mesma que fará melhor que a anterior é o mínimo que se espera de quem resolve dar um passo dessa magnitude. Mas essa é uma promessa insondável: podemos até ser pais melhores do que os nossos foram, mas nunca saberemos que pais seríamos nas condições nas quais eles o foram. Isso nos leva a uma sábia lição: pimenta no olho do outro é colírio. Ou ainda, somos melhores por causa deles, não apesar deles.

Cada paternidade/maternidade é premida pelos ditames de sua época, enfrentando desafios impensáveis para as gerações anteriores, deixando os pais sem as balizas que serviriam para provar que estão fazendo melhor que seus antecessores.

Chegada à fase dos filhos adultos, a alegria da missão cumprida pode trazer apaziguamento (salvo para aqueles cuja idealização desemboca numa culpa eterna ou os que foram péssimos mesmo).

Se nossos filhos dobram a aposta, fazendo a mesma escolha insensata de ter os próprios filhos, nos vemos diante de uma nova e inesperada camada: netos.

Existem tantas configurações quanto se pode imaginar, com avós que cuidam mais do que os pais, até os que vivem distantes física ou afetivamente. Mas vou me deter naqueles que têm o prazer de se ocupar das crianças sem a imensa responsabilidade que recai sobre os ombros dos pais. Se o fazem, é por períodos curtos, de visitas e viagens, nas quais podem se dar ao luxo de curti-los.

Desse lugar tão privilegiado, podemos estar com a descendência de uma forma totalmente inédita, mas não escapamos de comparar os avós que somos com os pais que fomos. Nesse acerto de contas geracional, no qual nos descobrimos melhores avós do que fomos pais, resta o julgamento: e se tivéssemos podido ser pais/mães mais sábios, pacientes, permissivos, entusiasmados… ou qualquer qualidade que o papel de avós nos presenteou? Mas as diferenças são gritantes: não pesa sobre os avós o ônus da prova da competência; o que fizeram de bom ou de ruim, a existência dos filhos atesta. A questão é que, se somos diferentes hoje, é justamente por não estarmos no lugar de pais.

Como avós, podemos dividir responsabilidades pela existência de alguém —tarefa impossível quando se é pai/mãe. Além disso, a velhice torna a vida cada vez mais preciosa, e nos vemos embasbacados com a infância.

Filhos chegam a se enciumar com as novas qualidades dos pais agora no papel de avós, sem entender que o duro aprendizado de cuidar deles foi a condição desse desfecho. Aos avós cabe aceitar que os filhos acertem e errem do próprio jeito; aos filhos, assumir que, como avós, os pais se revelam os cuidadores que eles não tiveram.

Trata-se de papéis suplementares e, quando cada um banca seu quadrado, os netos agradecem.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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