
Crédito, Arquivo pessoal
- Author, Norberto Paredes
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 8 min
Durante oito anos, Jorge Cubillos se esforçou para construir uma nova vida nos Estados Unidos após fugir de ameaças na Colômbia.
Ele afirma que tinha autorização de trabalho, um processo de asilo em andamento e expectativa de permanecer no país.
Mas, de repente, foi deportado para a África sem maiores explicações.
Em entrevista à BBC News Mundo em um pequeno quarto de hotel em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, ele diz que está doente e desorientado, longe de tudo o que conhece e de seus quatro filhos e de sua esposa, que ficaram no estado da Flórida.
“Nunca imaginei que acabaria na África. Achei que eram só ameaças”, afirma.
Cubillos faz parte de um grupo de 15 latino-americanos que foram deportados na semana passada dos Estados Unidos para o Congo, no âmbito de um controverso acordo com países terceiros assinado pelo governo do presidente americano Donald Trump.
Os migrantes e solicitantes de asilo são originários da Colômbia, do Peru e do Equador. É o primeiro grupo que chega ao Congo desde que o acordo foi firmado.
O governo do país africano defendeu sua decisão de receber migrantes provenientes de países terceiros como um compromisso com a dignidade humana, a proteção dos direitos dos migrantes e a solidariedade internacional.
Também reiterou que a permanência dessas pessoas no país é temporária e que a acolhida, o apoio e o atendimento estão sendo financiados pelos Estados Unidos.
Mas os migrantes e solicitantes de asilo entrevistados pela BBC News Mundo afirmam que suas condições no Congo estão longe de ser ideais e que sua saúde está se deteriorando rapidamente.
Marta, que não quis revelar seu verdadeiro nome por medo de represálias, conta que seu calvário começou com a visita de um grupo de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE).
Ela relata que, em 13 de fevereiro, após uma longa batalha legal durante a qual passou 14 meses detida e que incluiu um habeas corpus concedido por um juiz federal, foi libertada. Afirma que tinha autorização de trabalho e seguia seu processo migratório “de maneira correta”.
‘Nossos direitos humanos foram violados’
Mas, em 2 de abril, seu destino mudou repentinamente.
Ela diz que, naquele dia, agentes do ICE chegaram à sua casa no Texas, bateram à porta e lhe mostraram, através do vidro, uma ordem de supervisão com a qual havia sido libertada anteriormente. Disseram que precisavam apenas verificar seu endereço.
“Não vi nenhum problema e abri a porta”, recorda.

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Minutos depois, pediram que ela os acompanhasse a um escritório para colocar um monitor de GPS. Ela não desconfiou de nada até ser algemada.
Foi levada ao centro de detenção de Bluebonnet, no Texas, onde permaneceu três dias. Depois, foi transferida para o centro de detenção de Prairieland, em Alvarado.
Ali, segundo seu depoimento, ficou incomunicável por quase dois dias.
“Me trancaram em um quarto, não me davam comida nem água. Estava muito frio”, relata.
Durante esse período, seus familiares não conseguiam localizá-la nos registros oficiais.
“Eu não aparecia no sistema, porque nunca fui processada”, afirma.
Depois de ser vacinada contra a febre amarela e transferida para a Luisiana, informaram que ela tinha um voo para o Congo no dia seguinte.
“Eu disse que tinha medo por causa da insegurança e eles não responderam e, bem, aqui estou, no Congo. Como me sinto agora? Sinto que nossos direitos humanos foram violados”, conta.
“Há muita desinformação nas redes sociais, dizem que somos criminosos e que merecemos o que está acontecendo conosco, isso não está certo. A falta de informação aqui e não saber o que vai acontecer conosco está nos afetando emocional e psicologicamente.”
A BBC News Mundo entrou em contato com a agência ICE para solicitar comentários sobre essas acusações, mas, até o momento da publicação desta reportagem, não havia recebido resposta.
‘Tivemos febre, vômitos e diarreia’
Hubert Tshiswaka, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Direitos Humanos (IRDH), critica duramente o acordo entre o Congo e os Estados Unidos e o considera contrário aos compromissos internacionais em matéria de proteção de refugiados.
“Não existe base legal para trazer pessoas de outros países para o Congo, especialmente dos Estados Unidos”, disse à BBC News Mundo o advogado especialista em direitos humanos.
“Além disso, essas pessoas não fizeram nada de errado aqui, portanto também não há base legal para mantê-las detidas”, acrescenta.

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O IRDH denuncia uma violação do princípio da não devolução, transferências forçadas contrárias ao direito internacional e a externalização das obrigações dos Estados Unidos em matéria de asilo.
Também insta a República Democrática do Congo a suspender o acordo com Washington.
Em um comunicado, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou que o governo do Congo solicitou que prestasse assistência humanitária a 15 migrantes deportados pelos Estados Unidos em 17 de abril.
“A OIM também pode oferecer retorno voluntário assistido àqueles migrantes que o solicitarem, de acordo com seu mandato e os marcos legais aplicáveis”, acrescentou.
O grupo de deportados afirma que, em algumas ocasiões, foi impedido de sair das instalações do hotel e denuncia condições difíceis, como a falta de água potável e cortes de energia elétrica.
“Estamos doentes. Tivemos febre, vômitos e diarreia. Dizem que é normal e que o corpo está simplesmente se adaptando à África”, diz Jorge.
A OIM recusou um pedido de entrevista da BBC News Mundo.
‘De uma forma ou de outra’
Carlos Rodelo estava havia três anos e meio nos Estados Unidos quando, em 4 de fevereiro de 2025, uma juíza em Maryland lhe concedeu proteção sob a Convenção contra a Tortura (CAT).
Segundo ele, a juíza determinou que poderia permanecer no país e não seria deportado, embora não pudesse sair do território americano.
Meses depois, foi informado de que deveria comparecer em 4 de agosto a um escritório de imigração para assinar alguns documentos.

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Não era a primeira vez que era convocado a um escritório de imigração, então não viu nada de estranho.
“Mas quando cheguei ao escritório e mal entrei, vi que havia três agentes do ICE literalmente escondidos me esperando. Disseram que iam me deter e que possivelmente iam me deportar. Eu, na verdade, não entendia e disse a eles que tinha um asilo aprovado, que tinha proteção sob a CAT”, conta.
Lá, passou oito meses detido.
No mesmo dia, foi transferido para um escritório em Baltimore, onde permaneceu retido em um quarto antes de ser enviado para a Luisiana.
Durante esse período, assegura, apresentou pedidos adicionais de proteção. No entanto, foi deportado antes que um juiz federal pudesse se pronunciar.
Seu destino final ele soube poucas horas antes do voo.
“Quando me disseram que iam me mandar para o Congo, eu disse que não sabia nem o que era isso, nem onde ficava”, afirma.
“Eles responderam que iam me levar de uma forma ou de outra.”
‘Mais de 25 horas amarrados’
Os migrantes também descrevem a viagem como “desumana”.
“Foi terrível. Foi angustiante porque passamos mais de 25 horas amarrados pela cintura, mãos e pés, com um saco de papel que tinha dentro uma maçã, umas batatas e uma água”, afirma Jorge Cubillos.
Outra colombiana, que também preferiu manter o anonimato, afirma que foi deportada após passar várias semanas no centro de detenção de Eloy, no Arizona.
“Fui convocada a um escritório supostamente para retirar o GPS e, quando cheguei, me informaram que ficaria detida porque tinham conseguido um terceiro país para mim”, conta.
Ela tem dúvidas sobre se gostaria de voltar aos Estados Unidos.
“Não sei, porque depois de tudo o que aconteceu e do que sofri, quem me garante que não vou passar por isso de novo e que, no futuro, não vão me enviar para outro país?”, acrescenta.
Ela afirma que viver atualmente nos Estados Unidos “dá medo” e que o governo do presidente Donald Trump age de forma desumana.
“Acho que é desumano o que está fazendo não apenas o presidente, mas também as pessoas que estão se deixando manipular por ele”, afirma.
“Porque sinto que nesse governo eles são fantoches manipulados por essa pessoa, que estão detendo as pessoas sem nenhuma razão, sem nenhum motivo, apenas porque querem fazer isso e pronto”, prossegue.
“Passar tanto tempo detido sem ter cometido nenhum crime é algo pesado, e as condições dentro das detenções, na verdade, não são as melhores.”
Longe de seus países, sem uma rota clara e com pouca informação sobre o futuro, o grupo descreve uma crescente sensação de abandono.
“Nos sentimos completamente à deriva. Não sabemos o que vai acontecer conosco”, diz Marta.
Jorge Cubillos compartilha essa incerteza e teme tanto por seu futuro quanto pelo de seus companheiros.
“Os solicitantes de asilo corremos risco em nossos países”, explica. “Se me colocarem para escolher entre o Congo e Barranquilla, na Colômbia, de onde sou, escolheria Barranquilla, porque aqui não estou fazendo nada.”
“Mas voltar a Barranquilla é colocar minha vida em risco.”
A incerteza, somada às condições em que se encontram, vem desgastando o grupo. A sensação, cada vez mais difundida, é a de estar preso em um limbo do qual não sabem como sair.
Este texto foi traduzido e revisado por nossos jornalistas utilizando o auxílio de IA, como parte de um projeto piloto
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


