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2 de janeiro de 2026

O advogado que virou crítico e já provou 120 mil vinhos – 01/01/2026 – Isabelle Moreira Lima

O advogado que virou crítico e já provou 120 mil vinhos – 01/01/2026 – Isabelle Moreira Lima

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A palavra enófilo, aquele que ama vinhos, soa antiga demais, mas nem por isso é menos precisa para apresentar Eduardo Milan. O advogado de 49 anos é possivelmente o maior degustador do país: chega a provar 8.000 vinhos por ano, num total estimado de 120 mil rótulos desde que começou a estudar a bebida, há mais de 25 anos. Ainda assim (ou talvez por isso mesmo), segue apaixonado por vinhos.

Milan está entre os quatro brasileiros a julgar vinhos no Decanter World Wine Awards, da célebre revista inglesa, e autor do capítulo sobre o Brasil da oitava edição do “Atlas do Vinho”, de Jancis Robinson. Até o ano passado, era editor e degustador da revista Adega e também sócio dos guias publicados pela editora especializada Inner. Era também dupla do crítico chileno Patrício Tapia nas baterias de degustação do Guia Descorchados, que avalia os rótulos produzidos em seis países da América do Sul.

O curioso é que ele não dá a menor pinta de tal currículo. Discreto, não faz perguntas ou comentários para demonstrar conhecimento quando participa de degustações ou viagens com a imprensa especializada, nem gosta de contar vantagem —Deus sabe quanto tempo levei para arrancar esses números todos. No geral, está sempre muito concentrado. Há uma explicação.

Quando ainda estava na faculdade e começou a se interessar pela bebida, em meados de 1998, Milan tinha outra paixão concomitante: a meditação. Era aluno de um centro norte-americano e meditava de forma obsessiva (que é mais ou menos o jeito com que faz tudo, como hoje toca com a esposa Wendy Elago um canil de corgis, a raça preferida da rainha Elizabeth 2ª, mas essa é outra história).

Até 2004, mantinha a prática por até oito horas por dia e chegou a se tornar instrutor de meditação guiada. Hoje, faz uma espécie de “meditação aplicada ao vinho”, pois ensina que a presença mental e o foco são os elementos mais importantes para captar e analisar as nuances de paladar e olfato de uma bebida.

Milan entrou no mundo do vinho mais ou menos do jeito que todos começamos: frequentando o supermercado. Ainda era estudante de direito e estagiário de um escritório vizinho ao Santa Luzia, no bairro dos Jardins, em São Paulo, quando passou a perder bons minutos em frente às prateleiras da adega. Passou a comprar livros e, depois de alguns anos, se inscreveu em cursos: primeiro o de sommelier na Sbav, depois os WSET.

O enólogo Fabio Miolo, o sommelier Manuel Luz e o consultor Márcio Marson foram grandes incentivadores. Foi Miolo que o indicou a Christian Burgos, fundador da Adega, como degustador, o que deu início a 15 anos de trabalho e todos os vinhos degustados citados no primeiro parágrafo. Já sua maior influência é o chileno Patricio Tapia, “tanto na forma de ver a bebida e em como degustar”.

A quem está começando e quer entender mais de vinhos, Milan sugere, além da concentração e do foco, muito treino. “Eu adoro fazer esporte, sempre fiz. Você pode gostar de nadar, agora, para virar profissional da natação, é preciso de treino. É a mesma coisa no vinho”, afirma.

Hoje, pode-se dizer, Milan está em transição para o outro lado do balcão, iniciando um trabalho de consultoria. Desde que parou de fazer os guias, ele tem atuado em baterias de prova da Sacramentos, vinícola mineira de Jorgito Donadelli que tem abocanhado prêmios com um perfil mais fresco que a de boa parte dos vinhos de inverno produzidos em São Paulo e Minas Gerais. O desafio agora é manter-se longe desses vinhos (e de outras vinícolas que devem começar a contratar sua consultoria) quando usar seu chapéu de degustador e crítico.

Vai uma taça?

Para os dias de muito calor, o brasileiro Torcello Personalitá Viognier (R$ 109 na Vinhos e vinhos) é leve e cítrico e vai bem com a piscina. Já o La Posta Blanco White Blend 2023 (137 na Vinci), um corte de uvas aromáticas (torrontés e sauvignon blanc) é bem equilibrado e impressiona. Para o churrasco, o Cono Sur Reserva Bicicleta Pinot Noir (R$ 84 na La Pastina) vai limpar a boca sem pesar demais e pode ser servido mais frio.


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Fonte.:Folha de São Paulo

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