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28 de janeiro de 2026

O Campeonato Brasileiro precisa divertir – 28/01/2026 – Marcelo Bechler

O Campeonato Brasileiro precisa divertir – 28/01/2026 – Marcelo Bechler

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Não se passaram dois meses desde a última rodada do Campeonato Brasileiro de 2025 e o de 2026 já começa. Nosso campeonato é bom, mas com muita margem de melhora. Algo que depende essencialmente de entender o conceito: entretenimento.

Um torneio que a única previsão relativamente fácil é a de quem vai brigar pelo título. Flamengo e Palmeiras, potências econômicas e esportivas, cada um à sua maneira, devem estar de novo no topo. O Brasileirão permite que um desavisado diga: “viu o jogo do Vasco? 6×0!” e o outro pergunte: “para quem?”.

O São Paulo em crise terminou em 8º, o Corinthians teve o melhor ano entre os paulistas e foi 13º, o Santos brigou para não cair até a última rodada e foi 12º. Na última rodada, em algum momento, o Inter se salvava por ter mais gols marcados que o Fortaleza.

Competitividade, equilíbrio e aleatoriedade dão um tom especial, diferente de previsíveis campeonatos nacionais mundo afora, onde cada clube sabe exatamente seu “papel social” dentro do torneio. Na Espanha, o torcedor de Betis, Celta ou Rayo Vallecano sabe exatamente o que esperar do seu time.

Nenhum fanático pelo Eintracht Frankfurt se revolta se o time ficar décadas sem título, assim como os fanáticos do Olympique de Marselha sabem que o PSG já começa o francês campeão —e no máximo pode perder o título.

O que o Brasileirão precisa melhorar é o conceito de entretenimento. Em comparação com as principais ligas da Europa (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, França), a média de faltas é a maior, com 27 infrações por partida. O tempo de bola rolando é o mais baixo, com 53% de jogo corrido. No Brasil marcam-se 2,52 gols por jogo, média que também é inferior à das demais ligas.

Além desses números, para melhorar o jogo é preciso melhorar a educação de quem faz parte dele. Goleiros que para esfriar o adversário fingem estar lesionados aos 7 minutos do 1º tempo quando o time está sendo pressionado. Jogadores que se jogam ao menor contato, preferindo uma faltinha pela lei fria do jogo do que tentar uma jogada perigosa. Aqui acredita-se mais na legislação do que no futebol.

A sensação que eu tenho é que ninguém quer ajudar para o jogo ser melhor. Todos querem forçar o máximo que podem para ter pequenas vantagens. Fazem armadilhas em campo e fora dele, buscam atalhos, criam um ambiente sempre hostil, que deixa o futebol menos bonito, divertido e entretido, transformando qualquer arremesso lateral em uma guerra.

Talvez por isso seja mais provável querer ver um jogo aleatório de um torneio internacional do que um jogo do Brasileirão em que o seu time não esteja. É quase impossível se divertir com futebol no Brasil.

Uma coisa é se apaixonar e torcer visceralmente pelo seu time, por pior e mais tramposo que ele seja, mas não há entretenimento em ver os melhores times do país jogar —porque é provável que eles também estejam buscando suas faltinhas, esfriar a pressão do rival ou gritar na cara do árbitro que não marcou um escanteio.

Nós temos futebol, nos organizamos e dominamos a América do Sul, mostramos que podemos enfrentar bons times europeus. Nós precisamos de um campeonato melhor, precisamos de melhores jogos para assistir. Mas isso só será possível se os artistas desse espetáculo estiverem dispostos a ajudar. Mais esporte, menos táticas de guerrilha e, a partir daí, que vença quem joga melhor.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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