
Crédito, Allan Phablo/ Coleção de Isaías Medeiros
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
Armadas com pedras, facas, panelas e utensílios domésticos, cerca de 300 mulheres de Mossoró, no Rio Grande do Norte, foram às ruas da cidade, destruíram os editais que estavam pregados nas porta da igreja matriz e depredaram a sede do jornal local. Conhecido como Motim das Mulheres, o episódio ocorrido há 150 anos, em 30 de agosto de 1875, tinha um alvo e uma causa.
A própria legislação, na verdade, também era uma resposta — tardia — às cicatrizes deixadas pelo conflito bélico. A experiência, afinal, deixou claro que o Brasil não tinha uma organização militar pronta para eventuais guerras. Assim, regulamentar o alistamento militar de jovens era uma maneira de garantir que o país tivesse contingente treinado e apto para campos de batalha.
“O motim foi um movimento, uma revolta das mulheres contra a obrigatoriedade do alistamento militar”, contextualiza à BBC News Brasil o escritor e pesquisador Geraldo Maia do Nascimento, autor de, entre outros, Mossoró na Trilha da História. Nascimento conta que, àquela altura, a lei servia para substituir os milhares de mortos na guerra.
Na opinião pública, havia quem pensasse até que o Brasil estivesse a ponto de começar novas batalhas contra o Paraguai. De forma geral, a lei foi mal-recebida. “Gerou uma insatisfação muito grande. A obrigatoriedade dos jovens a se alistarem foi mal interpretada”, comenta Nascimento.
No livro Notas e Documentos para a História de Mossoró, o historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) ressalta que aquele ano foi “politicamente, uma fase de intensa vibração partidária”, por conta do decreto que era parte de um esforço para “organizar” o Ministério da Guerra.
Ebulição popular
Cascudo conta que houve uma sondagem prévia do governo, por meio dos presidentes de Províncias (equivalente aos atuais governadores), para medir a receptividade da ideia junto à população. Os juízes de paz eram ouvidos e, na maior parte das vezes, davam respostas “tranquilizadoras”, embora fossem resultado de “observações de superfície”. O historiador lembra que recrutamentos do tipo acabavam constituindo sempre “elemento poderoso de irritação coletiva”.
“No Rio Grande do Norte, agosto de 1875 trouxe vários protestos populares contra o decreto do recrutamento”, descreve Cascudo. “Em Aries, a 1º de agosto, homens e mulheres seguidos por um grupo de indígenas armados de faca e cacete invadiram a Igreja Matriz e dilaceraram livros, papéis, editais referentes ao recrutamento.”

Crédito, Arquivo Nacional
“Em Canguaretama, no mesmo dia, uma malta exaltada de mulheres e homens assalta a Igreja, onde se procedia o processo do alistamento para o recrutamento local”, completa ele, ressaltando que ficaram 16 feridos no episódio. Também houve tumulto em Goianinha.
“Em todos os acontecimentos as mulheres eram as mais animosas e vibrantes, defendendo os filhos, maridos e noivos”, destaca.
Cascudo situa o Motim das Mulheres como parte “deste ciclo”. Ele cita o trabalho de pesquisa realizado pelo professor Jerônimo Vingt-un Rosado Maia (1920-2005) que coletou depoimento de uma testemunha da revolta. Francisco Romão Filgueira, que tinha 15 anos em 1875, contou a ele que “Ana Floriano, tipo de mulher forte, olhos azuis, cabelos louros, estatura além do comum para seu sexo, encabeçava o movimento”.
300 mulheres
“No dia marcado, estavam umas 300 mulheres reunidas em Mossoró, porque as próprias Evas dos arrabaldes haviam aderido ao motim”, afirmou o depoente. O grupo partiu em cortejo até a Igreja de Santa Luzia, local que vinha sendo utilizado para o alistamento. “Aí foram rasgados os editais pregados nas portas da igreja e despedaçados vários livros”, descreveu.
Em seguida, as mulheres foram até um ponto em que havia um grupo de policiais encaminhados para “dominar a sedição”. Houve então tumulto, com luta entre solados e mulheres. “Como era natural, foram várias as feridas, tendo a interferência de pessoas gradas da localidade evitado mais funestas consequências”, afirmou.
Em ofício emitido pelo juiz de direito da cidade ao então presidente da Província, em 4 de setembro, o episódio também é relatado. Segundo o texto, não seriam 300, mas “um grupo de 50 a 100 mulheres mal aconselhadas por seus maridos e parentes” as que fizeram o motim, reduzindo a pedaços “no meio da rua” os “papéis relativos ao alistamento”.
Para o artista plástico e pesquisador Isaías Medeiros, que produziu várias imagens alusivas ao episódio, o que mais chama a atenção do movimento “é a força feminina da organização, a coragem dessas mulheres de enfrentar com a força do braço” o poder instituído.
“A história conta que elas entraram em luta com as políticas da época, saíram em marcha pelas ruas munidas de panelas, pratos, colheres de pau, com o que tinham em casa”, destaca ele à BBC News Brasil. “E quando a guarda da época foi reprimir, elas entraram em luta.”
“Essas mulheres rasgaram os editais na porta da igreja e seguiram para o jornal [O Mossoroense, que circulou entre 1872 e 2015], na redação onde estavam sendo produzidos os editais do alistamento. Invadiram o jornal e rasgaram os editais”, narra ele.

Crédito, Allan Phablo/ Coleção de Isaías Medeiros
Arquivista do Museu Histórico Lauro da Escóssia, em Mossoró, Deoclecio Evaristo de Oliveira Júnior define o motim como “um protesto de várias mães que lutaram pelo direito de seus filhos de não participarem de uma guerra”.
“A importância se dá pelo motivo de que ainda naquela época já existir mulheres capazes de se organizar e, juntas, enfrentar os governantes”, diz ele à BBC News Brasil. Oliveira Júnior relata que as mulheres chegaram a fazer o juiz de paz como refém naquele histórico dia.
“Esse fato foi um dos grandes pleitos de nossa história”, acrescenta ele, lembrando que o episódio é tema de exposição permanente no museu, dentro do que a instituição classifica de “pioneirismo feminino em Mossoró”.
O artista Medeiros, em suas obras, representou a líder Ana Floriano com um espeto na mão aludindo ao relato de que ela teria ameaçado os oponentes de morte “com a ponta do meu espeto”. “Ela saiu às ruas dizendo que estava contra o alistamento para a Guerra do Paraguai”, comenta ele. “A guerra já havia acabado, mas eles achavam que os jovens estavam sendo alistados para uma possível retomada [do conflito].”
“Elas disseram não. E a força da mulher defendendo suas famílias é algo muito bonito”, comenta o artista.
Rostos e nomes
De acordo com verbete do Dicionário Mulheres do Brasil, organizado por Schuma Schumaher e Erico Vital Brazil, a líder Ana Floriano ficou conhecida assim porque era casada com Floriano da Rocha Nogueira — seu nome verdadeiro era Ana Rodrigues Braga.
“Todas as participantes [do motim organizado por ela] eram mães de família respeitáveis, e a cidade ficou chocada com suas ações”, diz o verbete.
“Juntamente com Ana, mais duas mulheres, Maria Filgueira, casada com um capitão, e Joaquina de Sousa, ajudavam a organizar o movimento. À exceção de Maria Filgueira, todas as mulheres aparecem nos relatos como Ana de Tal ou Joaquina de Tal”, ressalta o texto.
Medeiros atentou para isso em suas pesquisas. Ele conta que em suas obras, buscou não só dar imagens ao episódio histórico como também em procurar conferir rostos a essas mulheres anonimizadas.
O protesto das mulheres acabou se resumindo ao dia em si. “Após o episódio, todas voltaram para suas casas”, diz o verbete do Dicionário.
“A história do Motim das Mulheres sempre me chamou a atenção por usa beleza e pelo pioneirismo das mulheres nesse contexto machista”, diz o artista Medeiros.
Ele fez questão de incluir em suas obras rostos de mulheres negras, lembrando que embora a historiografia ressalte apenas as representantes da elite mossoroense, mulheres escravizadas também tomaram parte do ato.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL