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7 de março de 2026

O erro de esperar um mundo simples para investir – 07/03/2026 – De Grão em Grão

O erro de esperar um mundo simples para investir – 07/03/2026 – De Grão em Grão

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Quando somos crianças, algumas coisas parecem impossíveis. Um pote no alto do armário parece longe demais, uma escada parece interminável, uma pequena descida de bicicleta parece perigosa. Anos depois, ao voltar aos mesmos lugares, percebemos que nada era tão grande assim. O objeto continua no mesmo lugar. O que mudou foi apenas a forma como o enxergamos.

Algo parecido acontece com a maneira como lembramos do passado econômico. Ao longo das três décadas de minha carreira, com frequência, escuto a frase: “o mundo está muito complicado agora”. Muitas vezes ela surge como justificativa para adiar investimentos, evitar investimentos pensando em prazos maiores que um ano ou para justificar decisões que não conversam bem com o planejamento financeiro de longo prazo. O curioso é que praticamente todas as gerações disseram algo parecido.

Se voltarmos algumas décadas, veremos que os motivos para preocupação nunca foram escassos. Nos anos 1980, grande parte da América Latina enfrentava crises de dívida externa. No Brasil, a década ficou marcada por inflação descontrolada, sucessivos planos econômicos e enorme instabilidade monetária.

Os anos 1990 também começaram longe de ser tranquilos. No Brasil, o Plano Collor bloqueou parte das poupanças da população em 1990, um episódio que abalou profundamente a confiança no sistema financeiro. No cenário internacional, a década foi marcada por uma sequência de turbulências: a crise mexicana de 1994, a crise financeira asiática de 1997 e a crise russa de 1998.

Pouco depois, no início dos anos 2000, a euforia com empresas de tecnologia terminou no estouro da bolha das companhias de internet. Em seguida vieram os atentados de 11 de setembro de 2001, que desencadearam anos de conflitos no Oriente Médio, incluindo as guerras no Afeganistão e no Iraque. Em 2008, o mundo enfrentou a maior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial. Depois veio a crise da dívida da Grécia por volta de 2012.

Novas tensões geopolíticas voltaram às manchetes, como a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a guerra entre Rússia e Ucrânia mais recente. Não podemos esquecer da Pandemia em 2020. E os conflitos, por décadas, recorrentes no Oriente Médio se intensificam nesse momento.

Em cada um desses momentos havia a sensação de que o mundo atravessava um período excepcionalmente complicado.

Existe ainda um elemento que amplifica essa percepção. Hoje somos expostos a uma quantidade de informação muito maior do que no passado. Crises são acompanhadas em tempo real, e cada evento internacional chega imediatamente ao celular. Não é necessariamente que o mundo esteja mais caótico. Muitas vezes apenas estamos mais conscientes de cada problema.

Ao mesmo tempo, nossa memória costuma tratar o passado com mais gentileza. Existe um fenômeno bem documentado chamado “viés de retrospectiva” (hindsight bias). Depois que um evento passa, ele parece mais previsível e menos assustador do que realmente foi.

A psicologia comportamental discute amplamente esse fenômeno. O próprio Daniel Kahneman descreve como nossa memória tende a simplificar eventos passados, removendo parte da incerteza que realmente existia naquele momento.

O resultado é uma comparação injusta: lembramos de um passado que parece mais tranquilo e o comparamos com um presente cheio de dúvidas. Como disse o investidor Howard Marks: investir sempre significou conviver com o futuro e, consequentemente, com a incerteza.

Talvez o mundo realmente pareça mais complicado quando estamos vivendo os acontecimentos. Mas a história sugere algo interessante: quase todas as épocas pareceram difíceis e incertas para quem estava dentro delas. Depois que passam, deixam de ser crise permanente e passam a ser apenas mais um capítulo da história econômica.

Talvez, daqui a alguns anos, o período que hoje parece tão turbulento também seja lembrado exatamente dessa forma. Portanto, sempre siga seu planejamento de investimento e não perca oportunidades.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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