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4 de fevereiro de 2026

O novo manual anticâncer: 14 orientações para prevenir a doença desde já

O novo manual anticâncer: 14 orientações para prevenir a doença desde já

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Se tudo continuar como está, 35 milhões de pessoas serão diagnosticadas com câncer em 2050. A projeção, da Organização Mundial da Saúde (OMS), equivale à soma da população dos estados de Minas Gerais e Bahia e representa um aumento de 77% na incidência desse grupo de doenças em comparação com o ano de 2022, quando foram registrados 20 milhões de casos.

“Essa escalada é explicada, por um lado, pelo envelhecimento das pessoas, mas, por outro, tem a influência de maus hábitos e fatores de risco presentes no ambiente em que vivemos”, afirma o sanitarista Antonio Antonietto, diretor médico do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. A excelente notícia é que até metade desses diagnósticos previstos pode ser prevenida. Como?

Para orientar a população, cientistas lançaram no último congresso europeu de oncologia, realizado em Berlim, na Alemanha, a versão em inglês da quinta edição do Código Europeu contra o Câncer, que lista 14 ações factíveis de serem adotadas pela sociedade e estimuladas por políticas públicas a fim de minimizar o risco de tumores.

Prevenção não é apenas questão de escolha individual, envolve conhecimento coletivo, comunicação efetiva e colaboração global”, disse, no evento, a epidemiologista Elisabete Weiderpass, diretora da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), da OMS.

No Dia Mundial de Combate ao Câncer, o documento ganha tradução para 23 idiomas, inclusive o português. A VEJA SAÚDE mostra o que fazer para tirar a doença do seu caminho.

  1. Não fume (nem cigarro eletrônico) 
  2. Não exponha os outros à fumaça do tabaco
  3. Evite o ganho de peso
  4. Pratique atividade física
  5. Tenha uma dieta equilibrada 
  6. Não tome bebida alcoólica
  7. Amamente quanto puder
  8. Proteja-se ao se expor ao sol
  9. Cuide-se no ambiente de trabalho
  10. Fique longe desse gás
  11. Lute contra a poluição atmosférica
  12. Vacine-se e trate infecções
  13. Cheque se pode fazer reposição hormonal
  14. Faça sempre os exames de rotina

1. Não fume (nem cigarro eletrônico) 

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Não fumar é a principal forma de prevenir o câncer (Ana Cossermelli/Veja Saúde)
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O ano é 1912 — e o consultório do médico alemão Isaac Adler, em Nova York, nos EUA, era constantemente procurado por pessoas com uma doença até então rara: o câncer de pulmão. Após atender centenas desses casos, o doutor notou algo em comum: a maioria dos pacientes fumava, e essa, desconfiava, era a causa do problema. Na mosca!

Na década de 1950, a relação foi comprovada (apesar do lobby da indústria do tabaco) e, desde então, os governos trabalham para reduzir o fumo, taxando produtos e ressaltando seus malefícios — como o desenvolvimento de mais de uma dezena de cânceres, incluindo de pulmão, garganta e mama.

Hoje, não fumar é a forma de prevenir a doença mais lembrada pelas pessoas, segundo um levantamento europeu. “Praticamente metade dos casos preveníveis de câncer é causada pelo tabaco”, diz o epidemiologista alemão Joachim Schüz, da Iarc. A batalha, porém, não está vencida, haja vista a expansão dos vapes.

2. Não exponha os outros à fumaça do tabaco

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Não se exponha à fumaça do cigarro — o fumo passivo é um fator de risco até mesmo para crianças (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

O fumante não é o único a enfrentar os riscos do cigarro: todos aqueles que estão no entorno também encaram a ameaça. “Mulheres e crianças estão particularmente vulneráveis, e podem receber um diagnóstico mesmo nunca tendo fumado”, explicou a farmacêutica espanhola Carolina Espina, pesquisadora da Iarc, no evento de lançamento do código em Berlim.

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Além disso, a exposição precoce à fumaça com substâncias cancerígenas também é sabidamente uma causa do hepatoblastoma, tumor maligno que surge no fígado de crianças e adolescentes.

Conviver com a fumaceira alheia é também um desafio para quem está tentando parar de dar suas tragadas. E é preciso lembrar que o uso de produtos eletrônicos não diminui o perigo. “Já existem relatos na literatura médica que os associam até a cânceres no sangue”, conta a médica Maria Scuarcialupi, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).

3. Evite o ganho de peso

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A obesidade está relacionada à vários tipos de câncer, como o de mama e o colorretal (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Segundo estudos feitos com a população europeia, até 7% dos tumores podem ser atribuídos ao excesso de peso. Por isso, ficar de olho na balança é uma medida importante para diminuir as chances de receber um diagnóstico grave lá na frente.

A ciência já reconhece 13 tipos de câncer relacionados ao sobrepeso e à obesidade. Entre eles estão os de intestino, fígado, pâncreas, rim, mama, endométrio, ovário e próstata.

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As mulheres podem sofrer desproporcionalmente com essa relação entre o acúmulo de gordura e o desenvolvimento de nódulos malignos, principalmente após a menopausa.

Na nova edição do código europeu, os especialistas ressaltam a necessidade de evitar alimentos e bebidas açucaradas e ultraprocessadas. “Podemos defini-las como formulações industriais, densas em energia e pobres em nutrientes, com ingredientes que não são usados em casa, mas são hiperpalatáveis, convenientes e aumentam o prazo de validade”, resume Espina.

4. Pratique atividade física

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A prática da atividade física é essencial para a prevenção e o tratamento do câncer (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

No último ano, um estudo clínico apresentado no congresso americano de oncologia mostrou, pela primeira vez, que a prática regular de exercícios faz uma grande diferença até no tratamento do câncer, evitando que o tumor retorne em pacientes que tiveram câncer colorretal de alto risco.

Mas, muito antes de se comprovar a relevância da atividade física no tratamento, já era conhecido seu papel na prevenção. “A recomendação da OMS é que adultos façam, pelo menos, 150 minutos de exercício de intensidade moderada por semana, mas qualquer período ativo já traz um ganho”, diz o oncologista Fernando Maluf, do Instituto Vencer o Câncer, que esteve presente no congresso europeu.

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A nova diretriz sugere que os ambientes de trabalho se tornem pontos de estímulo à movimentação e que a prescrição de atividade física e o acompanhamento da evolução do hábito se tornem cada vez mais comuns na rede de atenção primária à saúde. 

5. Tenha uma dieta equilibrada 

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Consumir ultraprocessados e carne vermelha em excesso está associado a maior risco de doenças crônicas e câncer, principalmente colorretal (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Estima-se que até 10% dos casos de câncer podem ser atribuídos aos maus hábitos à mesa — independentemente se houve ou não ganho de peso. Se o seu cardápio carece de frutas, verduras e outras fontes de fibras, e esbanja carne vermelha, embutidos, bebidas artificiais e ultraprocessados, é hora de refletir sobre o menu e fazer escolhas mais saudáveis.

O câncer colorretal, que afeta mais de 45 mil brasileiros por ano, é o principal tumor associado à dieta desbalanceada.

Para evitar problemas desse tipo, o código europeu recomenda que, na hora de se servir, você preencha metade do prato com hortaliças e até frutas; reserve um quarto para proteínas magras (aves, peixes, ovos, tofu, nozes, feijões…); e deixe o outro quarto para grãos e cereais, preferencialmente os integrais.

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“Mas é fundamental que os governos criem políticas que garantam o acesso a uma alimentação mais saudável e diversa à população”, ressalta Espina. Esse é um direito.

6. Não tome bebida alcoólica

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Não há dose segura de álcool, concluem estudos atualizados (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Esqueça tudo o que você já ouviu sobre os benefícios do álcool para a saúde — inclusive o papo de que uma ou duas taças são o segredo da longevidade.

Estudos recentes demonstraram que não há uma dose segura para consumir fermentados e destilados. Dados da última década mostram que quase 23 mil casos anuais de câncer foram causados pelo consumo leve ou moderado de bebidas (considerando até dois copos por dia), incluindo 11 mil cânceres de mama em mulheres.

Isso porque, quando o corpo metaboliza o álcool, acaba produzindo acetaldeído, substância que é classificada pela Iarc como cancerígena. O acúmulo do componente prejudica o DNA humano e bagunça a produção hormonal, podendo elevar o estrogênio, que está relacionado a tumores mamários.

Outros cânceres comuns que podem surgir dessa relação são os de boca, garganta, laringe, esôfago, fígado e intestino. Não beber é a decisão mais sensata a tomar.

7. Amamente quanto puder

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Amamentar estimula o sistema imunológico e previne o câncer de mama (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

aleitamento materno é um aliado poderoso na prevenção do câncer. Um estudo apresentado no congresso europeu de oncologia explica por que amamentar beneficia as mães.

O tecido mamário daquelas que dão de mamar têm, no longo prazo, mais células de defesa do tipo CD8 T+, que são responsáveis por proteger o corpo contra os tumores malignos — inclusive o triplo-negativo, que é um dos cânceres de mama mais agressivos.

A OMS recomenda que as mães mantenham o aleitamento materno exclusivo nos 6 primeiros meses de vida do bebê e que continuem de forma complementar, pelo menos, até os 2 anos.

No Brasil, menos da metade segue a orientação.Amamentar deve ser visto como uma responsabilidade compartilhada entre sociedade, família e instituições, e não como um dever solitário da mulher”, avalia a oncologista Luciana Landeiro, da Oncoclínicas, que esteve no evento em Berlim.

8. Proteja-se ao se expor ao sol

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O câncer de pele é o tipo de tumor mais comum no mundo, mas também é um dos mais fáceis de ser evitado (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

O câncer de pele é o mais comum do mundo — e também um dos mais simples de ser evitado. A chave para manter o nosso maior órgão são e salvo é resguardá-lo dos raios solares, fazendo uso de filtros, roupas adequadas, óculos, chapéu e, claro, não saindo em horários de sol a pino.

Como abordado na última capa de VEJA SAÚDE, o uso de protetores solares é seguro e essencial para evitar o crescimento desses tipos de câncer, que variam muito em forma e em agressividade.

O código europeu também ressalta o risco que as câmaras de bronzeamento artificial representam à saúde da pele. No Brasil, essas máquinas são proibidas desde 2009. Clínicas clandestinas, porém, oferecem o serviço e são divulgadas nas redes sociais. Não se engane!

E, para prevenir mesmo o problema, vá ao dermatologista pelo menos uma vez ao ano para checar a presença de pintas, feridas que não cicatrizam e outras formações. A prevenção deve ser incentivada desde a infância.

9. Cuide-se no ambiente de trabalho

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Informe-se sobre os riscos e como se proteger deles durante o trabalho (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Segundo a OMS, de 2 a 8% dos casos de câncer estão relacionados à esfera ocupacional. Isso porque boa parte da força de trabalho está exposta a algum fator de risco, como substâncias químicas carcinogênicas, exposição solar, poluição atmosférica ou empregos noturnos — sim, trabalhar de madrugada está associado a maior risco de câncer de mama e próstata.

Um estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que um em cada cinco diagnósticos de câncer de pulmão em homens pode estar relacionado à exposição a químicos como amianto, sílica, radônio e produtos da combustão de motores a diesel no expediente.

“Para diminuir o risco, é importante que haja uma política de vigilância da saúde do trabalhador, com avaliação periódica e mudanças nas condições de trabalho, substituindo materiais por outros que não prejudiquem a saúde”, orienta a médica Andrea Magalhães, da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt).

10. Fique longe desse gás

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Gás radônio, que pode ser encontrado em casa, é uma preocupação e um fator de risco para o câncer relevante na Europa (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Eis a orientação do documento europeu mais distante da realidade brasileira. Em países frios, em que é mais comum passar longos períodos enfurnado em casa, garantir trocas de ar é uma preocupação para evitar o acúmulo de radônio no lar.

Esse gás é liberado gradualmente pelo solo, conforme elementos radioativos que fazem parte da composição da terra vão decaindo. O gás radônio é um elemento radioativo e reconhecido como uma das principais causas de câncer de pulmão, ficando atrás apenas do tabagismo em algumas partes do mundo.

Por ser incolor e inodoro, não é facilmente detectado sem o equipamento necessário. Na Europa, onde representa um desafio, há mapas que podem ser consultados para checar o nível de emissão em várias regiões.

Por aqui, a ferramenta ainda está indisponível, e o Serviço Geológico do Brasil (SGB) é a entidade responsável por realizar as medições.

11. Lute contra a poluição atmosférica

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Segundo a Organização Mundial da Saúde, 99% da população mundial respira ar poluído, que é um fator de risco para o câncer (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

A poluição do ar é considerada carcinogênica desde 2013 pela OMS, mas só agora foi integrada ao rol de orientações para prevenção do câncer.

Como é difícil escapar dos poluentes, a diretriz europeia estimula que as pessoas se engajem na criação e cobrança de políticas de redução na emissão de gases poluentes, bem como tomem decisões mais conscientes no dia a dia.

Entre elas, usar o transporte público e também deixar o carro de lado em trajetos que podem ser feitos a pé ou de bicicleta. A poluição é considerada, em algumas regiões, a segunda principal causa de câncer de pulmão.

O problema ambiental pode estar associado a tumores na bexiga, na mama e no cérebro, e certos elementos, como o benzeno, estão ligados a cânceres sanguíneos.

Em artigo publicado na revista Nature, cientistas concluíram que o contato com o ar de baixa qualidade pode danificar o DNA tal qual o tabaco.

12. Vacine-se e trate infecções

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Infecções virais e bacterianas associadas ao risco de câncer podem ser prevenidas com vacinação e tratamento adequado (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Sim, vacinas são capazes de prevenir não apenas um, mas vários tipos de câncer.

O imunizante contra o papilomavírus humano (HPV), por exemplo, previne o desenvolvimento de tumores no colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e garganta. No Brasil, ele é oferecido gratuitamente a meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de outros grupos de risco.

Na Europa, que foi pioneira na imunização, o código passa a indicar a vacinação também para os garotos, como já ocorre aqui.

Outra vacina que pode nos livrar de um câncer é a da hepatite B, que evita lesões no fígado. “Além de garantir a imunização, é preciso diagnosticar e tratar as infecções virais quando ainda há tempo”, avisa Espina.

Além dos vírus, a bactéria H. pylori também está associada ao câncer. No caso, o de estômago e o de esôfago — a endoscopia ajuda a flagrar o problema, controlado com o uso de antibióticos.

13. Cheque se pode fazer reposição hormonal

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Nem toda mulher pode fazer terapia de reposição hormonal para lidar com os sintomas da menopausa. Discuta o assunto com o seu médico (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

Outro diferencial do guia europeu foi dar destaque à necessidade de discutir com cautela o tratamento hormonal dos sintomas da menopausa. Não é que ele vá fazer mal a todas as mulheres, mas o texto recomenda que não se faça sem orientação médica e que as medicações sejam usadas pelo menor tempo possível.

“Com exceção do estrogênio por via vaginal, todas as formas de terapia de reposição hormonal podem estar associadas ao aumento do risco de câncer”, afirmou Espina na apresentação do código. Cabe contextualizar.

“Em termos gerais, o risco adicional de câncer de mama é pequeno, cerca de um caso a cada mil mulheres”, diz Lucia Helena Paiva, presidente da comissão de climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Vai depender do histórico da paciente, portanto. Contraindicações incluem episódios anteriores de tumores como os de mama e ovário.

14. Faça sempre os exames de rotina

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Vários exames podem diagnosticar precocemente o câncer aumentar as chances de cura. Faça-os! (Ana Cossermelli/Veja Saúde)

O documento europeu indica o rastreio do câncer colorretal, de mama, de colo de útero e de pulmão — o último o estreante da edição. No Brasil, a colonoscopia deve ser realizada por toda a população a partir dos 45 anos.

Em 2025, o teste DNA-HPV passou a ser o novo padrão na detecção do câncer cervical. A mamografia, segundo entidades médicas, deve ser feita anualmente por todas as mulheres a partir dos 40.

E, para o pulmão, quem tem mais de 50 anos e histórico de fumo pode realizar a tomografia computadorizada de baixa dose.

“Nota-se, porém, que, apesar de o câncer de próstata ser o mais comum entre os homens, não há menção a ele”, pondera Erik Briers, presidente da Europa Uomo, que advoga por pacientes com a doença.

No Brasil, apesar de controvérsias, os médicos indicam o exame de sangue de PSA a partir dos 50 anos. O ponto crucial é sempre individualizar o cuidado para não dar margem ao perigo.



Fonte.:Saúde Abril

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