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- Author, David Robson
- Role, BBC Future
Quando eu tinha cerca de 16 anos, pensei que seria divertido ter uma noite de cinema. Mas eu estava errado.
Um dos meus amigos trouxe seu DVD do filme O Exorcista (1973). Passei as duas horas seguintes cobrindo os olhos com as mãos.
Toda vez que eu pulava da cadeira, ficava imaginando como as outras pessoas conseguiam se entreter tanto com algo tão apavorante.
Filósofos e psicólogos também se fizeram a mesma pergunta. Afinal, a lógica indica que o medo foi a resposta da evolução para nos afastar daquilo que ameaça a nossa segurança.
O medo nos ajuda a evitar tudo o que possa prejudicar a nós ou aos nossos entes queridos. É por isso que ele desencadeia a reação de lutar ou fugir.
Mas, durante o Halloween no final do mês passado, muitos de nós saímos ativamente em busca de algo que nos assustasse, devorando filmes criados especificamente para fazer o nosso coração disparar.
“O paradoxo do terror é um enigma muito antigo”, segundo o pesquisador Mark Miller, da Universidade Monash, na Austrália, e de Toronto, no Canadá.
“O próprio Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) comentou que é estranho como somos condicionados a evitar e fugir de coisas perigosas, repugnantes, prejudiciais e horríveis. E, ainda assim, ficamos magnetizados quando estamos em contato com coisas repugnantes, horríveis, nocivas ou apavorantes.”

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Nos últimos 10 anos, os psicólogos finalmente começaram a solucionar este enigma. Evidências indicam que as histórias de terror interagem com processos básicos do cérebro, que nos ajudam a lidar com as incertezas.
As pesquisas mais recentes sugerem que as histórias de terror da ficção poderiam até mesmo fornecer importantes benefícios psicológicos, como a redução da ansiedade que sentimos frente aos acontecimentos do mundo real.
Por isso, o terror é um bálsamo para nossas preocupações.
Preferências paradoxais
O psicólogo Coltan Scrivner, da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, é o autor do novo livro Morbidly Curious: A Scientist Explains Why We Can’t Look Away (“Curiosidade mórbida: cientista explica por que não conseguimos afastar o olhar”, em tradução livre). Ele é um dos pioneiros no estudo deste tema.
Desde criança, Scrivner sempre apreciou a emoção gerada pelas histórias que causam medo. Mas só quando chegou à universidade, ele começou a questionar a onipresença das histórias de terror na cultura humana.
“A primeira evidência que temos por escrito inclui demônios horríveis e feras monstruosas”, conta Scrivner. Ele se refere às tábuas babilônicas de 4 mil anos atrás, que registram a Epopeia de Gilgamesh.
“Eu diria que as características das histórias de terror são tão antigas quanto a própria linguagem”, segundo ele.
Uma explicação seria que as histórias de terror servem como uma espécie de jogo que nos permite compreender o mundo à nossa volta e nos prepara para as ameaças que poderemos enfrentar.
“É uma adaptação para que qualquer animal, incluindo os seres humanos, compreenda e aprenda sobre os perigos que estão à sua volta”, afirma Scrivner.

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Podemos constatar as origens desta questão em outras espécies. As gazelas, por exemplo, costumam observar os predadores à distância antes de fugir.
“O motivo por que os seres humanos parecem ser as criaturas com mais curiosidade mórbida de todas é que temos esta incrível capacidade de criar, transmitir e consumir histórias”, afirma Scrivner.
O pesquisador já reuniu diversas confirmações desses benefícios adaptativos.
Em um de seus estudos, Scrivner recrutou cerca de 400 participantes para responder a um questionário online. Eles avaliaram se estavam ou não de acordo com uma série de afirmações sobre seu consumo de filmes de terror.
Os participantes responderam perguntas como:
- Gosto das sensações que vivencio quanto assisto a filmes de terror.
- Já me assustei tanto vendo um filme de terror que fiquei com medo de voltar para casa ou de andar pelos cômodos em seguida.
- Gosto de ver “filmes de tortura” porque tenho curiosidade de saber como ela seria na realidade.
Analisando os resultados, Scrivner concluiu que é possível dividir os participantes em três grupos principais.
Os primeiros foram chamados de “dependentes de adrenalina”. Eles se deixavam levar pela sensação física de suspense e declararam que o medo fazia com que eles se sentissem “mais vivos”.
O segundo grupo era o dos “apavorados”. Sua tendência é detestar o estresse provocado pelos filmes deste gênero.
“Eles não gostam necessariamente da sensação de medo, mas sim da sensação de superá-lo”, explica Scrivner. Eles sentem que o processo os ajudou, por exemplo, a aprender algo importante sobre si mesmos.
O terceiro grupo é o dos “negociadores sombrios”. Para eles, os filmes são uma forma de enfrentar a vida real.
Estes participantes relataram que assistem a filmes de terror para observar, por exemplo, como o mundo é violento e para recordar como suas vidas são seguras, em comparação com o sangue derramado na tela.
Alguns chegaram a considerar a ação na tela como uma forma de controlar sua própria ansiedade ou depressão. Era uma forma de colocar sua valentia à prova.
Cada um desses motivos oferece uma explicação sobre o paradoxo da nossa fascinação pelo macabro.
“Pode haver diversos caminhos para a curiosidade mórbida”, segundo Scrivner.

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Para comprovar se os mesmos resultados seriam obtidos em um contexto totalmente diferente, Scrivner se associou a pesquisadores dinamarqueses.
Eles interrogaram visitantes da Casa Mal-Assombrada Dystopia — uma experiência interativa na cidade de Vejle, na Dinamarca, construída ao redor de um labirinto com efeitos especiais e atores treinados para aterrorizar os visitantes.
Foram observados exatamente os mesmos padrões, o que confirma significativamente sua teoria.
“Estes três ‘tipos’ foram reproduzidos à perfeição em um idioma, cultura e ambiente diferentes”, explica Scrivner.
Eles eram mais propensos a concordar com afirmações como “acompanhei as notícias sobre a pandemia com naturalidade” e “acredito na minha capacidade de superar estes tempos difíceis”.
Simulações refinadas
Estes efeitos também poderiam refletir um princípio fundamental do funcionamento do cérebro.
Nas últimas décadas, filósofos, neurocientistas e psicólogos concordaram com a ideia de que o cérebro constrói constantemente simulações do mundo à nossa volta. Para Miller, “é um motor de antecipação”.
No meu livro The Expectation Effect (“O efeito da expectativa”, em tradução livre), descrevo que o nosso cérebro emprega o “processamento preditivo” para nos ajudar a interpretar novos eventos à medida que eles ocorrem e planejar adequadamente nossas reações.
Quanto mais precisão tivermos neste processamento, melhor. Isso é fundamental para nossa flexibilidade na gestão deste mundo repleto de incertezas.
Miller sugere que as histórias de terror fornecem a incerteza necessária para manter o “motor de antecipação” em atividade, permitindo que ele refine suas simulações e realize melhores previsões de ameaças no futuro.
“Estar neste ponto ideal significa que a sua capacidade de previsão está em constante desenvolvimento, o que permite ficar cada vez mais preparado para gerir a incerteza a longo prazo”, explica ele.
Da mesma forma que Scrivner, Miller acredita que isso possa ser útil para reduzir a ansiedade, moderando nossa reação ao estresse frente a eventos inquietantes. Para ele, “o terror é uma oportunidade para vivenciar o medo, o asco e a pressão”.
Naturalmente, a vantagem é que permanecemos na segurança e comodidade do nosso sofá durante este processo de aprendizado e podemos controlar o medo que sentimos, seja pausando o filme, saindo do quarto ou nos escondendo atrás de um saco de pipocas.
Medo terapêutico
Coltan Scrivner sugere que as histórias de terror poderiam ser incorporadas à terapia psicológica, como forma de ensinar às pessoas como enfrentar situações difíceis.
Com o livro ou o filme adequado, podemos aprender a minimizar o nosso medo e transformá-lo em um suave motivo de estímulo. Criaríamos capacidades de regulação emocional que nos ajudariam a enfrentar melhor o estresse do dia a dia.

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Scrivner conta que pesquisadores holandeses utilizaram um princípio similar para tratar crianças com ansiedade, usando um videogame chamado MindLight.
O jogo é ambientado em uma casa mal-assombrada, com monstros espalhafatosos perseguindo o avatar do jogador.
A criança usa um aparelho de encefalografia, que mede sua atividade cerebral e controla diretamente uma luz na cabeça do avatar. Quanto mais tranquila ela ficar, mais brilhante fica a luz, reforçando seu relaxamento.
Se a criança conseguir manter este estado de relaxamento durante um ataque, o monstro se transforma em um adorável gatinho, que a segue por toda a casa. Mas, se ela se assustar demais, surge uma mensagem com conselhos para acalmar sua mente antes de continuar.
Em diversos testes clínicos, as crianças que jogaram regularmente demonstraram redução da ansiedade no seu dia a dia, com benefícios gerais similares aos da terapia cognitivo-comportamental clássica.
“É incrível, pois este é o padrão-ouro para o tratamento da ansiedade em crianças”, afirma Scrivner.
Ele acredita que as histórias de terror habituais, seja em livros ou filmes, possam ser usadas com objetivo similar.
O pesquisador escreve em uma resenha sobre o tema que “o conteúdo de entretenimento de terror permite que as pessoas vivenciem o medo em um ambiente seguro e controlado, que oferece a oportunidade de praticar a reavaliação cognitiva, tolerar experiências somáticas desconfortáveis e desafiar o raciocínio emocional”.
Parece que perdi uma boa oportunidade quando aquela apresentação de O Exorcista em casa me fez passar longe de tudo o que é macabro. Se você estiver na mesma situação, Scrivner recomenda procurar algo que saia um pouco da sua tolerância habitual.
“Os livros costumam ser uma boa forma de começar, pois você pode controlar um pouco melhor a sua imaginação”, aconselha ele. E tente encontrar histórias que se relacionem com seus outros interesses.
“O terror é um dos gêneros mais amplos que existem e você poderá encontrar temas que realmente sejam do seu agrado.”
Seguindo estes conselhos, talvez você se surpreenda ao ver para onde irá levar sua curiosidade mórbida e com a calma que você poderá sentir pelo resto da vida.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


