
Dados publicados no Atlas da Violência 2026 mostram que o país enfrenta uma crise de saúde mental entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, refletida também em consequências físicas. O número de internações por lesões autoprovocadas nessa faixa etária aumentou 73% em uma década.
O relatório desenvolvido pelo Ipea junto ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que em 2014 o número de internações por casos de autolesão, nessa faixa etária, era de 3,7 por 100 mil habitantes. Já em 2024 esse número saltou para 6,4.
A explicação dos pesquisadores é que esse crescimento está relacionado ao agravamento do sofrimento mental, intensificado nos últimos anos por mudanças no ambiente social, sobretudo pela expansão das redes sociais. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo reforçam essa interpretação e acrescentam que a pandemia de Covid-19, além de fatores biológicos, também contribuiu para esse fenômeno.
Pandemia e “blindagem” contra o sofrimento
Myrna Campagnoli, pediatra e endocrinologista da infância e adolescência, destaca a pandemia da Covid-19 como um dos fatores responsáveis. Segundo ela, essa geração foi exposta muito precocemente à finitude da vida, viveu o afastamento social em um período importante de desenvolvimento relacional e, somado a isso, ainda há uma tendência dentro da parentalidade de privar os filhos do sofrimento e das frustrações.
“Isso tudo criou uma geração que é menos resiliente para o sofrimento e frustrações do dia a dia. É um grupo que acabou se ligando muito à questão do relacionamento virtual e perdeu um pouco de traquejo social. Eles têm muito medo de tudo e diversos trabalhos e estudos correlacionam isso ao período da pandemia”, explica ela.
A pediatra aponta, ainda, um fator biológico alterado por conta da pandemia: o período de isolamento social funcionou como um disruptor hormonal. Assim, a puberdade em muitas crianças foi antecipada. “Várias delas desenvolveram a puberdade um pouco mais cedo, passando pela adolescência em um momento de maior imaturidade psicoemocional.”
O paradoxo do fácil acesso à informação
O Atlas da Violência também aponta que a maior facilidade de acesso à informação — inclusive sobre saúde mental, historicamente precária em alguns estados brasileiros — contribuiu para o aumento no número de notificações. Essa ampliação da rede de informação, segundo a psicóloga clínica familiar Helena Virmonde, pode ser ao mesmo tempo um benefício e um problema.
“Hoje alguns adolescentes se autodiagnosticam via plataformas como TikTok, Instagram e até inteligência artificial. Esse acesso à informação tem um lado bom, porque as pessoas buscam ajuda, mas tem um lado mau, em que às vezes alguns adolescentes passam a reproduzir sintomas”, diz Helena ao alertar para o número de grupos em plataformas como Discord e inteligência artificial que ensinam aos jovens como se machucar e até tirar a própria vida.
Essa questão, somada à falta de maturidade característica da própria faixa etária e todo o perfil de saúde mental desenhado por questões sociais, leva crianças e adolescentes a buscarem o caminho da autolesão para externar o que as incomoda internamente. “Adolescência também é um período de muita impulsividade, em que há uma grande desregulação emocional, mudanças físicas, hormonais e corporais”, lembra Helena.
O universo virtual também amplifica o sofrimento ao criar, por meio das redes sociais, distorções perigosas na construção da identidade dos adolescentes. “Na vida real, eu sou tímido, reservado, introspectivo. No virtual, famoso e com milhões de seguidores. Eles criam um mundo paralelo. A interação digital é rápida, porém rasa. E para o adolescente é estimulante porque dá uma recompensa imediata, mas gera ansiedade e dificuldade em esperar”, pontua.
Dor invisível que se torna visível
A autolesão, que é frequentemente manifestada por meio de cortes e queimaduras, funciona como um mecanismo de enfrentamento. “A teoria da lesão autoinfligida é que você transforma uma dor que você não consegue entender ou digerir em uma que você conhece, que é a dor física. Isso acaba fazendo com que a dor psicoemocional possa ser um pouco menor quando a outra existe”, afirma a pediatra Myrna.
Ela conta que em seu consultório percebe que a frequência de casos de autolesão aumentou e o estigma em relação a isso mudou. “Antes existia uma vergonha muito grande e uma tentativa de esconder as lesões. Hoje, em alguns adolescentes, a gente vê que não existe mais tanto receio ou vergonha de que sejam descobertos”, alerta.
Helena confirma a gravidade do cenário e faz um alerta sobre a progressão desse comportamento. Segundo a psicóloga, esse é um sinal extremo de vulnerabilidade, e que minimizar esse comportamento pode trazer consequências maiores, como o fim da vida.
“A autolesão é alguém que está pedindo socorro. Se a gente finge que não vê ou menospreza a dor do outro. A autolesão é um dos primeiros degraus para sinalizar que algo não está bem”, finaliza ela.
Fonte. Gazeta do Povo


