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- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Nos intrincados escaninhos da máquina política que comanda a Igreja Católica, uma pasta especial repousa há anos em busca de solução.
É o caso Opus Dei, que trata da situação da quase centenária organização que há mais de 40 anos recebeu um privilégio inédito e único na hierarquia do Vaticano.
Tal poder concedido está, no entanto, está com dias contados após reformas impostas pelo papa Francisco (1936-2025).
Em 1982, o papa João Paulo 2º (1920-2005), simpatizante da instituição, mudou o status da organização de “instituto secular” (que, tipificado em 1947, reconhece organizações cujos membros seguem a fé católica, mas não renunciam a práticas comuns de seu meio social e nem se fecham em ordens religiosas) para “prelazia pessoal”.
Apesar de muitos interpretarem o termo “pessoal” como se fosse o reconhecimento de uma proximidade na relação com o papa, não se trata disso.
Tradicionalmente, as instituições religiosas estão ligadas às suas dioceses — baseadas na territorialidade, elas são comandadas por um bispo. As dioceses, por sua vez, respondem à Santa Sé.
Já a prelazia pessoal não se baseia na localidade, e sim na pessoa dos membros — por isso o termo “pessoal”.
Por esta classificação, uma prelazia pessoal não responde ao bispo da diocese onde está baseada, mas ao seu prelado, o líder superior da organização.
Ainda mais importante, o Opus Dei foi a única organização já classificada dessa forma até hoje. Mas, mudanças determinadas por Francisco retiraram recentemente seu status de prelazia pessoal.
Na teoria, a mudança concedida por João Paulo 2º serviria para conciliar o carisma da organização, que sempre defendeu o exercício da santidade por leigos, com a necessidade de estruturá-la administrativamente dentro da Igreja.
Na prática, deu ao Opus Dei uma autonomia singular na história do catolicismo, deixando, por exemplo, de ter que prestar satisfação aos bispos.
Era como se a organização fosse considerada, ela própria, uma diocese. Não à toa, virou costume também que o papa nomeasse o prelado do Opus Dei como bispo.
Nos anos 1980, no contexto da Guerra Fria, as benesses concedidas ao Opus Dei foram interpretadas como um passo mais à direita do catolicismo.
Fazia sentido: João Paulo 2º era publicamente contrário aos regimes socialistas e aos discursos comunistas. Quando ele morreu, veio Bento 16 (1927-2022), que não mexeu as peças do tabuleiro, deixando o Opus Dei com o mesmo espaço.
Após a renúncia de Bento, o pontificado de Francisco (1936-2025) incluiu o caso Opus Dei na lista do que precisava ser revisto. Segundo vaticanistas, o papa argentino se incomodava com a autonomia do grupo, considerada excessiva por ele.
Ao mesmo tempo, ele entendia que nenhuma instituição dentro do catolicismo poderia gozar de um regime de exceção.
Em sua reforma na máquina administrativa do Vaticano, Francisco viu a oportunidade de enquadrar a instituição.
Para completar o clima de tensão, o sacerdote espanhol Fernando Ocáriz Braña, chefe do Opus Dei desde 2017, não foi nomeado bispo por Francisco, como esperado segundo a tradição. Foi o primeiro prelado do Opus a não receber o título.
Para analistas, isso foi um recado: Francisco queria mostrar que o tempo de privilégios havia terminado para a organização.
“Francisco foi o papa que enfrentou o Opus Dei, que até então era praticamente intocável pela influência política e financeira que teve no Vaticano”, diz à BBC News Brasil o jornalista português Rui Pedro Antunes, autor do livro Opus Dei: Eles Estão no Meio de Nós (Matéria Prima, 2016).
O teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que Francisco era um “herdeiro” da tradição do Concílio do Vaticano 2º, ocorrido entre 1962 e 1965.
Aquele concílio trouxe para a Igreja questões sociais e temas da atualidade, além da discussão sobre o poder compartilhado com as dioceses e bispos — ponto que ficou bastante evidente durante o pontificado de Francisco, que se colocava como “mais um bispo” e se mostrava aberto à maior participação das dioceses.
“Ele buscou abrir a Igreja para temas importantes e atuais. O Opus Dei é uma força retrógrada, e sua estrutura jurídica permitia que ela navegasse na direção contrária [do esforço do Papa em trazer a Igreja para esses temas e de ampliar a participação das dioceses]”, explica Moraes.
As mudanças impostas pelo papa Francisco

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Francisco publicou três documentos em 2022 e 2023 que impuseram a necessidade de mudanças no Opus Dei.
Em primeiro lugar, a organização passou a ter de se reportar ao Dicastério para o Clero, e não mais ao Dicastério para os Bispos. Dicastérios são órgãos administrativos e temáticos comandados por prefeitos, nomeados pelo papa.
Como antes o Opus Dei tinha um status semelhante ao de uma diocese sem território, respondia ao Dicastério para os Bispos. Mas, depois, passou a se reportar ao Dicastério para o Clero, abaixo na cadeia de comando, voltado a assuntos relacionados aos padres e diáconos.
Assim, a mudança de dicastério foi vista como um rebaixamento e uma perda de poder.
Francisco também determinou que o Opus Dei passasse a apresentar relatórios anuais de suas atividades — e não quinquenais, como ocorria antes. E oficializou que o prelado da instituição não seria automaticamente nomeado bispo.
Mas a mudança mais nevrálgica foi no papel dos leigos, ou seja, os integrantes da organização que não são religiosos consagrados, como padres e freiras.
No entendimento de João Paulo 2º, em comum acordo com o fundador do Opus Dei, os leigos eram entendidos membros da prelazia.
Em 2023, o então papa mudou o status do Opus Dei de prelazia pessoal para associação clerical pública — que pressupõe uma submissão à hierarquia da Igreja e na qual há uma primazia do clero, embora os leigos também possam participar.
“Ao tornar o Opus Dei uma associação clerical pública, retirou-lhe margem de manobra e, por consequência, poder”, explica Antunes.
Na reforma de Francisco, os católicos leigos também passaram a precisar estar ligados à diocese de seus territórios. Com as novas regras, o religioso que foi consagrado ganha importância.
“Os leigos podem dedicar-se às obras apostólicas de uma prelazia pessoal mediante convenções estipuladas com a própria prelazia; o método desta cooperação orgânica e os principais deveres e direitos relacionados a ela são determinados com precisão nos estatutos”, diz o texto promulgado.
Dados oficiais do Opus Dei contabilizam atualmente 90 mil membros na instituição, a grande maioria leigos. Apenas 2015 membros são sacerdotes.
As regras impostas por Francisco também obrigam o Opus Dei a atualizar seu estatuto. Isto vem sendo feito, mas alguns críticos entendem que de forma mais lenta do que o Vaticano gostaria.
Embora não exista um prazo determinado para a publicação do novo estatuto, espera-se que tudo seja resolvido até 2028, para que o centenário da instituição seja celebrado em um contexto mais pacificado.
O estatuto terá de definir que o Opus Dei será uma associação clerical pública, como determinou Francisco.
“Esse rebaixamento de status implica que será uma associação de membros do clero secular [que responde diretamente às dioceses e bispos, diferente do clero que responde a ordens como a franciscana e dominicana], de padres e diáconos, e serão regidos por estatutos aprovados pela Igreja que concedem personalidade jurídica e definem sua missão”, explica o cientista político Aldo Fornazieri, professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
“Desta forma, o Opus Dei perderá sua autonomia e privilégios e deixará de ser uma ‘igreja dentro da Igreja'”, prossegue o professor.
“O líder da organização deixará de ter ascendência exclusiva sobre os integrantes e todos estarão submetidos à cadeia de comando que emana do Vaticano e do papa.”
De acordo com nota assinada pelo jornalista Jack Valero, chefe de comunicação do Opus Dei na Grã-Bretanha, “o que está sendo estudado é como o carisma e a dimensão jurídica do Opus Dei podem coexistir”.
Leão 14 pode reverter o que foi iniciado por Francisco?

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Nas últimas semanas, a BBC News Brasil conversou com membros do Opus Dei em quatro países diferentes. Todos solicitaram que seus nomes não fossem citados na reportagem, afirmando que as informações oficiais devem ser dadas pelos escritórios de comunicação mantidos pelo Opus.
Os entrevistados indicaram não se importar com a questão de o prelado não ser mais nomeado bispo.
“Não é uma guerra pelo poder”, disse um deles.
“Não estamos preocupados com política interna, nem com hierarquia”, comentou outro.
Outro ponto debatido pelos membros da organização é qual pode ser a postura do papa Leão 14, entronado em maio após a morte de Francisco.
Quando o atual papa era simplesmente o bispo Robert Prevost, ele comandou a diocese peruana de Chiclayo, entre 2014 e 2023. É uma região onde há diversos sacerdotes ligados ao Opus Dei.
Isso, na visão de alguns membros, poderia ajudar com que a conduta relacionada ao Opus Dei fosse mais amistosa do que nos tempos de Francisco.
Leão 14 já teve conversas privadas com o prelado do Opus Dei, mas nada indica que retrocederá no que foi determinado por Francisco. Mesmo assim, internamente ainda se espera “pelo menos alguns ajustes”, afirmam os membros.
Fornazieri acha que uma mudança de rumos sob o novo papado é “improvável”, porque o Opus Dei “vem causando desconforto em vários segmentos católicos”.
“Não há uma data publicamente conhecida para que o processo de adaptação ser consumado, mas existem informações de que o papa teria dado um ultimato”, comenta o professor.
“Acredita-se que o novo estatuto já esteja em fase final e conclusiva.”
Um texto publicado no site do Opus Dei em junho classificou como “falsa” a informação de que o papa Leão 14 teria dado um ultimato cobrando celeridade na elaboração do novo estatuto.
A reportagem questionou o departamento de comunicação do Opus Dei, mas a instituição se limitou a enviar uma sucinta nota à reportagem, assinada pelo jornalista Roberto Zanin, do escritório brasileiro.
No texto, ele enfatizou que a ordem “tem trabalhado, em sintonia com as orientações da Santa Sé, para adequar seu estatuto”.
Roberto Zanin afirmou que “o resultado desse trabalho” foi entregue ao Vaticano em junho e que o Opus aguarda a aprovação do papa para, só então, conceder entrevistas sobre o assunto.
Posições conservadoras

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O Opus Dei foi fundado em 1928, na Espanha, pelo religioso Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975) — em 2002, ele foi reconhecido como santo pelo papa João Paulo 2º.
“A origem do Opus Dei confunde-se com a história do homem que a criou”, explica Antunes.
O jornalista relata que Escrivá se tornou seminarista aos 16 anos e, depois de ordenado padre, passou a criticar a situação da Igreja Católica. Para ele, a instituição parecia “um edifício em ruínas”. Foi imbuído dessa ideia que fundou um movimento conservador e tradicionalista.
Fornazieri lembra que, historicamente, o conceito de prelazia remetia ao caráter autônomo das primeiras comunidades cristãs.
Esta ideia se perdeu no século 5, quando se consolidou a ideia de que o bispo de Roma era o líder máximo da Igreja. Por isso, na opinião dele, o instituto criado em 1982 por João Paulo 2º para o Opus Dei é “uma excrescência”.
“João Paulo 2º foi, sem dúvida, o [papa] mais próximo da Obra [em português, Opus Dei significa “Obra de Deus]”, diz Antunes.
“Adepto da mortificação corporal [atos de sacrifício físico], elevou o Opus Dei à condição de prelazia, estabelecendo a partir daí uma grande popularidade junto a membros, que ainda hoje manifestam uma grande admiração por ele.”
Moraes acrescenta que a postura de João Paulo 2º pendia para as forças conservadoras, na tentativa de equilibrar o jogo entre conservadorismo e progressismo; já com Francisco, houve uma inversão.
Desde o início, a premissa da organização é o exercício da santidade no trabalho. Isto diferencia o Opus Dei de outras organizações religiosas: seus membros não são convidados a seguir a vida religiosa como sacerdotes ou ingressando em mosteiros. Ao contrário, são incentivados a viver o cristianismo no dia a dia, nas profissões mais diversas — no chamado “trabalho ordinário”.
“Em tese, seu carisma, ou seja, a ideia da atuação mais vinculada a uma postura de santidade no mundo, atuando em todas as dimensões da vida, é algo virtuoso, digno de nota. O cristianismo reconhece isso”, pontua Moraes.
O lema do Opus Dei é “encontrar Deus no trabalho e na vida cotidiana”.
Entre os pilares da vida na organização, estão valores morais rígidos, oração intensa e constante, renúncia a prazeres e adoção de práticas como jejum e sacrifícios físicos.
Na ficção, a organização é frequentemente retratada, de forma caricatural e até mesmo com exageros, como uma sociedade secreta ultrapoderosa com agentes infiltrados tentando controlar o mundo.
O livro O Código da Vinci (Sextante, 2004) — depois adaptado para filme —, escrito pelo americano Dan Brown, é um exemplo célebre dessa abordagem.
Segundo informações oficiais da ordem, cerca de 70% dos membros são os chamados supernumerários, ou seja, homens e mulheres casados. Os demais adotam vida celibatária.
Dentre os celibatários, há os numerários, que vivem em centros do Opus Dei; as numerárias auxiliares, que geralmente se dedicam a atividades como limpeza e organização dessas casas; e o clero, ou seja, aqueles que abraçam a vida religiosa consagrada.
Há controvérsias sobre a maneira como a instituição entende o papel feminino. Em 2021, um grupo de 43 mulheres da Argentina, do Paraguai e da Bolívia denunciaram o Opus Dei ao Vaticano, alegando serem exploradas e submetidas a jornadas de até 15 horas em casas da instituição. Elas relataram também serem obrigadas a cumprir uma rotina rígida de oração e penitências.
Antunes conta que Escrivá foi criado sob forte proteção materna e isso “condicionou sua visão sobre o papel das mulheres na sociedade”.
“Ainda hoje, elas são vistas na organização como alguém mais vocacionado para a lida da casa, sofrendo uma visão misógina e machista que está enraizada na instituição”, critica ele.
Outro ponto polêmico é o viés político do Opus Dei. Historicamente, há uma ligação do fundador Escrivá com o governo do ditador espanhol Francisco Franco (1892-1975).
De acordo com pesquisas de Antunes, o religioso teve apoio da ditadura franquista, e isso impulsionou o crescimento do Opus Dei. No governo de Franco, Escrivá se tornou membro do Conselho Nacional de Educação.
“Ao longo do tempo, as posições do Opus Dei foram se coadunando, devido ao seu tradicionalismo, aos regimes de direita. Em alguns casos, de extrema-direita”, analisa o teólogo Moraes.
Na Argentina do papa Francisco, não foi diferente. A sede da entidade no país foi erguida em terreno cedido pelo governo em 1972, e os subsídios para a conclusão da obra foram garantidos por ajuda federal quando a Argentina era comandada pelo ditador Jorge Videla (1925-2013).
Para Moraes, Francisco buscou impor um limite para que o Opus Dei seguisse seu trabalho espiritual, mas evitasse se posicionar em temas que refletem uma posição mais reacionária.
Recentemente, o Opus Dei se manifestou contrariamente ao casamento entre homossexuais e a legislações pró-eutanásia, por exemplo.
“A Igreja tem um passado que reforça tais visões”, analisa o teólogo.
“Mas há um entendimento de que tais posicionamentos incisivos dificultam o diálogo maior com essas questões contemporâneas.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


