Um novo organograma da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), elaborado pela Polícia Civil de São Paulo, mostra um total de 87 líderes, divididos em 14 setores diferentes, as chamadas “sintonias”. Desses, 52 homens apontados como integrantes da facção estão presos e 35 estão em liberdade.
Além disso, o gráfico também mostra pessoas associadas e ex-integrantes da cúpula, hoje jurados de morte —ou “decretados”, no jargão da facção. Considerados todos esses, há um total de cem nomes no documento, dos quais 62 estão presos.
É a primeira vez que um organograma do PCC destaca o papel dos associados, que não passam pelo ritual de batismo da facção nem têm dedicação exclusiva a ela, no funcionamento da organização. O organograma, elaborado pelo Dipol (Departamento de Inteligência da Polícia Civil), foi divulgado inicialmente pelo SBT News e confirmado pela Folha.
Ele mostra, por exemplo, que do total de 15 homens apontados como integrantes da Sintonia Final, cúpula máxima de comando, há apenas um em liberdade. Trata-se de Adeilton Gonçalves da Silva, o Maranhão. Em 2019, ele foi apontado como um dos participantes do massacre que deixou 55 mortos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus.
À frente da Sintonia Final ainda está Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso há mais de 25 anos e no sistema penitenciário federal desde 2019. Ele ocupa o posto desde o fim de 2002, quando dois líderes considerados mais radicais foram destituídos da facção.
Entre os associados à facção no organograma estão Mohamad Hussein Murad (o Primo) e José Carlos Gonçalves (Alemão), alvos da Operação Carbono Oculto, que apontou um esquema de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis e de serviços financeiros.
Entre os setores subordinados diretamente à cúpula da facção no organograma estão as sintonias que organizam as áreas de controle territorial da facção, o tráfico internacional de drogas, a disciplina dentro de presídios, o setor jurídico, um setor de comunicação digital e até um departamento responsável por auditoria interna da facção.
A Sintonia Final de Rua é aquela que tem maior proporção de integrantes em liberdade —essa é praticamente uma pré-condição para a função, já que eles coordenam atividades da facção em bairros e cidades brasileiras. De um total de 16 integrantes desse grupo, dez estão em liberdade.
Dois deles têm mandados de prisão em aberto e são considerados foragidos. É o caso de Silvio Luiz Ferreira, o Cebola, que já foi sócio da empresa de ônibus UPBus e é o único alvo da Operação Fim da Linha que não foi preso. Ele está foragido desde 2014.
Além da Sintonia Final de Rua, o organograma identifica quatro pessoas em subdivisões regionais separadas apenas na região da Baixada Santista: a Sintonia Final da Baixada, que coordena atividades principalmente em Santos, Guarujá, Cubatão e São Vicente, e a FM-BX (Família da Baixada, que corresponde aos pontos de venda de drogas na região).
O organograma também aponta oito integrantes da Sintonia Restrita, grupo que segundo o Dipol é formado por membros de extrema confiança da cúpula e “atua como um braço direto da Sintonia Final, auxiliando na tomada de decisões estratégicas e garantindo sigilo absoluto sobre assuntos críticos do PCC”.
A sintonia ou quadro dos 14, por sua vez, é identificada como uma “instância de elite dentro da estrutura do PCC”. Segundo a Polícia Civil, é uma “instância deliberativa para julgar, sancionar e fiscalizar o cumprimento das normas dentro da facção, especialmente no âmbito ‘das ruas'”.
Há outras duas instâncias que lidam com a cadeia de comando do PCC e da manutenção da disciplina, segundo o documento: a Sintonia Interna e o Setor do Raio-X. Ambos os setores têm um membro identificado.
O Setor do Raio-X é responsável pela fiscalização interna, segundo a Polícia Civil. É “uma espécie de ‘serviço de auditoria’ do grupo, criada para inspecionar, investigar e avaliar o comportamento dos integrantes da organização”, de acordo com o documento.
O Setor do Raio-X é responsável pela fiscalização interna, segundo a Polícia Civil. É “uma espécie de ‘serviço de auditoria’ do grupo, criada para inspecionar, investigar e avaliar o comportamento dos integrantes da organização”, de acordo com o documento.
Já a Sintonia Interna seria a “estrutura de comando responsável pelo controle das operações dentro do sistema prisional e das unidades controladas”. O documento informa que ela é considerada “a espinha dorsal operacional do PCC dentro das prisões e territórios controlados, garantindo que a disciplina e a hierarquia sejam respeitadas”.
A Sintonia Final do Sistema, com sete integrantes identificados, é responsável pelo controle do PCC dentro do sistema prisional, “garantindo disciplina, hierarquia e cumprimento das ordens”.
A Sintonia Interna da Internet e Redes Sociais é responsável por vários tipos de comunicação online, segundo o documento. Ela coordena contatos entre integrantes da facção —por meio de aplicativos, rede sociais e e-mails criptografados— e também fiscaliza o uso de redes sociais, monitorando publicações que possam expor a facção.
Há ainda a Sintonia do Progresso —normalmente associada ao tráfico de drogas, é focada em logística e estratégias de crescimento da facção, segundo a Polícia Civil—, o setor da Padaria (ou financeiro) e a Sintonia Final dos Estados e Países, responsáveis pela coordenação regional e internacional.
Conforme levantamento divulgado pelo Ministério Público de São Paulo no ano passado, o PCC já alcançou ao menos 28 países. Alemanha, Irlanda, Turquia e Japão são os novos locais onde a facção foi detectada, em relação a um levantamento anterior. O faturamento total é estimado em cerca de R$ 1 bilhão por ano.
Nomes que já apareceram ao lado de Marcola na cúpula da facção, em outros mapeamentos da hierarquia da facção, hoje estão entre os “decretados” à morte.
É o caso de Roberto Soriano (o Tiriça), Wanderson Nilton Paula Lima (Andinho) e Abel Pacheco de Andrade (Vida Loka). Desde 2024, eles passaram a se opor a Marcola no que é considerado o maior racha na cúpula do PCC em duas décadas. Todos estão presos no sistema federal.
Fonte.:Folha de S.Paulo


