
Você já viu nas mídias e redes sociais os chamados superidosos: pessoas com mais de 60, 70, 80 anos que realizam uma série de atividades que, de certa forma, nos surpreendem.
Esse termo, inventado pela mídia, dentro de discursos motivacionais, não é um conceito propriamente científico. Ele promove uma supervalorização de pessoas acima dos 60 anos que são fisicamente ativas, independentes e produtivas, realizando atividades consideradas “extraordinárias” para a idade, como maratonas, trabalhos intensos e viagens mirabolantes.
Alguns fazem tudo isso ao mesmo tempo, gerando impacto na sociedade e despertando, na maioria das pessoas, uma admiração misturada com espanto.
O que mais me incomoda nesse movimento é a cobrança para ser um idoso que performa juventude. Há comparação, exagero e uma busca constante por esse ideal midiático, que muitas vezes vem acompanhada de um certo desprezo por quem não aderiu a esse modus operandi.
Mas de onde vem essa ideia? Por que isso virou quase uma ditadura da velhice?
Vamos refletir juntos. A expectativa de vida aumentou, e as pessoas vivem mais graças aos avanços da ciência, com intervenções cirúrgicas e medicamentosas. A promoção da saúde física, mental, social e nutricional também ganhou espaço.
A “receita” parece clara: ser um idoso ativo, e não passivo. Até aqui, faz sentido. Cuidar dos pilares da saúde e se manter o mais independente e funcional possível é desejável. Alimentação equilibrada, prática de exercícios, mente ativa, autonomia e relações sociais são fundamentais.
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O mito do “superidoso” e seus excessos
Mas, a partir dessas premissas legítimas e cientificamente sustentadas, surge o “boom” do superidoso. E, na minha opinião, perde-se a medida. Passa-se a incentivar um padrão quase inatingível, como se existisse um checklist do “jovem velho”:
- Envelhecimento superativo;
- Sucesso constante;
- Longevidade em três dígitos;
- Alta performance funcional.
Isso se transforma em uma cobrança. E quem não atinge esse padrão é, muitas vezes, rotulado como preguiçoso. Mas, afinal, estamos falando de envelhecimento ou de privilégio?
É preciso olhar com mais cuidado para esse tema. Surgem questões importantes: qual é a relação entre dor, contexto social, genética, estilo de vida, oportunidades, adoecimentos ao longo da vida e acesso à saúde?
Devemos considerar também as sobrecargas físicas acumuladas, o sedentarismo imposto por diferentes circunstâncias, a diferença entre envelhecimento e doença e, principalmente, a falta de acesso ao cuidado.
Dor não é exclusividade da velhice
Agora, vamos somar a isso a crença popular de que dor é coisa de “velho” com o ideal do idoso superativo. Esse idoso “highlander” muitas vezes não lida bem com as fragilidades do envelhecimento e tenta eliminá-las a qualquer custo e, de preferência, rapidamente.
Mas a dor não é exclusiva das pessoas mais velhas. Todas as faixas etárias convivem com algum tipo de dor. O que acontece é que, com o passar do tempo, acumulamos desgastes como resultado da forma como usamos o corpo ao longo da vida.
Frequentemente, sobrecarregamos nossos sistemas com trabalho excessivo na juventude, exageros, alimentação inadequada, privação de sono e estresse. Além disso, o ambiente em que vivemos também impacta o envelhecimento: poluição, trânsito, transporte público precário, condições urbanas, perdas e fatores socioeconômicos.
Um ideal acessível para todos?
Diante disso, vale perguntar: o “superidoso” é realmente uma possibilidade para todos ou um privilégio de quem teve mais oportunidades e escolhas?
Quando esse modelo se torna referência, surgem distorções. A cobrança, tanto individual quanto social, se intensifica. Sabemos que nenhum corpo é igual ao outro, mas, ainda assim, a busca por um padrão se torna incessante.
Nem todo contexto permite alcançar esse ideal. Muitas pessoas se endividam tentando imitá-lo, frustram-se e acabam gerando ainda mais estresse e expectativas irreais.
Em geral, o perfil do chamado superidoso contrasta com a realidade da maioria dos brasileiros, marcada por desigualdades, menor renda, acesso limitado à saúde, histórico de trabalho físico intenso e menos oportunidades.
O peso da comparação e da culpa
Essa exaltação promovida pela mídia gera uma culpa silenciosa e uma sensação de insuficiência por estar sempre tentando e nunca alcançar. Isso é especialmente preocupante no contexto da dor crônica, que exige reflexão, ajustes de hábitos e um cuidado contínuo, regular e gentil, respeitando limites e promovendo adaptações ao longo do tempo.
É importante lembrar que o envelhecimento é heterogêneo, multifatorial e plástico. Cada pessoa envelhece à sua maneira, com sua biologia, sua história e sua capacidade de adaptação.
Um novo olhar sobre o envelhecer
Ser ativo é importante, mas não pode ser a única régua de valor. Gostaria de propor uma forma mais gentil de pensar no envelhecimento. Os 70 são os 70 reais de cada um. Não precisamos negar a idade, nem transformar o “não aparentar” em elogio.
Existe uma estranha valorização em parecer mais jovem ou, ao contrário, uma crítica a quem “envelheceu demais”. A idade é apenas um número, o mais interessante é a história que vem com ela.
Talvez possamos falar de pessoas idosas possíveis, e não ideais. De envelhecimentos diversos, e não padronizados. E de uma funcionalidade real, construída dentro da realidade de cada um.
Envelhecer não é se superar o tempo todo e nem parar. É mudar.
Dor crônica: 11 formas de aliviar o sofrimento
Mariana Schamas-Esposel, BSc em Cinesiologia, pós-graduada em dor e coordenadora do curso Dor e Movimento – HCX-USP
Fonte.:Saúde Abril


