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22 de fevereiro de 2026

Osso de elefante de Aníbal é achado na Espanha – 22/02/2026 – Ciência

Osso de elefante de Aníbal é achado na Espanha – 22/02/2026 – Ciência

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Um osso de 2.200 anos desenterrado perto de Córdoba, na Espanha, pode fornecer a primeira evidência arqueológica direta dos formidáveis elefantes de guerra empregados pelo general cartaginês Aníbal.

Guardado em uma camada de entulho junto com moedas cartaginesas do século 3 a.C., o osso do tornozelo do tamanho de uma bola de beisebol serve como uma ponte entre narrativas históricas coloridas sobre a Segunda Guerra Púnica e fatos arqueológicos concretos. O fóssil não pertencia aos 37 elefantes que famosamente cruzaram os Alpes em 218 a.C., mas oferece o que Fernando Quesada Sanz, arqueólogo da Universidade Autônoma de Madri, chama de conexão “histórica” com as campanhas militares de Aníbal, bem como com seus erros táticos.

Vestígios de combate —especificamente, munição de catapulta encontrada com o espécime— sugerem que o elefante morreu em batalha, de acordo com Quesada, autor de um estudo publicado no mês passado no The Journal of Archaeological Science: Reports.

Durante as últimas décadas do século 3 a.C., o Mediterrâneo era dominado por duas superpotências: a emergente República Romana e Cartago, uma cidade-estado do norte da África no que hoje é a Tunísia. Ainda se recuperando de uma derrota humilhante na Primeira Guerra Púnica —que lhes custou as ilhas estratégicas da Sardenha e da Córsega—, os cartagineses endividados voltaram-se para a Espanha, construindo um novo e próspero império a partir de suas minas de prata.

Liderando essa expansão estava Aníbal, da família Barca, cujo irmão Magão é conhecido por ter trazido elefantes para a Península Ibérica por volta de 228 a.C. Aníbal então revolucionou a guerra ao empregar paquidermes blindados contra tribos locais. Essa aterrorizante força de choque rompia linhas de batalha e fornecia posições elevadas e dominantes para seus arqueiros.

“É bem possível que o osso descoberto perto de Córdoba tenha pertencido a um dos elefantes que Aníbal usou para esmagar a tribo dos carpetanos no centro da Espanha”, disse Quesada.

A Segunda Guerra Púnica foi deflagrada em 219 a.C. pelo brutal cerco de oito meses de Aníbal a Sagunto, uma fortaleza espanhola estratégica aliada de Roma. Acreditando que o cerco era um ato rebelde, Roma exigiu que Aníbal fosse entregue. Quando Cartago recusou, as duas potências declararam guerra, preparando o cenário para um colossal conflito de 17 anos.

Antes de sua invasão da Itália, Aníbal deixou 21 elefantes de guerra na Espanha sob a autoridade de seu irmão Asdrúbal. Esses chamados tanques da antiguidade foram distribuídos entre Magão e outros generais. Quesada disse que os ossos encontrados por sua equipe arqueológica podem estar ligados a esses elefantes.

O fragmento ósseo de 10 centímetros foi desenterrado há seis anos, antes de obras de construção no sítio da Idade do Ferro Colina de los Quemados. A escavação revelou um passado violento para a vila fortificada. Selado sob uma parede de adobe desmoronada, o vestígio foi encontrado com 12 grandes projéteis de catapulta de pedra, sugerindo que um confronto feroz havia ocorrido no terreno do assentamento.

O artefato foi encontrado isolado, sem notícia do paradeiro do restante do animal. Essa anomalia levou os pesquisadores a uma possibilidade curiosa: a relíquia pode ter sido intencionalmente poupada, resgatada por alguém que achou seu pequeno tamanho ideal para uma lembrança.

Pesquisadores identificaram o espécime como o terceiro osso carpal (“ossinhos” da mão) da pata dianteira direita de um elefante, comparando-o com exemplares depositados em coleções científicas da Universidade de Valladolid, na Espanha, e da Universidade de Leiden, na Holanda. A correspondência anatômica do osso foi confirmada por meio de medições comparadas com amostras de elefante asiático (Elephas maximus) e o já extinto mamute-da-estepe (Mammuthus trogontherii).

Eve MacDonald, historiadora da Universidade de Cardiff e autora de “Carthage: A New History”, que não participou do novo estudo, disse que, embora um único osso do tornozelo limite a interpretação, “a associação por si só contribui para a compreensão da importância do elefante na máquina de guerra cartaginesa”.

O destino do elefante de Córdoba foi sem dúvida sombrio, mas provavelmente foi uma misericórdia mais rápida do que a maratona de sofrimento suportada pelo rebanho de Aníbal. Ao longo de cinco meses extenuantes, os elefantes viajaram em caravana da Catalunha através dos Pirineus e do Ródano, finalmente escalando os Alpes cobertos de neve escorregadia. Sua jornada de 1.600 quilômetros foi menos uma façanha militar e mais uma catástrofe em câmera lenta.

Embora os relatos variem, muitos historiadores acreditam que um número significativo dos elefantes — talvez quase todos os 37— inicialmente sobreviveu à travessia. Mas na primavera de 217 a.C., o grande espetáculo de trombas de Aníbal havia sido reduzido a um único sobrevivente: um animal sem presas chamado Surus, que significa “o Sírio”. Os outros haviam morrido após a Batalha de Trébia devido à exaustão, ferimentos e uma severa tempestade de gelo no inverno.

Diz-se que Aníbal cavalgou Surus através dos traiçoeiros pântanos do Arno depois de perder um olho por causa de uma infecção. A arrepiante confissão do dramaturgo romano Plauto —de que Surus “gelou meu coração”— perdura como o testemunho definitivo de uma criatura que comandava respeito absoluto e gélido.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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