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13 de abril de 2026

PCC, CV e TCP se aliam a facções locais em 17 estados – 13/04/2026 – Cotidiano

PCC, CV e TCP se aliam a facções locais em 17 estados – 13/04/2026 – Cotidiano

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Ao menos 17 estados registram a atuação das facções PCC (Primeiro Comando da Capital), CV (Comando Vermelho) e TCP (Terceiro Comando Puro) em alianças entre si ou com grupos regionais.

Levantamento da Folha, com base em investigações da Polícia Federal e das polícias civis, além de dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que essa articulação tem caráter pragmático, voltada à expansão territorial e ao fortalecimento de mercados ilícitos, com foco na maximização de lucros.

Um dos movimentos que mais chamam a atenção é o avanço do TCP, que expandiu sua presença para além do Rio de Janeiro e firmou alianças em ao menos dez estados. Em alguns casos, a facção se aproxima do PCC para fazer frente ao Comando Vermelho, seu rival histórico.

O levantamento considera apenas alianças que envolvem essas três facções, deixando de fora articulações apenas regionais, como no Rio Grande do Sul em que há alianças entre grupos locais. Também não busca mapear todas as organizações em cada estado.

Como já mostrou a Folha, o PCC e CV estão presentes em todo o país, embora exerçam hegemonia em 13 unidades da federação. Por esse recorte, estados em que uma facção atua de forma isolada e de forma hegemônica, como São Paulo, não aparecem.

Segundo David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o crime organizado deixou de ser local e passou a atuar em escala nacional e transnacional.

Esse processo de expansão tem como marco o rompimento entre PCC e CV, em 2016 e 2017, após a facção paulista assassinar Jorge Rafaat, intermediador do tráfico na fronteira com o Paraguai das duas organizações.

A partir desse episódio, o PCC passou a controlar a Rota Caipira e o CV intensificou a expansão para o Norte e o Nordeste e se apoiou em alianças com grupos locais. No entanto, as duas organizações adotaram estratégias distintas.

O CV manteve o foco no controle territorial armado e na exploração de atividades locais. Já o PCC consolidou um modelo voltado ao atacado e à logística do tráfico, priorizando parcerias para garantir o fluxo de drogas e ampliando sua atuação em mercados formais para lavagem de dinheiro.

“As duas principais facções, PCC e Comando Vermelho, operam com foco no negócio da droga em uma perspectiva transnacional. O Brasil é utilizado como um hub logístico para fazer a mercadoria circular e acessar mercados altamente lucrativos na Europa, Ásia e África”, avalia.

Para Marques, o TCP é uma força em expansão em moldes parecidos com o do CV, seu concorrente direto, embora ainda esteja muito atrás das duas maiores facções do país.

Já Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, avalia que a configuração das alianças é influenciada pelas rivalidades históricas. O TCP tem crescido como um aliado natural para grupos que se opõem à expansão do CV nos estados.

Ele acrescenta que no país está ocorrendo atualmente uma redução no número total de facções, fenômeno que ele descreve como um processo de costura de alianças. Essa redução é motivada por uma estratégia de mercado. As facções estão se tornando cada vez mais racionais do ponto de vista da competição para lucrar.

“Os grupos perceberam que quanto menos guerra, menos custo. Essa mudança reflete uma busca por lucro e vantagens competitivas no mercado de drogas e do crime em geral, o que resultou em uma redução da violência e dos homicídios no Brasil”, disse.

No Espírito Santo, o crime organizado se estrutura por meio de alianças entre facções nacionais e grupos locais. A principal organização é o PCV (Primeiro Comando de Vitória), aliado ao Comando Vermelho.

Como PCC e CV controlam as rotas internacionais, facções regionais dependem dessas organizações para se abastecer. Nesse arranjo, o CV fornece droga e logística, enquanto o PCV mantém autonomia local.

No entanto, alguns traficantes tinham rixas históricas com lideranças do PCV e, por isso, não queriam se aliar ao CV. Nesse contexto, o PCC passou a atuar de forma mais estruturada no estado a partir de 2017, oferecendo rotas mais baratas e estáveis e tentando cooptar lideranças, inclusive dentro de presídios.

“Algumas pessoas não queriam se aliar ao PCC porque a adesão implica perda de autonomia, parte desses grupos se aproximou do TCP, que funciona como intermediário para acessar a droga do PCC sem se submeter integralmente à sua hierarquia”, disse delegado Guilherme Eugênio, que atua no Centro de Inteligência e Análise Telemática do Espírito Santo.

Ages Macedo, coordenador do Centro de Inteligência e Análise Telemática, para tentar combater esses grupos no estado as investigações têm como foco não apenas os executores, mas principalmente as lideranças do crime organizado, com ênfase em esquemas de lavagem de dinheiro e no ataque ao patrimônio e às estruturas familiares usadas para ocultar bens.

Além disso, mantém troca de informações com outros estados para fortalecer o combate desses grupos que não atuam mais somente de forma local.

Nesse contexto, Bruno Paes Manso acrescenta que a criação e a atuação das Ficcos (Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado), que reúnem, por exemplo, Polícia Federal, Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal, além da atuação dos Gaecos (Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público, representam um avanço no enfrentamento ao crime organizado.

Ele rompe com o modelo tradicional centrado em patrulhamento ostensivo e prisões em flagrante que era utilizado há 30 anos, que, segundo ele, contribuiu para o crescimento do sistema prisional e a expansão das facções pelo país.

Para o pesquisador, essas estruturas marcam uma mudança ao permitir maior coordenação nacional e integração entre forças de segurança, com a União assumindo um papel mais ativo.

Ele destaca que a troca de informações entre os órgãos é hoje a principal estratégia para enfrentar o crime organizado e que essa atuação conjunta tem elevado o debate sobre segurança pública para um nível mais estratégico e nacional.


Entenda as facções

PCC se torna holding multinacional, enquanto CV foca sua expansão na América do Sul para controlar as rotas da Amazônia

Comando Vermelho

  • Alcance: Quatro países na América do Sul (Colômbia, Peru, Bolívia e Suriname). Dados da PF também falam em Argentina, Paraguai e Venezuela
  • Modelo: Expansão regional amazônica
  • Atividade principal: Controle de rotas fluviais na Amazônia (Alto Solimões, Vale do Juruá) par escoamento de cocaína

Primeiro Comando da Capital

  • Alcance: 16 países (Paraguai, Bolívia, Colômbia, Uruguai, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Tailândia, Camboja e Vietnã)
  • Modelo: Holding multinacional
  • Atividade principal: Exportação de cocaína via portos (Santos) e lavagem de dinheiro global

Principais rotas que alimentam o tráfico brasileiro

Rota Caipira: MT/MS – GO – MG – SP (Porto de Santos)

Rota do Alto Solimões: Colômbia – Rio Solimões – Amazonas – distribuição nacional

Rota da Bolívia (MT): Bolívia – 21 municípios fronteiriços de MT – Rota Caipira

Rota do Vale do Juruá: Peru (Ucayali) – Acre – BR-364 – distribuição nacional

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública



Fonte.:Folha de S.Paulo

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