Corre à boca miúda que o vinho pode ser a solução para o problema das cafeterias, que a partir das 17h já veem seu movimento cair, afetadas pelo medo da ingestão de cafeína fora de hora. A ideia é que, se já é tarde demais para tomar um café, talvez seja o momento ideal de sacar a rolha.
O café especial e o vinho compartilham muitas características. Na comunicação das duas bebidas, há ênfase nas qualidades quando a matéria-prima vem de um pequeno produtor. Em artigo no site Perfect Daily Grind, a especialista Michaela Tomchek defende que o café aprendeu com o vinho nos últimos anos, adotando os conceitos de origem e terroir, que viraram máximas inescapáveis de qualquer um que tente vender seu grão.
Nos dois casos, as variedades também importam (e muito) e a apreciação sensorial torna-se quase um esporte para os mais aficionados. Assim como tem quem só beba certos vinhos, já vi gente levar o próprio grão para uma viagem e assim escapar de encarar um cafezinho meia boca.
Em São Paulo, café e vinho dividem espaços de muitas maneiras, sendo que a mais recente e talvez interessante delas está no campo. Graças ao sistema da poda invertida, que possibilitou a expansão da viticultura no Sudeste brasileiro, hoje, onde se faz café, também se faz vinho. (Antes, o que a gente ouvia era que, onde se faz azeite, se faz vinho.) Assim, vemos o mapa de vitivinícola do país se espalhar por São Paulo, Minas Gerais e sul da Bahia.
Na capital paulista, onde se bebe bom café pode se beber vinho também. Quando montei um roteiro de 30 casas para se tomar vinho em São Paulo, já havia pistas dessa boa convivência, com as padarias Fabrique e Joya, que têm rótulos interessantes servidos com os quitutes preparados ali, integrando a lista.
Meu colega nesta Folha David Lucena, especialista em cafés, aponta para os lugares que servem brunch e outras refeições como os grandes expoentes dessa tendência. É o caso do Takko, que desde 2016 flerta com o vinho, mas que só quando incluiu cardápio de almoço em 2023, passou a ver taças voarem pelo salão. Hoje, há sempre três rótulos de pequenos produtores em taças, além de opções em garrafa, para quem quer levar algo especial para a casa. Segundo o sócio Rodolfo Herrera, com a novidade, o tíquete médio do almoço subiu.
Seguem a tendência casas com o Botanikafé, que tem na carta desde espumantes como o brasileiro Lírica Brut (R$ 130) até o tinto Intacto Carmènere (R$ 140), passando pelo laranja argentino Krontiras Cosmic Amber (R$ 160); a St. Chico, que serve os vinhos da vinícola brasileira Vinhética, como o Terroir Rouge (R$ 125) e o Espumante Rosé (R$ 150); a Le Blé, que serve desde a jarra da casa de tinto português (R$ 96) até o espumante Raventos de Nit Rosé (R$ 520), além de taças a partir de R$ 22; e o Santo Grão, com uma carta mais longa que a de muitos restaurantes e mais de dez opções em taça.
Vai uma taça?
Não é raro que vinhos mostrem notas de café, especialmente aqueles que estagiam em barricas de carvalho com tosta mais intensa. Essas notas, frutos da vinificação, são chamadas de secundárias. O tinto sul-africano Barista Pinotage 2023 (R$ 231 na Mistral) e o australiano Peter Lehmann The Barossan Shiraz (R$ 271 na Via Vini) trazem notas bem marcadas e são um presente perfeito para quem ama café.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


