A Polícia Federal investiga se uma sacola que o piloto Mauro Caputti Mattosinho afirma ter transportado em um voo para Brasília, em agosto de 2024, continha R$ 350 mil em espécie que seriam destinados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).
A informação foi publicada inicialmente pelo portal ICL Notícias e obtida pela Folha por meio dos documentos da investigação e de entrevista com o piloto.
Mattosinho trabalhou na TAP (Táxi Aéreo Piracicaba) e afirma ter transportado regularmente o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, alvo de operação por fraudes no setor de combustíveis.
Na mesma data do voo, segundo documentos da investigação, mensagens encontradas pela PF no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro mencionam “Espécie Ciro 350k”. Para os investigadores, a coincidência entre os registros eletrônicos e o relato do piloto constitui forte indício de pagamento em dinheiro vivo ao senador.
Procurado por WhatsApp na manhã de sexta-feira (19), Ciro Nogueira ainda não se posicionou. A defesa de Daniel Vorcaro disse que não irá comentar.
A defesa de Roberto Leme afirmou à reportagem que nega qualquer transporte de recursos, bem como qualquer vínculo com Vorcaro, e diz que o empresário “nunca sequer deu um ‘bom dia’ ao ex-banqueiro ou pessoas ligadas a ele.
Já a empresa TAP afirma que desconhece os fatos noticiados e que sua operação está “de acordo com a legislação pertiente, seguindo rigorosas regras de compliance”.
Em declaração encaminhada à PF, Mattosinho relata que, em 6 de agosto de 2024, fazia o trajeto São Paulo-Brasília na aeronave PR-SMG quando recebeu do gestor uma sacola de papel que deveria receber “cuidado especial” porque continha “grana”.
Segundo o piloto, o peso e o formato da embalagem o fizeram concluir que havia dinheiro em espécie no interior. “Eu fiz aquele vídeo no intuito de demarcar que eu não estava maluco”, disse posteriormente à PF.
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Ao pousar em Brasília, Mattosinho afirma que permaneceu na cabine enquanto os passageiros desembarcavam. Foi nesse momento, segundo ele, que ouviu Beto Louco perguntar a um funcionário se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o senador Ciro já estava aguardando a gente”.
O piloto afirma ter entendido que a referência era a Ciro Nogueira. Beto Louco levou a sacola para fora da aeronave, segundo o piloto, e não voltou com ela para São Paulo.
A investigação da PF aponta que, no mesmo dia do voo, Vorcaro enviou ao operador financeiro Fabiano Zettel a mensagem: “Resolve Ciro e galerias hoje / Manda agora la”. Em resposta, Zettel encaminhou uma lista de pagamentos pendentes, na qual aparece a anotação “Espécie Ciro 350k”, apontam as mensagens.
“Eu não tenho grande experiência com papelote de dinheiro, mas imagino que, em notas de R$ 200, aquilo ali tranquilamente teria R$ 350 mil”, afirmou o piloto em entrevista à Folha.
Para a PF, a combinação entre o vídeo gravado pelo piloto, os planos de voo, as conversas relatadas por ele e as mensagens apreendidas “indica fortemente” a prática de corrupção ativa e passiva. Os investigadores afirmam que a estrutura empresarial ligada ao senador teria sido utilizada para inserir o dinheiro em espécie no sistema financeiro formal.
SOB AMEAÇA, PILOTO VIVE SEM RESIDÊNCIA FIXA DESDE DEPOIMENTO
Mattosinho afirma que passou a receber ameaças após começar a reunir documentos e procurar a Polícia Federal. Segundo ele, uma pessoa telefonou descrevendo o endereço de uma familiar e ameaçando cometer violência sexual contra ela.
Em outro episódio, relata que uma mulher de sua família percebeu, por três sábados seguidos, um homem fotografando a frente de sua casa. Ele também diz que pessoas que se apresentaram como policiais o procuraram em um endereço antigo, sem deixar qualquer documento ou intimação.
O piloto afirma ter contratado um especialista particular em proteção de testemunhas e adotado protocolos de segurança.
Segundo ele, o advogado chegou a apresentar a possibilidade de solicitar sua inclusão no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, previsto em lei para pessoas que correm risco em razão da colaboração com investigações e processos judiciais. Mas Mattosinho considerou que os impactos em sua vida pessoal e profissional seriam excessivos.
A proteção oficial pode envolver mudança de endereço, restrições de rotina e outras medidas definidas a partir de uma avaliação de risco.
O advogado criminalista Lucas Monteiro, sócio da Monteiro Porto & Perassoli Sociedade de Advogados, explica que testemunhas podem optar por contratar serviços privados de segurança. “Essa opção oferece maior flexibilidade na gestão da rotina pessoal e profissional, permitindo que a pessoa mantenha maior controle sobre suas decisões de deslocamento e contatos.”
Há dez meses, o piloto vive mudando de endereço a cada duas semanas e não consegue exercer a carreira na aviação executiva, setor em que trabalhou por 17 anos.
“Meu trabalho dos sonhos. Meu pai era piloto, sempre quis ser piloto. Não está dando mais, infelizmente”, afirmou durante a entrevista. “Eu denunciei um crime e minha vida está absolutamente em frangalhos, profissionalmente.”
Ele diz acreditar que será difícil conseguir voltar a trabalhar no setor. “Todo mundo que é usuário desse sistema de aviação executiva se conhece. Então eu me tornei meio que uma ‘persona non grata‘, pelo menos por um tempo”, disse.
Fonte.:Folha de S.Paulo


