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30 de março de 2026

Pistachemania: como o pistache virou febre no Brasil — e quais seus benefícios à saúde

Pistachemania: como o pistache virou febre no Brasil — e quais seus benefícios à saúde

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Não é só impressão sua: nos últimos três anos, o pistache começou a aparecer por todos os lados. Muito além do tradicional sabor de sorvete ou dos pacotinhos com a versão torrada e salgada do petisco, ele se tornou presença constante na confeitaria nacional: virou cobertura de bolo e até passou a disputar espaço como recheio de panetone.

Vale mencionar que ele também se tornou estrela em releitura de brigadeiro, esse doce tão brasileiro. Com um detalhe: tudo isso sem que nosso país jamais tenha produzido comercialmente nenhuma unidade da oleaginosa.

As raízes da popularização dessa delícia, que hoje dá as caras até como sabor de whey protein, vêm de longe. Tudo começa com as safras recordes nos Estados Unidos, o principal centro de cultivo de uma planta que se originou no que atualmente é o Irã.

Buscando escoar tamanha produção, entidades do setor americano começaram a trabalhar para abrir novos mercados. E o Brasil, que importava pouco mais de 350 toneladas da semente por ano em 2022, viu esse número triplicar em 2024, quando a febre se consolidou por aqui.

No ano passado, em dados atualizados até outubro, as importações já tinham crescido outros 34%.

Ainda que o pistache não fosse exatamente novidade, sua inesperada abundância e os preços mais acessíveis caíram no gosto do povo.

O Brasil abraçou tanto o produto que a American Pistachio Growers (APG), associação que representa quase 900 produtores de pistache nos EUA, intensificou sua presença e inaugurou uma representação no país.

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“O que acelerou esse processo foi uma combinação de fatores: maior exposição internacional da gastronomia, expansão do varejo premium e, mais recentemente, a força das redes sociais impulsionando receitas e tendências”, afirma Giovanna Oliveira, analista de Trade & Marketing da APG no Brasil.

Embora tenha se consolidado pela “onda verde” que tomou conta dos doces, o pistache também encontrou um filão promissor no público fit. Sem se limitar à sobremesa, essa oleaginosa cheia de nutrientes cobiçados por quem busca saúde se provou uma aliada na rotina.

“O pistache deixou de ser apenas um ingrediente de receitas e passou a ocupar espaços em mercados diferenciados, como o de snacks e culinária funcional”, observa Oliveira.

E, mesmo com uma demanda expressiva, especialistas acreditam que o potencial de consumo entre os brasileiros está só no começo. A ponto de outras iniciativas tentarem, pela primeira vez, cultivar nacionalmente o alimento hoje 100% importado.

Se o clima não tão propício para a planta Pistacia vera prosperar é um desafio no horizonte dos agricultores, a dúvida sobre o apetite do mercado é ponto superado. O Brasil se apaixonou pelo pistache.

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Mas quem é esse novo (ou velho, a depender do freguês) integrante da família oleaginosa das Anacardiaceae, a mesma que inclui espécies bem brasileiras como o cajueiro?

Um velho novo conhecido

O pistache começou a ser domesticado pelo homem há cerca de 9 mil anos no Oriente Médio. Pouco a pouco, se expandiu para outros domínios com clima ideal — entre o temperado e o mediterrâneo.

Países como o Irã e a região de fronteira entre a Turquia e a Síria continuam sendo potências de cultivo, mas locais áridos dos Estados Unidos, com destaque para a Califórnia, tomaram de assalto esse mercado. Hoje, cerca de 70% do que consumimos no Brasil vem da América do Norte.

Um pistacheiro pode levar até uma década para atingir sua maturidade produtiva, mas, quando chega lá, é um tesouro para muitas gerações: a vida economicamente útil da planta pode superar os 100 anos, e, em alguns casos, bate os 150.

Ocorre que, para esse desenvolvimento pleno ter lugar, ele precisa de condições bem específicas: uma mescla de invernos frios o suficiente para a dormência adequada da planta, sucedidos por verões quentes e secos.

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No Brasil, isso é um desafio e tanto, pois quem tem a falta de umidade no período quente não costuma contar com o cenário ideal da fase fria: entre 60 e 90 dias corridos com temperaturas abaixo de 100 ºC.

Por aqui, um grupo tenta levar adiante a ideia de plantar e colher. É a Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), que, desde 2022, vem divulgando a intenção de tornar o estado o primeiro produtor no país.

A Faec chegou a procurar a Embrapa com interesse em testar o cultivo na Serra da Ibiapaba, o local do estado mais próximo de atender às exigentes demandas da Pistacia vera, mas a iniciativa ainda não avançou.

“Nessa serra, à noite faz 150 ºC, mas o que o pistacheiro precisa é abaixo dos 100 ºC, semelhante à macieira”, diz Gustavo Saavedra, chefe-geral da unidade Embrapa Agroindústria Tropical. Para ele, mesmo essa região não possui as condições climáticas necessárias.

“Existem outras culturas de alto valor agregado que vão demandar muito menos recursos e que também podem gerar um retorno mais rápido para o Ceará”, acredita.

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Regiões serranas nos estados do Sul até poderiam ser candidatas, pois têm características mais próximas daquelas registradas em San Juan, província argentina que produz quase todo o pistache plantado em solo hermano — nossos vizinhos, embora estejam longe dos campeões mundiais no plantio, respondem por uma pequena parte do que vem para cá.

Mas, seja no Ceará, seja em Santa Catarina, a viabilidade econômica ainda precisa ser estudada, e um projeto-piloto teria que esperar pelo menos os sete a dez anos de maturidade do pistacheiro.

Até lá, o jeito será recorrer ao produto importado mesmo. E vale a pena!

“O pistache tem uma boa densidade nutricional com um baixo valor calórico. Comparativamente, chega a ter mais qualidades que o amendoim”, avalia a nutricionista Elizabeth Torres, professora da Universidade de São Paulo (USP).

gráfico mostra locais onde há produção do pistache no mundo.
Pordução de pistache tem se espalhado pelo mundo. (Imagem:Getty Images e Fábio Castelo /Design:Letícia Raposo/Estúdio Coral/Veja Saúde)
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Os nutrientes do pistache

Proteínas, fibras, gorduras bem-vindas ao coração e vitaminas do complexo B: tudo está lá na semente. Um de seus diferenciais, aliás, é a oferta da vitamina B6, a piridoxina, mais facilmente encontrada em alimentos de origem animal.

Em dietas vegetarianas e veganas, oleaginosas costumam ser a melhor pedida para supri-la, e, dentre elas, o pistache é uma das melhores opções. “A B6 regula o metabolismo energético e tem uma função neurológica importante, contribuindo inclusive para a saúde mental”, conta Torres.

Entre outros atributos, a oleaginosa de berço oriental abraçada pelos americanos entrega todos os nove aminoácidos conhecidos como “essenciais”, aqueles que o corpo não produz e precisa obter por meio da alimentação.

A lista de qualidades também engloba a presença de minerais como potássio, magnésio, selênio, ferro e fósforo, além de compostos antioxidantes que incluem polifenóis e carotenoides como a luteína e a zeaxantina.

Pois é, mesmo quem já não aguenta ver o pistache aparecendo em tanta receita precisa dar o braço a torcer para os benefícios. Mas, se você não faz parte dessa turma e já se delicia com o verdinho, é bom ficar atento à armadilha: os doces podem ter feito muito pela popularização da semente, mas não é com eles que você lucrará mais.

Quando falam de um alimento nutricionalmente denso, os profissionais descrevem algo com uma contagem relativamente alta de nutrientes mesmo se consumido em pequenas quantidades.

O pistache é um belo exemplo: um punhado de 30 gramas tem mais de 6 g de proteínas e cerca de 2 g de fibras, mas também acumula 180 calorias devido ao percentual de gorduras, que representam quase metade de seu peso — nessa mesma porção, uma média de 13,5 g virá dos lipídios.

O termo “gordura” pode assustar em um primeiro momento, mas está longe de ser um problema nesse caso. Isso porque a oleaginosa concentra sobretudo aquelas estimadas à saúde, como a poli e a monoinsaturada, também presentes em alimentos estrelados como azeite de oliva e abacate.

Nesse arranjo de ingredientes, o pistache contribui também com sua dose de fitoesteróis, outro amigo das artérias e do coração. “Eles inibem a absorção do LDL, o ‘colesterol ruim’, no intestino.

“A consequência é um impacto positivo na redução do LDL na corrente sanguínea”, explica a nutricionista Silvana Oliveira da Silva, doutoranda no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O alto teor de potássio e a baixa contagem de sódio presentes no pistache (desde que você não coma a versão salgada) também auxiliam a regular a pressão arterial, dando força extra para a saúde cardiovascular.

A ciência também tem avançado na compreensão dos benefícios do pistache para o metabolismo humano. Aqui no Brasil, uma pesquisa conduzida na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, reforçou que o consumo regular pode trazer melhoras em marcadores como a glicemia em jejum e a resistência à insulina — ponto para a prevenção ou controle do diabetes.

“A combinação de fibras, proteínas e gorduras acaba retardando o esvaziamento gástrico e dá mais saciedade”, afirma a nutricionista Priscila Vaz de Melo Ribeiro, que participou do trabalho e hoje atua no Hospital São João Batista de Viçosa. Trata-se de um efeito extremamente positivo para quem precisa perder peso ou mesmo domar o diabetes.

Agora, para obter ao máximo essas vantagens todas, a recomendação número 1 é priorizar o pistache in natura ou o mais próximo disso. “Também não adianta comer um punhado todo dia e manter uma alimentação rica em ultraprocessados, que são nutricionalmente pobres”, enfatiza Silva.

As fibras ostentadas pela semente ajudam a entender por que o preparo faz diferença. Para aproveitá-las, é preciso comer o pistache com a casquinha — não estamos falando daquela carapaça dura, intragável, mas da película mais escura que envolve a oleaginosa.

Só que muitos produtos focados no sabor do alimento — de sorvete a bolacha — acabam descartando a preciosidade.

Como convém a qualquer orientação nutricional, não é necessário excluir as guloseimas à base de pistache, mas apreciá-las com moderação e sem a ilusão de se fartar das benesses da espécie vegetal.

Aliás, no mundo de produtos industrializados que surfam na “pistachemania”, é comum encontrar opções que utilizam apenas aromatizantes com o gostinho do alimento ou mínimas quantidades da oleaginosa em si.

O sabor está lá, mas a riqueza nutricional, não. Para escapar das pegadinhas, a dica é ler as letras miúdas da tabela nutricional, obrigatória e padronizada para qualquer alimento encontrado nas gôndolas do supermercado.

A lista de ingredientes sempre começa do que está mais presente no alimento, seguindo até aquele que está em menor proporção. Então, se o primeiro ingrediente é açúcar e o pistache está lá na última posição, é porque tem uma quantidade mínima”, ensina Ribeiro.

E saiba que, pela sua versatilidade, existem mil maneiras de preparar e degustar o pistache — vai muito além da mistura pronta ou das versões torradas. Na íntegra ou como farinha, ele pode aparecer na granola que abre o café da manhã ou enriquecer o risoto do jantar.

“E nem precisa adicionar sal ou açúcar a essas receitas. O próprio pistache dá o sabor”, assegura a professora Elizabeth Torres. Sabor que caiu nas graças dos brasileiros após uma viagem que começou no Irã, passou pelos EUA e hoje ganhou o mundo.

O que ele tem de especial

O pistache é louvado pela alta densidade nutricional: benefícios em pequenas porções

Proteína

Em uma porção de 100 g, o pistache entrega quase 21 g de proteínas. É uma das oleaginosas mais ricas no nutriente — só perde para o amendoim, uma fonte proteica famosa.

Gordura

Quase metade da semente são lipídios: 45 g a cada 100 g. Mas a maioria desse conteúdo é de gorduras boas: quase 85% são insaturadas, que ajudam a baixar o colesterol.

Vitamina B6

É um dos maiores redutos no reino vegetal: 100 g de pistache entregam quase toda a necessidade diária da vitamina conhecida por dar suporte ao sistema nervoso.

Fibra

Também é boa fonte das substâncias que contribuem para o funcionamento do intestino e o equilíbrio dos níveis de glicose e colesterol. São cerca de 7 g em um punhado de 100 g.

Carboidrato

São cerca de 28 g a cada 100 g de pistache. Junto com as gorduras, isso eleva as calorias: quase 600 na porção. Por isso, o indicado é consumir com moderaçãO.

Minerais

Cálcio, magnésio, fósforo, potássio, zinco e cobre são alguns dos fornecidos pelo alimento. Ele também oferece ferro: por porção, tem cerca de 2/3 da quantia do feijão-preto.

pistacha no macarrão
Pistache pode ter diferentes aplicações culinárias. (Foto: Getty Images/Fábio Castelo/Ilustração: Letícia Raposo/Estúdio Coral/Veja Saúde)

Muito além do petisco

Formas criativas de preparar e inserir o pistache nas refeições do dia

Café da manhã

Ele pode fazer o papel da granola (e ser adicionado a ela) ou misturado a leite, iogurte natural e frutas. Picado, também se transforma em recheio para a tapioca, acompanhado de cremes ou pastas proteicos para uma opção mais fit.

Almoço e jantar

Inteiro, picado ou triturado, dá para incluí-lo em pratos reforçados. É possível decorar saladas, preparar risotos ou adicionar a um molho pesto ou ao macarrão alho e óleo, além de misturá-lo à farinha panko para empanar peixes e carnes em geral.

Lanche

Antes mesmo da sua redescoberta pelos brasileiros, o pistache já era conhecido como um snack saboroso, geralmente na versão torrada e salgada. Em nome da saúde, prefira a versão sem sal. Um a dois punhados por dia já entregam benefícios — não convém exagerar.

Sobremesa

A essa altura, já é notório que ele funciona com praticamente qualquer doce: pode ser base para sorvetes, bolos e brigadeiros. A chave é a moderação: para a sobremesa, consuma em pequenas quantidades e prefira versões sem adição de açúcar.



Fonte.:Saúde Abril

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