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29 de janeiro de 2026

Plano para os próximos 30 verões – 29/01/2026 – Zeca Camargo

Plano para os próximos 30 verões – 29/01/2026 – Zeca Camargo

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Como todas grandes inspirações, esta chegou por acaso. No Instargam, naquele scrolling infinito que te suga quando você não tem nada para fazer. Ou tem mas quer fingir que não tem.

Curiosamente, esse estímulo não veio de um influenciador de turismo, fauna na qual eventualmente me incluo e que sigo sempre na esperança de um achado excepcional de um destino inusitado – se é que eles ainda existem. Veio de um programa de TV.

Estou diante de um ano que começou em Paris, passou por Belém (de onde escrevo este texto), ruma a Belo Horizonte para o Carnaval, e quer seguir por Bancoc, pela Croácia, pelo Atacama (sim, de novo) e quem sabe Wuppertal, na Alemanha (mais sobre isso daqui a pouco). Mas quero ir mais além.


E tudo por causa de uma entrevista que Michelle Obama deu a Stephen Colbert no seu Late Show falando sobre o tempo que ela ainda quer viver. A conversa, já brilhante, ficou mais interessante quando eles começaram a falar de futuro.

Mais precisamente quando ela mencionou sua idade (61, um ano a menos que eu) e disse algo como: “Steve, se tudo corre bem, eu ainda tenho, digamos, 30 verões na minha vida. E eu quero que cada um deles seja memorável”.

Não falou num tom pretencioso, muito menos deseperado. Talvez poético. Mas o que bateu em mim foi o fato de ela ter colocado essa ideia como um compromisso pessoal, um pacto que ela fazia consigo mesma.

Apertei o pause. E como num clichê de um filme ruim, ouvi uma “voz da consciência” me perguntando se eu estava fazendo algo nesse sentido com o resto da minha vida. Eu tinha um plano? Eu sabia para onde ainda queria ir? O que eu ainda queria viver por esse mundo?

Você que me acompanha aqui há quase 13 anos sabe que não posso nem pensar em reclamar de ter viajado pouco. Da Colômbia à Papua Nova Guiné, de Salinópolis a Gramado, compartilhei contigo experiências incríveis. Mas talvez meus próximos destinos estejam necessitando de um foco.

Não apenas um foco geográfico. Eu preciso, inspirado por Michelle, saber o que eu quero fazer onde escolher visitar. Por exemplo, nos lugares que citei acima, cada um deles tem objetivo que vai além do bilhete aéreo.

Quero fazer um roteiro gastronômico definitivo de Bangcoc. Na Croácia, quero riscar mais um país europeu da lista dos que ainda não fui (Polônia, será o seguinte). Quero retornar à Patagônia para terminar de escrever um livro. E em Wuppertal eu vou dançar.

Este último desejo surgiu para mim também por acaso no Instagram. Resumindo: como sigo a companhia de dança de Pina Bausch, o Tanztheater Wuppertal, paixão da juventude, vi que eles abriram vagas para um curso de verão. Foi como uma epifania.

Nos meus 20 anos fui dançarino, não é segredo para ninguém. Naqueles anos 80, conheci o trabalho de Bausch. E, quem diria, 40 anos depois, eu achei que essa postagem não chegou para mim por acaso: um workshop de dança na escola da mulher que foi inspiração na minha vida… Claro que sim!

Fechar a lista de todos os países da Europa? Claro que sim! Locações para escrever? Sim! Gorilas no Congo? Sim! Cruzeiros no Ártico, museus obscuros, hotéis distantes? Claro que sim!

Eu agora tenho 30 verões para fazer as coisas que eu realmente quero. E só de pensar nisso eu tremo dos pés à cabeça de alegria.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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