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Introdução
A polilaminina, molécula da UFRJ, anima cientistas ao regenerar conexões nervosas em lesões medulares. Embora promissora para tratar paralisia, sociedades médicas pedem cautela: ainda está em testes. Entenda seu potencial e os desafios até chegar aos pacientes.
- Polilaminina: A molécula brasileira da UFRJ que pode regenerar lesões medulares, prometendo tratamento para paraplegia e tetraplegia.
- Como age: Funciona como um “andaime” biológico que estimula o crescimento de novas conexões nervosas e possui efeito anti-inflamatório.
- Resultados iniciais: Em testes com ratos, a aplicação da polilaminina demonstrou melhora significativa na função motora.
- Alerta científico: Sociedades médicas pedem cautela, ressaltando que a substância ainda está em fase de testes e não foi aplicada em humanos.
- Foco do tratamento: Destinada principalmente a lesões medulares agudas, antes da formação completa da cicatriz fibrosa.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a polilaminina passou a ser apontada como uma possível revolução científica brasileira. Em estudos iniciais, a molécula se mostrou capaz de estimular a regeneração de conexões nervosas danificadas, indicando um potencial para tratar lesões medulares (causa de paraplegia e tetraplegia).
A animação com a pesquisa tem sido assunto constante nas redes sociais, mas as academias brasileiras de Neurologia (ABN) e Ciências (ABC), além da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), têm pedido cautela em meio à repercussão do candidato a remédio.
Em cartas e notas oficiais, as entidades reforçam que ele ainda está em fase de testes e que é importante evitar “expectativas desproporcionais”.
Mas, afinal, o que é essa substância no centro de intensos debates e o que, de fato, ela pode fazer? A seguir, conheça mais sobre ela:
O que é a polilaminina?
De forma resumida, a polilaminina é uma versão “melhorada” da laminina, uma proteína encontrada naturalmente no nosso corpo.
Entre outras coisas, ela facilita a ligação entre as células e é associada ao crescimento e regeneração de neurônios — característica que justifica seu uso em estudos sobre lesão na medula espinhal.
Para entender melhor, vale voltar algumas casas nesta história.
Primeiro: o que é uma lesão medular?
Imagine um fio elétrico que liga o cérebro ao resto do corpo. Agora imagine esse fio sendo esmagado ou cortado em algum trecho. É mais ou menos isso que acontece numa lesão medular.
A medula espinhal é um cordão de tecido nervoso que sai da base do cérebro e percorre o interior da coluna vertebral. Ela funciona como uma grande central de transmissão: leva ordens do cérebro para os músculos (como “ande!”, “levante os braços!” e “respire”) e traz de volta informações do corpo (como dor, temperatura e toque).
Quando essa estrutura sofre um trauma, a comunicação é interrompida, sendo perdida na extensão do corpo abaixo do local onde o dano aconteceu.
Por exemplo, se a lesão ocorre na região cervical (no pescoço), onde passam fibras que controlam braços, pernas e parte da respiração, pode haver tetraplegia, isto é, perda de movimentos dos quatro membros. Se o dano acontece na região torácica, mais abaixo, é comum ocorrer paraplegia, com comprometimento dos membros inferiores.
As lesões também são classificadas de acordo com a Escala Abreviada de Lesões (AIS, na sigla em inglês), um sistema que avalia a gravidade dos traumas. A lista vai da letra A até a E. No nível A, o mais grave, a lesão é chamada de completa, quando não há nenhuma função sensorial ou motora. Já a classificação E diz respeito ao estado normal, quando há sensibilidade e função motora.
A condição é considerada de difícil tratamento, porque o sistema nervoso central possui baixa capacidade de regeneração, especialmente a medula espinhal.
Diferentemente da pele, que cicatriza, ou do fígado, que consegue se recompor, a medula responde ao trauma com uma cascata de eventos que complicam a recuperação: morte de neurônios, inflamação e, com o passar do tempo, a formação de uma cicatriz fibrosa.
Essa marca, por sua vez, funciona como muro e impede o crescimento dos neurônios. Aliás, empata também a ação da própria polilaminina em casos crônicos.
“Na lesão medular, temos um ambiente inóspito ao crescimento dos neurônios para tentar reconectar a parte de antes da lesão com a parte depois da lesão”, explica o ortopedista Alexandre Fogaça Cristante, que vai liderar o braço da pesquisa a ser realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
+Leia também: Polilaminina: por que notícias sobre a celebrada molécula devem ser lidas com cautela
A laminina
Como visto, a polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida pelo nosso corpo, principalmente na placenta.
Ela pertence à nossa matriz extracelular, uma rede complexa de proteínas e polissacarídeos (carboidratos) que compõem os tecidos. Essa rede forma uma espécie de malha que mantém as células unidas.
Como componente dessa matriz, não faltam funções para a laminina. Ela ajuda as células a se fixarem no lugar certo, influencia sua sobrevivência, orienta sua migração, possibilita a comunicação célula-a-célula e até modula o comportamento de células-tronco.
No sistema nervoso, também tem um papel importante. Durante o desenvolvimento do embrião, os axônios— a parte dos neurônios que serve como ponte para a troca de informações e é rompida em caso de lesão medular — literalmente “caminham” sobre a laminina para encontrar seus destinos.
Ela funciona, portanto, como um trilho. Por isso, já faz algum tempo que, em experimentos de laboratório, cientistas concluíram que a laminina poderia estimular o crescimento desses axônios, guiando conexões entre neurônios.
A descoberta da polilaminina
Faz tanto tempo que a laminina é estudada que ela chegou por acaso à professora Tatiana Coelho Sampaio, bióloga especializada em proteínas que descobriu a polilaminina. Segundo os seus relatos, anos atrás um cientista da UFRJ adquiriu substância para um experimento, mas acabou não utilizando-a.
Ao analisar o material posteriormente, Sampaio percebeu que as moléculas estavam se associando entre si, formando estruturas maiores. O seu grupo de pesquisa concluiu, então, que isso acontecia ao alterar o pH desse tipo de solução. E esse polímero (uma união de várias moléculas) recebeu o nome de polilaminina.
Daí, a ideia: se a laminina naturalmente orienta o crescimento dos neurônios, e se organizada em rede ela forma uma espécie de arcabouço, por que não testá-la em uma medula lesionada para tentar “reconectar” os fios interrompidos?
O grupo de pesquisa da professora testou essa hipótese. Em análises com ratos, eles fizeram três aplicações distintas: doses da laminina isolada diretamente na área lesionada em um grupo, doses de polilaminina em outro e doses de placebo em um terceiro.
No primeiro caso, a proteína não produziu os resultados esperados. Já com a aplicação dessa estrutura organizada, que é mais parecida com a arquitetura natural da laminina dentro do corpo, os ratos apresentaram melhora da função motora, diz o estudo, publicado em 2010.
Como a polilaminina agiria na lesão medular?
Primeiro, oferecendo um novo “chão” para os axônios crescerem. Se antes havia apenas uma área marcada por inflamação e cicatriz, a polilaminina funciona como um novo andaime. Em modelos animais, fibras nervosas conseguiram atravessar áreas completamente seccionadas da medula após a aplicação do material.
Além disso, estudos apontaram um efeito anti-inflamatório, apontado como positivo, já que parte do dano neurológico não ocorre apenas no momento do trauma, mas nas horas e dias seguintes, quando a inflamação amplia a destruição do tecido nervoso.
Apesar dos resultados, ainda há uma falta de compreensão do papel exato da laminina na formação, desenvolvimento e função das redes neuronais. Além disso, os pesquisadores ainda não sabem exatamente qual o mecanismo de ação pelo qual a polilaminina age para promover as melhorias de movimento. Por exemplo, seguem desconhecidos os receptores do corpo aos quais ela se liga para causar esse efeito.
Também não se sabe se os mesmos efeitos vistos nos ratos serão observados em humanos.
Em que fase estão as pesquisas com humanos?
Em 2018, a substância chegou a ser aplicada em um grupo de oito pessoas, em caráter experimental, como um estudo piloto, ainda não publicado oficialmente. Segundo os pesquisadores, os voluntários, que haviam perdido completamente os movimentos, recuperaram algum controle motor.
Dois faleceram nos primeiros dias por causas relacionadas à gravidade da condição, de acordo com o documento, e os outros seis mostraram melhora. O grupo foi acompanhado por um mês.
Agora, em janeiro de 2026, foi aprovado o início oficial dos estudos clínicos em humanos, visando a fabricação do medicamento, em acordo com os critérios e exigências da Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa).
A aprovação, concedida pela agência, é para a realização de uma pesquisa de fase 1, a primeira de três etapas necessárias para avaliar um medicamento. Nesta fase, será avaliado se a substância é segura para pessoas. Caso aprovado, poderá seguir para as etapas seguintes, onde a eficácia será, de fato, testada.
Como a polilaminina é aplicada?
Após um trauma raquimedular, o paciente é encaminhado para a realização de cirurgia que visa estabilizar a coluna e descomprimir a medula. É neste momento que a polilaminina tem sido aplicada. Então, a aplicação é feita por meio de uma injeção diretamente na medula.
“O ideal é que ela seja feita durante a cirurgia, porque é uma aplicação intramedular”, diz Fogaça.
Quem pode tomar?
Os testes são direcionados a casos de lesão aguda, quando o trauma é recente e ainda não houve formação completa da cicatriz fibrosa. Os pacientes devem receber a injeção de polilaminina em até 72 horas da lesão.
“Como essa fibrose ainda não se instalou, o neurônio tem a capacidade de fazer o crescimento axonal e refazer a conexão. Na crônica, o axônio já cicatrizou. Então, a polilaminina por si só não teria condições de fazer com que os dois pedaços que se separaram se reconectem”, explica Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento do Laboratório Cristália.
Nas lesões crônicas, que já têm fibrose consolidada, a cicatriz atua como uma barreira. Nesses casos, a hipótese em investigação é que seria necessário, primeiro, remover ou reduzir essa fibrose para depois aplicar a polilaminina e tentar recriar um cenário semelhante ao da fase aguda.
“Até o momento, isso foi testado em cães. A gente precisa adquirir mais dados em animais para, aí sim, solicitar à Anvisa autorização para fazer o mesmo em humanos”, estima o farmacêutico.
Como será feita a fase 1 de estudos?
Com a autorização concedida pela Anvisa, o atual estudo clínico da polilaminina será realizado em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, portadores de lesões agudas completas, em especial na região torácica, entre as vértebras T2 e T10.
É importante que as lesões sejam completas, por questões de segurança do paciente e teste de eficácia. Isso porque a droga, por enquanto, é de injeção intramedular e, em casos de lesão incompleta, há riscos de perda de funções ainda existentes durante a sua aplicação.
Além disso, no que diz respeito aos métodos de pesquisa, a lesão de nível A também facilita a diferenciação entre o que são resultados que surgiriam naturalmente e o que pode ser fruto, de fato, do medicamento.
“Quando tem uma lesão completa, a tendência é que tenha pouca ou nenhuma melhora. Ao contrário, quando você tem uma lesão incompleta, pode ter melhoras, porque você tem alguns circuitos que continuam funcionantes”, diz Fogaça.
Ainda assim, estima-se que, mesmo em lesões completas, cerca de 15% dos pacientes podem apresentar melhora. Outro desafio, segundo o ortopedista, é diferenciar, especialmente nos casos agudos (recém ocorridos) cada tipo de lesão antes da aplicação da polilaminina.
“Por isso que a metodologia dos estudos é tão importante. A gente tem que ter muito critério e paciência para esperar que a droga comprove que ela tem um benefício e que esse benefício suplanta um eventual malefício ou efeito colateral que qualquer remédio pode ter”, alerta o médico.
Como ter acesso à polilaminina?
Enquanto os estudos ainda estão em sua fase inicial, dezenas de pacientes já receberam o medicamento após solicitarem em processos de judicialização.
O acesso é feito por meio do Programa de Uso Compassivo, uma autorização concedida pela Anvisa que permite a disponibilização de produtos de terapia avançada ainda não registrados e em fase de desenvolvimento, para uso em programas assistenciais no Brasil.
O processo, porém, pode trazer riscos. “Ainda não é um remédio e não é um tratamento. É algo que está no início das pesquisas. Então, está longe de ser uma coisa comprovada”, pondera o professor Alexandre Fogaça.
Ainda é cedo para prever em quanto tempo a polilaminina poderá estar disponível. Em geral, um medicamento demora de cinco a dez anos para ser desenvolvido.
Mesmo assim, entre o desespero e a esperança, familiares de pessoas recém-lesionadas têm entrado na Justiça para conseguir acesso à inovação. “Mas é preciso ter cautela, porque não há estudos publicados sobre o uso em humanos e essas pessoas não serão incluídas nas pesquisas controladas, ou seja, não terão um acompanhamento posterior”, ressalta o médico Jorge Rafael Durigan, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot), da regional de São Paulo.
Outras esperanças contra al esão medular
Enquanto aguardamos os resultados do estudo brasileiro, outras fórmulas estão em teste ao redor do mundo. Uma revisão da literatura médica realizada por pesquisadores coreanos listou medicações já avaliadas ou usadas para reverter lesões medulares em diversas fases.
Para o quadro agudo, de até 48 horas após o trauma, foram testados desde corticoides (que tiveram pouca eficácia e muitos efeitos adversos) até medicamentos para doenças raras e neurodegenerativas.
“Embora existam evidências pré-clínicas convincentes, a maioria dos ensaios clínicos tem sido limitada pela heterogeneidade dos pacientes, janelas terapêuticas estreitas e desafios na avaliação de desfechos, impedindo que qualquer medicamento obtenha aprovação em nível de diretrizes”, avaliam os autores.
Para eles, e outros especialistas, o futuro do tratamento passa por uma abordagem multimodal, na qual medicamentos poderão melhorar o resultado de cirurgias e a reabilitação.
“É muito importante destacar a importância da fisioterapia. É ela que vai preparar a pessoa para recomeçar a rotina em casa, no trabalho, na sociedade, além de ajudar a prevenir complicações e também manter a massa muscular, o que faz diferença na saúde como um todo”, afirma o fisiatra Marcelo Ares, coordenador médico da AACD.
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Fonte.:Saúde Abril


