
- Author, Jeremy Ball
- Role, BBC News
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Joan Scourfield entende por que tanta gente considera extraordinário vê-la abraçando o homem que causou a morte de seu filho.
James Hodgkinson nunca se recuperou de um grave traumatismo craniano depois de ter sido derrubado com um único soco em Nottingham, no Reino Unido.
Hoje, a mãe, enfermeira em Derby, faz campanha ao lado do autor do golpe fatal ocorrido em 2011.
Sua história de perdão diante de uma tragédia devastadora transformou-se em um espetáculo teatral com ingressos esgotados tanto em Londres quanto em Nova York.

Crédito, Joan Scourfield
Joan diz que James, 28, era um filho afetuoso, que sonhava em se tornar paramédico de ambulância e gostava de esportes de aventura, como wakeboard, esporte aquático em que a pessoa desliza sobre a água em uma prancha curta.
“O gosto dele por esportes cheios de adrenalina era uma grande preocupação. As pessoas diziam: ‘vamos fazer uma corrida divertida para arrecadar dinheiro’, e ele aparecia (para correr) usando uma fantasia de lutador de sumô”, disse.
James morreu depois de ir assistir fantasiado a uma partida de críquete, quando a Inglaterra disputava uma partida no estádio Trent Bridge (Nottingham), em julho de 2011.
Seu grupo seguiu para um bar no centro da cidade, onde um desconhecido embriagado pegou um dos chapéus de pirata que usavam.
Seguiu-se uma confusão, James foi atingido por um soco e morreu nove dias depois.
Jacob Dunne, então com 19 anos, morador do bairro The Meadows, em Nottingham, admitiu homicídio culposo no julgamento.
Em novembro de 2011, ele foi condenado a 30 meses em um centro de detenção para jovens infratores.
“As pessoas recebiam penas maiores por roubar uma televisão”, disse Joan. “Eu achava que a vida de James valia mais… que justiça James teve?”

Crédito, Joan Scourfield
Mas, 14 anos depois, Joan descreve Dunne como um amigo e diz que às vezes se encontra com ele para almoçar ou tomar café.
Eles uniram forças para chamar a atenção para os perigos dos ataques de “um único soco” e para os benefícios do que é conhecido como justiça restaurativa.
A justiça restaurativa é uma iniciativa voluntária que permite que vítima e agressor compartilhem entre si como o crime os afetou, o que pode ocorrer pessoalmente, por escrito ou por meio de entrevistas gravadas.
Esse processo deu a Joan e a seu ex-marido, David, a oportunidade de escrever a Dunne enquanto ele ainda cumpria pena.
Eles queriam que ele explicasse por que deu o soco fatal que tirou a vida do filho do casal.

Joan relata que essas cartas acabaram levando a um encontro presencial tenso, depois que Dunne deixou a prisão.
“Eu só tinha visto a foto policial, então eu esperava que entrasse uma pessoa má, mas quem entrou na sala foi um jovem vulnerável”, afirmou.
Ela afirma que Dunne ficou surpreso ao perceber que ela se importava o suficiente para perguntar o que ele pretendia fazer da própria vida.
“Eu não queria essa porta giratória, com ele entrando e saindo da prisão, ficando cada vez pior, e talvez fazer com que outras famílias passem pelo que eu estou passando. Eu me importava com ele, porque queria que ele parasse com a violência”, acrescentou.
Joan conta que, então, disse a Dunne que o perdoava e se ofereceu para dar uma referência que o ajudasse a mudar de vida.
“Ele disse que iria para a universidade por nossa causa”, afirmou. “Eu respondi: ‘não vá para a universidade por nós; se for, vá por você’.”
Joan disse: “Não guardo o mesmo ressentimento, porque sinto que fizemos mais por Dunne do que se ele tivesse passado 20 anos na prisão.”
“Estou pedindo que ele abandone as amizades que tinha e mude de vida, isso é um pedido grande para qualquer pessoa, não é?”, questionou.

Crédito, Nottingham Playhouse
Dunne concluiu com distinção máxima o curso de criminologia na Nottingham Trent University e publicou o livro Right from Wrong: My Story of Guilt and Redemption (O Certo do Errado: Minha História de Culpa e Redenção, em tradução livre).
A obra foi adaptada para o teatro pelo premiado dramaturgo James Graham, de Nottingham. A peça, intitulada Punch, volta ao Nottingham Playhouse neste ano, após temporadas no Apollo, no West End de Londres — região de Londres que concentra os principais teatros da cidade —, e no Samuel J. Friedman Theatre, em Nova York (EUA).
Joan Scourfield disse que foi estranho ver sua personagem interpretada por Julie Hesmondhalgh, ex-atriz da série Coronation Street — a novela mais longeva da TV britânica.
“Algumas partes são obviamente bastante dolorosas, como a da decisão de desligar a máquina de suporte à vida, o encontro com Jacob [Dunne] ou quando fala sobre James; é muito difícil ouvir tudo isso na voz de outra pessoa”, disse.

Crédito, Nottingham Playhouse/Marc Brenner
Joan Scourfield e Jacob Dunne têm subido juntos ao palco para sessões de perguntas e respostas após apresentações recentes, ocasiões em que ela concorda que o público pode achar extraordinário vê-los se abraçando.
“É fora do comum, sim, mas eu precisava seguir em frente e não queria ser consumida pelo luto; este é o meu caminho, tentar tirar algo de bom disso”, afirmou Joan.
“Outras pessoas do grupo dele mudaram de vida por causa disso, então algum bem certamente está saindo dessa história.”
Agora, Joan Scourfield quer que a justiça restaurativa seja oferecida de forma rotineira a vítimas e autores de crimes traumáticos, e disse estar convencida de que o filho aprovaria a iniciativa.
“Eu acho que James ficaria honrado e surpreso, porque ele sempre foi alguém que ajudava jovens; para mim, isso fecha um ciclo”, disse.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


