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30 de agosto de 2025

Por que povos no Peru modificavam crânios de bebês – 30/08/2025 – Ciência

Por que povos no Peru modificavam crânios de bebês – 30/08/2025 – Ciência

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Os pais têm tentado interferir na cabeça de seus filhos desde os tempos pré-históricos. Para alcançar algumas formas desejadas —planas, redondas, cônicas—, os crânios maleáveis dos recém-nascidos eram envoltos em panos ou presos entre tábuas.

As origens dessa prática, conhecida como deformação craniana artificial, foram rastreadas até os primeiros Homo sapiens na Austrália há cerca de 13 mil anos e, em meio a algumas contestações acadêmicas, potencialmente até populações de neandertais há 45 mil anos.

A prática foi documentada em todos os continentes, exceto na Antártida. Na região que hoje é o Peru, os primeiros habitantes aparentemente acreditavam que uma testa inclinada era uma característica vantajosa, com as evidências mais antigas disso datando do quarto milênio a.C.

Crânios alongados e inclinados encontrados entre os restos da cultura paracas (ativa aproximadamente de 800 a.C. a 100 d.C.) até alimentaram a ideia fantasiosa de uma origem sobrenatural.

“Os crânios de paracas se conformam às imagens estereotipadas de alienígenas na ficção científica popular do século 20”, disse o antropólogo Matthew Velasco, da Universidade Cornell (EUA). “Ou seja, artistas modernos transformaram o formato da cabeça em algo extraterrestre, o que parece uma base bastante frágil para argumentar sobre a influência de alienígenas nas sociedades antigas.”

Em seu novo livro, “The Mountain Embodied” (a montanha incorporada), o antropólogo detalha as tradições de modificação craniana dos collaguas e cavanas, povos vizinhos que viviam no Vale Colca, nas terras altas do Peru.

Durante o período de 1100 a 1450, os collaguas empregavam métodos para fazer com que suas cabeças assumissem uma forma mais longa e estreita. Os cavanas, por sua vez, tinham como objetivo tornar suas cabeças largas e achatadas. Com o tempo, o aspecto alongado dos collaguas tornou-se o estilo dominante de modificação craniana no vale.

Essas alterações deliberadas resultavam em crânios que imitavam as silhuetas de montanhas sagradas para suas respectivas culturas. Velasco cita um escriba e tradutor espanhol do século 16 que escreveu que os collaguas usavam chapéus altos sem aba chamados chucos e modelavam as formas de suas cabeças para homenagear Collaguata, o vulcão distante que consideravam seu lar ancestral. Os cavanas, observou o tradutor, esculpiam os crânios de seus bebês em tributo a Gualcagualca, o pico coberto de neve que se erguia sobre sua cidade.

A modelagem craniana andina tem sido tradicionalmente vista como uma forma de distinguir visualmente diferentes grupos étnicos, semelhante à maneira como o enfaixamento dos pés das mulheres chinesas Han era percebido. O livro de Velasco defende uma mudança para compreendê-la a partir da perspectiva das pessoas que a praticavam. Em vez de ver a modelagem craniana apenas como uma característica que marcava quem era de dentro e de fora do grupo, ele sugere que o costume também pode ter tido um significado mais profundo para aqueles dentro da cultura andina.

“O livro de Velasco vai contra a invenção colonial de que o formato da cabeça era apenas um marcador étnico”, disse o antropólogo Andrew Scherer, da Universidade Brown (EUA). “Em vez disso, ele aponta para questões mais sutis de personalidade, crença e tradição.”

Para Velasco, a personalidade não é simplesmente um aspecto inerente ao ser humano, mas uma qualidade que capacita indivíduos, lugares ou coisas a participar plenamente dos assuntos sociais, e nas sociedades andinas, isso não era predeterminado. “As montanhas, particularmente, eram consideradas participantes vitais na sociedade e, como antropólogos, levamos essa ideia a sério, mesmo que pareça estranho.”

Em um estudo de 2018, Velasco examinou os crânios de 213 humanos mumificados enterrados em dois cemitérios collagua. Com base em análises, ele levantou a hipótese de que meninas e mulheres collagua com crânios modificados podem ter se beneficiado de uma existência mais privilegiada, com melhor acesso a uma variedade maior de alimentos e menor incidência de violência.

No século 15, os incas haviam incorporado o vale ao seu império. Embora eles permitissem a modelagem craniana entre os locais, estudos recentes indicam que os incas não adotaram essa prática. Os invasores espanhóis proibiram a tradição no século 16.

Em seu livro, Velasco argumenta que a prática de modelagem craniana contribuiu para as disparidades sociais. Indivíduos com cabeças modeladas provavelmente assumiam papéis específicos na economia agrícola e pastoril, papéis que posteriormente conferiam direitos a terras e recursos. Consequentemente, a ampla adoção da modelagem craniana no século 14 parece ter, talvez involuntariamente, servido para manter a riqueza dentro desses grupos.

Pesquisas médicas demonstraram que alterar o formato do crânio de um recém-nascido provavelmente não afetava negativamente o desenvolvimento cognitivo. “Simplesmente não há evidências que mostrem que a modificação craniana causou danos neurológicos”, disse Velasco. O cérebro, sendo adaptável, mantém seu volume —e funcionalidade— apesar das mudanças feitas na forma do crânio.

Velasco observou que a ortose craniana, um método moderno para remodelar suavemente a cabeça de um bebê, não é tão diferente da modelagem craniana andina do século 15, apesar dos contextos culturais vastamente diferentes envolvidos. Em ambos os casos, disse ele, a motivação subjacente era o desejo dos pais de que seus filhos se conformassem a um padrão corporal.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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