
Desde que o ser humano tomou consciência que envelhece, tenta negociar com o tempo. Uns recorrem à filosofia, outros à genética. Há quem confie na fé, há quem confie em suplementos.
No século XXI, essa negociação ganhou um novo figurino: relógios inteligentes, startups bilionárias e pesquisas sobre longevidade que parecem roteiro de filme de ficção científica.
O empresário estadunidense Bryan Johnson talvez seja o exemplo mais conhecido dessa obsessão contemporânea. Ele monitora obsessivamente cada aspecto do próprio corpo — metabolismo, inflamação, sono, idade biológica — numa tentativa quase artesanal de atrasar o envelhecimento.
Em outra escala, empresas como a Calico Labs, criada pelo Google, e iniciativas como o Altos Labs investem bilhões para entender os mecanismos mais profundos da biologia do envelhecimento. A ideia é ambiciosa e simples: se o envelhecimento é um processo biológico, talvez possa ser controlado.
Em meio a esse cenário, uma pergunta começou a ganhar espaço nos laboratórios: e se algumas das moléculas mais antigas da cultura humana — os psicodélicos — também interferirem nos mecanismos biológicos que regulam o envelhecimento?
Psicodélicos: muito além da “viagem”
Durante décadas, substâncias como o LSD, a psilocibina e a DMT foram estudadas quase exclusivamente pelo que fazem à mente.
Essas substâncias alteram a percepção, dissolvem fronteiras do “eu”, bagunçam o tempo subjetivo e produzem experiências que costumam render descrições entusiasmadas e inesperadas.
Aos poucos, ficou claro que esses compostos fazem algo ainda mais profundo: ativam vias de sinalização celular ligadas à neuroplasticidade, ao metabolismo energético e à capacidade de adaptação do organismo ao estresse.
Em outras palavras, psicodélicos não são apenas moduladores da consciência, mas agentes biológicos ativos com impactos significativos no metabolismo celular. Como se tais fenômenos pudessem ser realmente separados.
Muitas dessas vias de sinalização são as mesmas envolvidas com o envelhecimento celular. Entre elas a famosa via mTOR/TOR.
Esta via é uma espécie de central de comando metabólico que decide se a célula cresce, economiza energia, entra em modo de reparo ou acelera o envelhecimento.
É a mesma via modulada pela restrição calórica, uma das raríssimas intervenções que, de forma consistente, prolonga a vida em organismos tão diferentes quanto leveduras, vermes, moscas, camundongos e primatas.
O que psicodélicos fazem ao cérebro — quando ninguém está “tendo uma experiência”
Em 2017, nosso grupo publicou um estudo que ajudou a deslocar o foco da pesquisa psicodélica.
Em vez de investigar o comportamento, relatos subjetivos ou neuroimagem funcional, decidimos observar o que essas moléculas fazem ao cérebro humano em nível molecular, usando organoides cerebrais, frequentemente chamados de “minicérebros”.
Organoides cerebrais são estruturas tridimensionais derivadas de células-tronco pluripotentes humanas. Eles não pensam, não sentem e não têm consciência, mas expressam milhares de genes, formam sinapses, organizam circuitos rudimentares e reproduzem aspectos relevantes da arquitetura cerebral humana.
Ao expor esses organoides a uma dimetiltriptamina (DMT), utilizamos proteômica em larga escala para mapear quais proteínas tinham sua expressão alterada.
O resultado foi evidente: centenas de proteínas associadas à plasticidade sináptica, redução de inflamação, reorganização do citoesqueleto neuronal, crescimento de neuritos e processos ligados à aprendizagem e memória foram moduladas.
Mesmo fora do corpo humano — e fora de qualquer experiência subjetiva — o tecido neural respondia com uma reorganização molecular profunda. Mais recentemente, em 2024, avançamos ao investigar os efeitos do LSD também em organoides cerebrais humanos.
Novamente, utilizando proteômica quantitativa, mostramos que o LSD modula proteínas envolvidas em proteostase — o delicado equilíbrio entre síntese, dobramento e degradação de proteínas — além de processos ligados a metabolismo energético, autofagia e neuroplasticidade.
Esses processos são cruciais não apenas para o funcionamento das células do cérebro, mas para sua manutenção ao longo do tempo. Afinal, envelhecer é, em grande parte, perder a capacidade de manter a ordem interna das células. Neurônios são especialmente vulneráveis a esse colapso, pois não se auto-renovam.
Esses nossos achados ajudaram a consolidar a seguinte hipótese: psicodélicos podem reprogramar redes celulares complexas além dos neurônios, com efeitos que potencialmente dialogam com processos de envelhecimento.
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E então entraram os vermes
Se os organoides cerebrais pareciam responder ativando genes ligados à longevidade, a pergunta seguinte era inevitável: esses efeitos se restringem ao sistema nervoso ou atingem o organismo como um todo?
Para explorar essa questão, recorremos a um personagem improvável: o nematódeo Caenorhabditis elegans. Transparente, com cerca de um milímetro de comprimento e expectativa de vida de apenas duas a três semanas, esse verme é um dos modelos mais importantes da biologia do envelhecimento.
O motivo é simples: ele compartilha conosco as principais vias moleculares que regulam metabolismo, resposta ao estresse e longevidade. A diferença é que tudo acontece muito mais rápido. O que em humanos leva décadas, nele ocorre em dias.
Não por acaso, esse verme modesto já esteve no centro de descobertas fundamentais sobre apoptose, RNA de interferência e regulação genética. E rendeu vários Prêmios Nobel, provando que, na ciência, tamanho raramente é documento.
Em nosso estudo mais recente, compartilhado como preprint, mostramos que o LSD é capaz de estender significativamente a vida desses animais. Mas o dado mais interessante não foi apenas o aumento da longevidade.
Os nematódeos tratados com LSD viveram mais, acumularam menos lipofuscina, um pigmento fluorescente que se deposita nas células com a idade, funcionando como uma espécie de “ferrugem biológica”, e exibiram um perfil metabólico muito semelhante ao observado em animais submetidos à restrição calórica.
O detalhe curioso: eles não comeram menos
Ou seja, o LSD não reduziu a ingestão alimentar, mas induziu internamente um estado fisiológico semelhante ao da escassez controlada — aquele estado em que o organismo desacelera crescimento, reduz síntese proteica e prioriza manutenção e reparo celular.
Em termos técnicos, observamos modulação da via TOR, redução progressiva da síntese proteica e ativação do fator de transcrição PHA-4/FOXA, peça-chave da longevidade. Em termos mais simples: o verme “interpretou” o ambiente como desafiador e resolveu envelhecer mais devagar.
Vermes são interessantes. Camundongos convencem mais.
Se tudo parasse nos vermes, seria fácil tratar o assunto como uma curiosidade elegante de laboratório. Mas resultados semelhantes começaram a surgir em modelos mais próximos do nosso.
Um estudo publicado por cientistas das universidades Emory e Baylor College of Medicine, além do sistema de saúde de veteranos de Atlanta, mostrou que a psilocibina, psicodélico produzido por alguns tipos de cogumelo, gerou efeitos notáveis em camundongos idosos.
Camundongos idosos tratados com psilocibina apresentaram maior sobrevida, mesmo quando o tratamento começou tardiamente na vida. Além disso, os animais exibiam sinais externos de envelhecimento atenuado, como melhor condição da própria pelagem.
Os mecanismos apontados novamente convergiam para vias clássicas do envelhecimento: SIRT1, resposta ao dano no DNA, metabolismo energético e controle do estresse oxidativo.
Quando diferentes psicodélicos, em modelos distintos, de células humanas a organismos inteiros, começam a apontar para os mesmos circuitos biológicos, a hipótese deixa de parecer exótica.
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Um alerta necessário: isso não é uma receita de longevidade
Antes que alguém interprete esse conjunto de estudos como um convite para experimentar psicodélicos em nome da juventude eterna, é preciso colocar os pés no chão.
Esses resultados não dizem que psicodélicos prolongam a vida humana. Eles mostram algo mais sutil — e mais importante: que essas moléculas são ferramentas poderosas para entender os mecanismos biológicos do envelhecimento.
Entre um verme, um camundongo e um ser humano existe um abismo de complexidade. Doses, contextos, efeitos colaterais, riscos psicológicos e fisiológicos não podem ser ignorados. Além disso, viver mais não é sinônimo de viver melhor.
A ciência da longevidade avança justamente quando evita muitas promessas.
E enquanto isso… o básico continua vencendo
Talvez o maior paradoxo da ciência da longevidade seja este: quanto mais sofisticadas ficam as intervenções experimentais, mais robustas permanecem as mais simples.
Entre todas as estratégias conhecidas até hoje, o exercício físico regular continua sendo a intervenção mais eficaz e consistente para promover um envelhecimento saudável.
Revisões da literatura científica publicadas recentemente mostram que atividade física melhora a função mitocondrial, reduz inflamação crônica, preserva massa muscular. Além disso, sustenta a saúde cognitiva, modula positivamente o metabolismo e está associada a uma redução significativa da mortalidade por todas as causas.
Nenhuma pílula, microdose ou protocolo experimental conseguiu, até agora, replicar esse conjunto de benefícios de forma tão ampla.
Menos hype, mais curiosidade
Psicodélicos não são atalhos para a imortalidade. Mas estão se revelando lentes inesperadas para observar como o organismo entra em estados adaptativos profundos — estados que envolvem plasticidade neural, metabolismo, reparo celular e envelhecimento.
Enquanto bilionários tentam comprar mais tempo, a biologia segue oferecendo pistas, não garantias. E, por enquanto, ela continua repetindo, com certa ironia científica: mexa o corpo, durma bem, cuide do metabolismo…
E, se quiser entender o envelhecimento, talvez valha a pena olhar também para um verme de um milímetro — ou para um minicérebro exposto a psicodélicos crescendo em uma placa de laboratório.
Stevens Rehen, é neurocientista e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Sua pesquisa tem apoio da Ciência Pioneira e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)
Esse artigo foi publicado originalmente no The Conversation e republicado sob uma licença Creative Commons.
Fonte.:Saúde Abril


