12:37 AM
9 de fevereiro de 2026

Remédio para azia causa câncer? O que a ciência diz sobre o uso prolongado

Remédio para azia causa câncer? O que a ciência diz sobre o uso prolongado

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Os inibidores da bomba de prótons (IBP) – grupo de medicamentos que inclui nomes conhecidos como omeprazol e pantoprazol – estão entre os remédios mais usados no mundo para tratar azia, refluxo, inflamações do esôfago e úlceras no estômago.

Quando bem indicados, são eficazes e seguros. Ainda assim, ao longo dos anos, surgiram estudos levantando a suspeita de que o uso prolongado desses medicamentos poderia estar associado ao câncer de estômago. É aí que começa a confusão: associação não significa causa, e entender essa diferença é fundamental para evitar medo desnecessário.

Uso prolongado de remédio para azia causa câncer?

A resposta direta é: não existe prova científica de que esses medicamentos causem câncer. Alguns estudos observacionais – que analisam grandes bancos de dados – encontraram uma associação entre o uso prolongado de IBP e câncer gástrico, especialmente em pessoas que já tiveram infecção por Helicobacter pylori, bactéria conhecida por aumentar o risco da doença.

Em alguns desses trabalhos, quanto maior o tempo de uso e a dose, maior foi o sinal de risco observado. No entanto, esses estudos têm limitações importantes.

Muitas vezes, quem usa IBP por longos períodos já tem doenças do estômago mais graves, que por si só aumentam o risco de câncer. Em outros casos, o medicamento pode ter sido iniciado para aliviar sintomas de uma doença que já estava em desenvolvimento.

Quando olhamos para estudos clínicos controlados – considerados o padrão mais confiável da ciência – não aparece um aumento claro de câncer em usuários desses remédios, ao menos nos períodos de acompanhamento disponíveis.

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O que realmente pesa no risco de câncer de estômago

O principal vilão não é o remédio para azia, mas sim a infecção pela bactéria H. pylori. Ela é reconhecida internacionalmente como um fator direto para o desenvolvimento da maioria dos cânceres de estômago. Estudos mostram que tratar e eliminar essa bactéria reduz significativamente o risco da doença, especialmente quando isso é feito antes de danos mais profundos à mucosa do estômago.

Em outras palavras: o “terreno” do estômago – marcado por inflamação crônica ao longo dos anos – tem muito mais peso no risco de câncer do que o simples uso de medicamentos que reduzem a acidez. Ignorar a presença da bactéria e focar apenas no remédio é inverter a lógica do problema.

+Leia também: Gastrite não tratada pode virar câncer de estômago?

Uso contínuo: riscos reais e como usar com segurança

O efeito colateral mais bem comprovado do uso prolongado de IBP é o aumento do risco de infecções intestinais, já que o ácido do estômago funciona como uma barreira natural contra microrganismos. Também há evidências de que o uso por muitos anos pode contribuir para deficiência de vitamina B12, magnésio e, em alguns casos, ferro.

Outras possíveis associações, como alterações nos rins ou maior risco de fraturas, ainda são tema de debate e não têm relação direta comprovada.

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Por isso, a orientação médica é simples e eficaz: usar a menor dose possível, pelo menor tempo necessário, e revisar periodicamente se o remédio ainda é mesmo necessário. Em quem usa há muito tempo, a suspensão deve ser gradual, pois o estômago pode produzir ácido em excesso por algumas semanas, causando desconforto e a falsa impressão de que a doença “voltou”.

Além disso, sempre que indicado, é essencial testar e tratar a H. pylori.

Conclusão clara e sem medo

Remédios para azia não são vilões. Quando bem indicados e acompanhados, eles trazem mais benefícios do que riscos.

As associações com câncer observadas em alguns estudos não provam que o medicamento seja a causa e refletem, em grande parte, fatores de risco já existentes no paciente. Informação de qualidade, uso consciente e acompanhamento médico continuam sendo a melhor forma de proteger a saúde.

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Antonio Couceiro Lopes é cirurgião do Aparelho Digestivo, membro da Brazil Health

Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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Fonte.:Saúde Abril

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