Medicamentos para perda de peso como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, atuam principalmente reduzindo a fome. Eles imitam um hormônio que o corpo já produz, chamado peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), que ajuda a regular o apetite e a sensação de saciedade.
Ao retardar a velocidade com que os alimentos saem do estômago e agir nos centros do apetite no cérebro, estes medicamentos ajudam as pessoas a se sentirem saciadas mais rapidamente e a permanecerem saciadas por mais tempo, muitas vezes sem a fome constante que torna muitas dietas difíceis de manter.
O efeito supressor do apetite desses medicamentos pode ser substancial. Estudos sugerem que as pessoas que tomam medicamentos GLP-1 reduzem sua ingestão de energia entre 16% e 40%.
Mas quando a ingestão de alimentos diminui, o corpo ainda precisa de vitaminas, minerais e proteínas essenciais para manter células, músculos e órgãos funcionando corretamente. Se esses nutrientes não estiverem presentes em uma quantidade menor de alimentos, podem surgir deficiências.
Uma maior ingestão de alimentos geralmente aumenta a probabilidade de atender às necessidades de vitaminas e minerais. Ter uma dieta variada ao longo da semana ajuda a cobrir as lacunas nutricionais, mesmo que algumas refeições sejam pobres em nutrientes. Mas quando as porções diminuem, essa rede de segurança desaparece. Com menos comida no prato, as escolhas alimentares precisam ser mais deliberadas e pensadas.
Este não é um problema novo. As dietas tradicionais com restrição calórica sempre acarretaram um risco de deficiências nutricionais. A diferença é que a maioria dessas dietas falha porque as pessoas têm dificuldade em mantê-las. Ironicamente, essa falta de adesão às vezes limitava os riscos nutricionais a longo prazo. Quando as pessoas voltavam a comer de forma mais normal, as deficiências podiam ser corrigidas.
Os medicamentos GLP-1 mudam esse padrão. Estudos mostram que muitas pessoas recuperam o peso rapidamente se param de tomá-los, o que significa que esses medicamentos muitas vezes são usados por longos prazos. Isso levanta uma nova preocupação. Se as deficiências nutricionais se desenvolvem enquanto alguém está comendo muito menos e esse padrão continua por meses ou anos, essas deficiências podem persistir e levar a problemas como perda muscular, imunidade enfraquecida, anemia, perda óssea ou prejuízos à função neurológica.
Como os medicamentos GLP-1 apenas recentemente passaram a ser amplamente utilizados para perda de peso, os dados de longo prazo sobre os impactos nutricionais ainda são limitados. Também é difícil para as pessoas reconhecerem as deficiências nutricionais sem exames de sangue, pois sintomas como fadiga, fraqueza ou queda de cabelo podem ser vagos e facilmente ignorados.
Mas os primeiros sinais de alerta já estão aparecendo. Um estudo com pessoas que tomavam medicamentos GLP-1, tinham perdido peso e estavam se preparando para cirurgias de substituição de articulações constatou taxas mais altas de desnutrição e desnutrição grave. Exames de sangue mostraram níveis mais baixos de proteínas essenciais, sugerindo uma nutrição geral inadequada.
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Outro estudo questionou pessoas que usavam medicamentos GLP-1 sobre o que comiam. Muitos relataram dietas pobres em fibras, cálcio, ferro, magnésio, potássio e várias vitaminas, incluindo A, C, D e E. A ingestão de frutas, vegetais, grãos e laticínios também estava abaixo dos níveis recomendados.
Este estudo, no entanto, se baseou em informações alimentares autorrelatadas de um grupo relativamente pequeno de pessoas, então suas conclusões podem ser afetadas por memórias imprecisas ou subnotificação, e não se pode presumir que se apliquem a toda população. Mesmo assim, seus resultados destacam um padrão que merece atenção.
Evidências mais fortes vêm de um grande estudo observacional com pessoas que receberam prescrição de medicamentos GLP-1. Em seis meses, cerca de 13% foram diagnosticadas com deficiência nutricional. Em um ano, esse número subiu para mais de 22%. Isso incluiu deficiências de vitaminas e minerais, anemia por deficiência de ferro e deficiência de proteínas.
A deficiência de proteínas é particularmente preocupante, pois elas são essenciais para manter a massa muscular, a força e a função física. A perda de peso geralmente envolve perda de músculos e gordura, e isso pode ocorrer com o uso de medicamentos GLP-1. A falta de proteínas acelera a perda muscular, o que pode afetar o equilíbrio, a mobilidade e a saúde metabólica a longo prazo. Exercícios de resistência podem ajudar a proteger os músculos, mas sem proteína suficiente na dieta, seus benefícios são limitados.
Em casos raros, mas graves, comer muito pouco enquanto se toma medicamentos GLP-1 levou a emergências médicas. Um relato de caso descreve um paciente que tomava tirzepatida e desenvolveu desidratação grave e cetoacidose após diarreia persistente e ingestão muito baixa de alimentos. A cetoacidose ocorre quando o corpo é forçado a queimar grandes quantidades de gordura para obter energia, produzindo compostos ácidos que podem se tornar fatais se se acumularem no organismo.
Também houve raros relatos de pessoas que desenvolveram deficiência grave de vitamina B1 após náuseas prolongadas e ingestão mínima de alimentos com medicamentos GLP-1. Essa condição, conhecida como encefalopatia de Wernicke, afeta o cérebro e pode causar confusão mental, problemas de coordenação e danos neurológicos duradouros se não for tratada prontamente.
Alimentos ricos em nutrientes
Pessoas que utilizam medicamentos GLP-1 precisam priorizar alimentos ricos em nutrientes que forneçam uma quantidade elevada de vitaminas, minerais, fibras e proteínas em relação ao seu conteúdo calórico.
Uma revisão de estudos recente, no entanto, descobriu que muitas pessoas que tomam medicamentos GLP-1 recebem poucos ou nenhum aconselhamento nutricional significativo. Sem orientação, pode ser difícil atender às suas necessidades nutricionais quando o apetite é drasticamente reduzido.
Muitas pessoas com obesidade já enfrentam um risco maior de deficiências nutricionais, incluindo ferro e vitamina B6. A inflamação crônica pode interferir na forma como os nutrientes são absorvidos e utilizados pelo organismo. Comer menos enquanto se toma medicamentos GLP-1 pode, portanto, agravar vulnerabilidades nutricionais existentes.
Isso ajuda a explicar o crescente interesse em refeições prontas ricas em nutrientes comercializadas para pessoas que usam medicamentos GLP-1. Essas refeições são normalmente ricas em fibras e projetadas para fornecer mais nutrientes por caloria. Em princípio, isso atende ao que as pessoas que tomam medicamentos para suprimir o apetite precisam.
Mas não há nada de mágico nesses produtos. Os mesmos objetivos nutricionais podem ser alcançados em casa a um custo menor. Adicionar sementes, nozes ou manteigas de nozes às refeições, usar grãos como quinoa e misturar vegetais e lentilhas em molhos, sopas e ensopados pode aumentar significativamente a ingestão de nutrientes. Manter uma pequena seleção de ingredientes ricos em nutrientes à mão e adicionar um ou dois a cada refeição pode fazer uma diferença real.
Dito isso, a conveniência é importante. Refeições preparadas projetadas para serem ricas em nutrientes podem ser uma opção útil para pessoas com limitações de tempo, das habilidades culinárias ou de conhecimentos nutricionais —e que podem pagar por elas.
Os medicamentos GLP-1 são ferramentas poderosas para a perda de peso. Mas eles não mudam apenas a quantidade de alimentos que as pessoas comem. Eles também afetam o quanto as pessoas precisam pensar cuidadosamente sobre o que comem. Até que evidências de longo prazo estejam disponíveis, concentrar-se na densidade nutricional, na ingestão adequada de proteínas e em exercícios de resistência regulares continua sendo essencial para qualquer pessoa que use esses medicamentos.
A matéria foi originalmente publicada no The Conversation
Fonte.:Folha de S.Paulo


