É um grande equívoco pensar que o Roxy Dinner Show é um programa para gringos. Numerosos na plateia, os visitantes estrangeiros até se encantam com o colorido do espetáculo. Mas para captar todas as referências e sutilezas da montagem, só mesmo sendo brasileiro.
Lançada no final de 2024, a experiência combina jantar em três etapas capitaneado pelo chef Caio Silva e o espetáculo de música e dança “Aquele Abraço”, idealizado por Abel Gomes, que concebeu a abertura das Olimpíadas do Rio. Passados dois anos, o combo continua enchendo a casa e arrancando aplausos. Não à toa, essa é uma das atividades mais populares e bem avaliadas do Rio de Janeiro na plataforma Civitatis, onde é possível adquirir os ingressos.
Bastou apresentar o meu voucher da Civitatis na tela do celular para ter minha entrada liberada no icônico Roxy, em Copacabana. Originalmente um cinema, o edifício com características art déco abriu as portas em 1938 e foi responsável por apresentar as novidades da indústria cinematográfica para os cariocas até a década de 1990. Depois, começou a perder público e recebeu seu golpe final durante a pandemia, em 2021.
No mesmo ano do fechamento, o imóvel foi comprado pelo empresário Alexandre Accioly, que está por trás da reabertura após um investimento de R$ 65 milhões. A restauração recuperou o glamour do edifício, com o letreiro na fachada, os guarda-corpos e as colunas dourados, os lustres pendentes e a imponente escadaria principal. O figurino dos funcionários, que incluem paletó, cartola e gravata-borboleta, também ajudam a resgatar essa atmosfera clássica e glamourosa da era de ouro dos cinemas.
Por isso, a experiência começa ali mesmo no saguão de entrada, onde todos querem fazer uma foto. Só não se esqueça de levar um casaquinho, porque o ar condicionado é congelante.

Em sua nova encarnação, a casa oferta uma experiência de quatro horas que, tanto no menu quanto no palco, passeia pela riqueza da cultura brasileira.
São três categorias de ingressos. O Pacote Aquele Abraço (R$ 396) dá direito a um drinque e um mix de castanhas para acompanhar. O Pacote Rio de Janeiro (R$ 638) prevê um jantar em três etapas (entrada, prato principal e sobremesa). Já no Pacote Copacabana (R$ 869), além do jantar em três etapas está incluída meia garrafa de espumante ou vinho, ou outra bebida sem álcool.
O jantar
Independente do tipo de ingresso escolhido, a recomendação é chegar a partir das 18h30 para evitar atrasos e tirar fotos sem pressa no saguão do Roxy. As portas se abrem por volta das 19h, revelando o teatro onde as poltronas comuns foram substituídas por mesas. Posicionadas de forma perpendicular ao palco com bonitas cortinas douradas, elas ficam distribuídas em diferentes degraus, o que garante que todos tenham uma boa visão.
Às 19h15, tem início a apresentação intimista de uma banda com uma afinadíssima dupla de cantores. Na noite da minha visita, o repertório foi quase todo de pérolas da MPB, mas mais pro final da apresentação rolaram canções em inglês e espanhol, que pareceram agradar os estrangeiros na plateia.

A música embala o jantar. Com organização e agilidade impressionantes, os garçons vão tirando os pedidos das mesas: é possível escolher entre algumas opções de entrada, prato principal e sobremesa.
Depois de saborear o pão de queijo que chega quentinho como couvert, provei o mix de folhas com tomates assados, que era finalizado com pesto de plantas da Amazônia e castanhas-do-Pará. Leve e saboroso.

Na sequência, optei pelo filé mignon, servido com molho de jabuticaba e um delicioso mil-folhas de mandioca decorado com caviar de aroeira. Gostei muito da minha pedida, mas depois de espiar a mesa dos vizinhos, fiquei curiosa para provar outros pratos.
Representante da culinária mineira, estava muito bonito o frango caipira recheado com taioba, servido com um delicado creme de queijo da Serra da Canastra, quiabo grelhado e purê de batatas. O mesmo vale para a opção vegetariana, que homenageia a Bahia com uma moqueca de banana-da-terra, combinada com palmito e arroz de coco.

Na sobremesa, não deu para resistir às texturas de chocolate com pé-de-moleque de castanhas brasileiras e creme de cumaru. Uma delícia.

Quem optou pelo ingresso mais econômico, o Pacote Aquele Abraço (R$ 396), não perde a apresentação da banda. Nesse caso, a entrada também é a partir das 19h15 e será servido um drinque e um mix de castanhas. É possível pedir alguns petiscos à parte, como dadinhos de tapioca e a deliciosa porção de pastéis recheados com queijo da Serra da Canastra.
O espetáculo
A transição entre o jantar e o espetáculo é genial. Pouco antes das 21h, os garçons retiram todos os pratos e talheres da mesa. De repente, o que pareciam ser garçons espalhados entre as mesas começam a usar justamente pratos e talhares para fazer a batida de uma música.
Aos poucos, essa turma foi subindo ao palco e arrancou seus uniformes de garçom, revelando uma explosão de personagens típicos de todo o país – do “Faria Limer” de São Paulo à dançarina de carimbó do Pará. O show tinha começado: arrastei ligeiramente minha cadeira para conseguir ter uma visão um pouco mais frontal do palco.

Prometo que, daqui para frente, vou evitar spoilers fortes – porque, sim, a apresentação é cheia de surpresas. Mas não estraga a experiência dizer que a partir daí as cortinas sobem e revelam um incrível painel de LED com tecnologia 4D, que fazem os bailarinos imergirem em diferentes cenários brasileiros.

Ao longo de 1h45, entram em ação cantores, atores e bailarinos ao som de mais de 50 canções de MPB, samba, funk, frevo e bossa nova. O pout-pourri faz um passeio por representações culturais de todo o país com hits que estão na ponta da língua dos brasileiros, de Garota de Ipanema, de Tom Jobim, a Evidências, de Chitãozinho e Xororó. É contagiante: em vários momentos me peguei cantando junto (e alto).

Para mim, o ponto alto foi o terceiro ato, dedicado à negritude, à capoeira e ao axé da Bahia. A força dos ritmos baianos provocou arrepios e me deixou com uma vontade danada de ir para lá nas próximas férias. Depois, a viagem sensorial segue para outras tradições do sertão nordestino, mostrando inclusive o colorido das nossas festas juninas.

O ato em homenagem ao Centro-Oeste tinha tudo para ser sem graça comparado para os demais. Mas isso foi contornado com maestria graças a um pout-pourri muito bem pensado de hits sertanejos, dos clássicos aos sucessos mais recentes do feminejo, que faz parecer que uma música é uma resposta à outra. Sutilezas que, com certeza, só podem ser captadas pelos brasileiros.
Na sequência, chega o momento de maior interação do público: o Festival de Parintins. Metade da plateia é iluminada pela cor azul e a outra metade, pela vermelha, e rapidinho o público entende que, assim como acontece na Amazônia, é preciso ficar quieto enquanto o boi inimigo está se apresentando. Claro que tem um gringo ou outro que fica perdido nessa hora, mas em geral todo mundo balança seu guardanapo na hora certa para exaltar o Caprichoso ou o Garantido. É demais.

A apresentação passa ainda por São Paulo e, claro, pelo funk carioca, com direito a paredão de som.
Não há monotonia nem mesmo nos momentos de transição, em que os bailarinos certamente precisam de um tempo para trocar de figurino. Nesses momentos, que também são poucos, entram em cena dois personagens vestidos como os antigos lanterninhas do Roxy, que arrancam gargalhadas do público misturando português, espanhol e inglês na mesma frase.

Em seus momentos finais, o show percorre as origens do samba até culminar no Carnaval da Sapucaí em uma explosão visual e sonora. Todos são convidados a levantar para sambar ou, pelo menos, tentar.
Em 2025, o Roxy Dinner Show entrou na lista da revista Time como um dos 100 melhores lugares do mundo em 2025. Que a experiência tenha recebido esse reconhecimento (muito merecido) do público estrangeiro é um bônus: o espetáculo “Aquele Abraço” foi claramente pensado para o público brasileiro, em quem renova o orgulho pela diversidade da cultura nacional.

A Civitatis vende ingressos para o Roxy Dinner Show
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Fonte.:Viagen


