6:49 PM
27 de janeiro de 2026

Rússia usou lista da Interpol para perseguir opositores pelo mundo, mostram documentos

Rússia usou lista da Interpol para perseguir opositores pelo mundo, mostram documentos

PUBLICIDADE


Homem de cabelo castanho claro curto e com barba por fazer, vestido com uma camisa polo azul escura, olha para uma folha de papel
Legenda da foto, O empresário Igor Pestrikov descobriu que Moscou o colocou em uma lista de procurados depois que ele fugiu da Rússia em 2022

    • Author, Cate Brown, Max Hudson e Julia Luft
    • Role, BBC Eye Investigations
  • Tempo de leitura: 10 min

Milhares de arquivos fornecidos por um denunciante da Interpol expuseram, pela primeira vez, a extensão do aparente mau uso da organização policial internacional por parte da Rússia, para atingir seus críticos no exterior.

Os dados revelados ao Serviço Mundial da BBC e ao portal de jornalismo investigativo francês Disclose revelam que a Rússia usa as listas de pessoas procuradas da Interpol para pedir a prisão de adversários políticos, empresários e jornalistas, sob a acusação de terem cometido crimes.

A análise dos dados também indica que, ao longo da última década, a própria unidade independente de reclamações da Interpol recebeu mais queixas relativas à Rússia do que sobre qualquer outro país — e três vezes mais que o segundo colocado no ranking, a Turquia.

Os dados também indicam que as queixas contra os pedidos de Moscou causaram o cancelamento de mais casos da Rússia que de qualquer outro país.

Após a invasão da Ucrânia pelos russos, a Interpol criou verificações adicionais sobre a atividade de Moscou “para evitar o potencial abuso dos canais da Interpol para a busca de indivíduos envolvidos no conflito na Ucrânia ou além dele”.

Mas os documentos vazados sugerem que estes mecanismos não evitaram que a Rússia abusasse do sistema. E o denunciante contou que algumas das medidas mais rigorosas de controle foram silenciosamente abandonadas em 2025.

Mosaico no piso do edifício da Interpol mostrando o logo da organização

Crédito, OLIVIER CHASSIGNOLE/AFP via Getty Images

Legenda da foto, A Interpol afirma ter criado sistemas para evitar abusos, que foram fortalecidos nos últimos anos

Em resposta à reportagem, a Interpol afirma que, todos os anos, milhares dos criminosos mais sérios do mundo são presos graças às suas operações.

A organização destaca que possui uma série de sistemas para evitar abusos e que esses sistemas foram fortalecidos ao longo dos últimos anos.

A Interpol também declara que está ciente dos possíveis impactos dos pedidos de prisão sobre os indivíduos.

“Quando você recebe um alerta vermelho, sua vida muda completamente”, segundo o empresário russo Igor Pestrikov. Seu nome é mencionado nos arquivos vazados.

A Interpol não é uma força policial global propriamente dita. Ela ajuda as polícias dos países integrantes a cooperarem entre si.

O alerta vermelho é um aviso enviado para todos os seus 196 países membros, pedindo a localização e a prisão de uma pessoa. A difusão vermelha é um pedido similar, mas encaminhado apenas a países específicos.

Pestrikov descobriu que seu nome foi incluído na lista de difusão vermelha quando ele fugiu da Rússia, em junho de 2022 (quatro meses após a invasão da Ucrânia) e pediu asilo na França.

Ele sentiu que tinha duas opções: “Ir à polícia e dizer ‘estou no sistema da Interpol'” e arriscar ser preso, ou manter segredo. Isso pode significar que “você não pode alugar um apartamento e suas contas bancárias ficam bloqueadas”, que é o que aconteceu com ele, segundo conta.

“É um nervoso constante, todo o tempo”, afirma ele, destacando que estava sempre olhando por sobre os ombros.

Por segurança, sua filha e sua mãe se mudaram para outro país. Ele conta que a polícia pode “invadir sua casa a qualquer momento. Você fica como um rato encurralado”.

“É a tensão, o nervoso, a pressão, a ilegalidade infligida sobre você”, que separa as famílias, segundo Pestrikov.

‘Questão moral’

Pestrikov foi um dos principais acionistas de grandes empresas do setor de metais da Rússia que foram privatizadas nos anos 1990, principalmente da Fábrica de Magnésio de Solikamsk.

Ele conta que, nos meses anteriores à invasão da Ucrânia em 2022, ministros do governo o pressionaram a suspender a venda dos seus produtos para o exterior e abastecer apenas o mercado russo.

Pestrikov acreditava que isso faria com que seus produtos fossem usados para produzir componentes de equipamentos militares, como tanques e jatos de combate.

Ele conta que não só era contra “ter que vender muito mais barato para quem os ministros me mandassem vender”, mas “era também uma questão moral… ninguém queria se envolver, nem mesmo indiretamente, na produção de algo usado para matar pessoas”.

Pestrikov acredita que sua recusa a obedecer e o fato de que sua esposa na época era ucraniana levaram a Rússia a estatizar suas empresas e a investigá-lo por crimes financeiros.

Depois que ele fugiu para a França, sua preocupação era que o Kremlin poderia tentar buscá-lo ali. Por isso, ele entrou em contato com a Interpol e tomou conhecimento do pedido de difusão vermelha, que havia passado pelas verificações da agência.

Pestrikov decidiu questionar o pedido pelo organismo fiscalizador interno independente da Interpol, a Comissão de Controle dos Arquivos da Interpol (CCF, na sigla em inglês). Ele defendeu que o pedido da Rússia teve motivações políticas.

O regulamento da Interpol determina expressamente que a organização não pode ser usada para “realizar intervenções ou atividades de caráter político, militar, religioso ou racial”.

Bombeiro de pé sobre uma escada, ao lado de um edifício cinza de vários andares, com fumaça branca saindo dele

Crédito, ARIS MESSINIS/AFP via Getty Images

Legenda da foto, Pestrikov fugiu da Rússia após o início da invasão da Ucrânia

Depois que Pestrikov passou quase dois anos na lista de procurados, a CCF decidiu que seu caso era predominantemente político.

Ele nos mostrou documentos da CCF afirmando que as informações fornecidas pela Rússia eram “genéricas e estereotipadas” e que houve uma “explicação inadequada” do suposto crime. Por isso, a Interpol cancelou o pedido de detenção de Pestrikov.

A Interpol publica apenas dados muito limitados sobre pedidos de prisão ilegítimos. E, desde 2018, a organização não revela quais países são objeto de reclamações e investigações.

Esta falta de transparência dificulta a determinação da escala do problema. Mas, pela primeira vez, os documentos vazados revelam um quadro muito mais completo.

Um lote de arquivos compartilhado com a BBC contém uma lista de reclamações enviadas para a CCF.

Os dados são incompletos, mas cobrem uma ampla variedade de países. E, nos casos em que o país que pede a prisão é indicado, existem nos últimos 11 anos mais queixas sobre a Rússia que sobre qualquer outra nação.

Os arquivos também demonstram que, na última década, pelo menos 700 pessoas procuradas pela Rússia se queixaram para a CCF e pelo menos 400 delas tiveram seus alertas ou difusões vermelhas cancelados.

Este número representa mais do que para qualquer outro país, segundo os dados recebidos pela BBC.

Homem com cabelo ondulado escuro, barba e bigode, usando óculos e uma blusa cinza, olha para uma folha de papel
Legenda da foto, Rússia tentou usar o sistema de mensagens da Interpol para conseguir informações sobre o jornalista Armen Aramyan, depois que ele deixou o país

“Historicamente, a Rússia foi um dos principais países que abusaram do sistema de alertas vermelhos”, segundo o advogado britânico Ben Keith, representante de muitos clientes que desejam ter seus nomes retirados das listas de procurados da Interpol.

Ele acredita que a Interpol tem um problema específico com a Rússia e que as tentativas da agência de evitar abusos não tiveram sucesso.

Keith afirma que conta com “um fluxo contínuo de clientes submetidos a alertas vermelhos da Rússia que tem conexões políticas, muitas vezes perfil pró-Ucrânia ou devido a ataques corporativos”.

O advogado internacional Yuriy Nemets, especializado em temas relacionados à Interpol e extradições, concorda que o aumento da vigilância da Interpol em relação aos pedidos de prisão da Rússia, criado após a invasão da Ucrânia, não se mostrou eficaz.

Ele afirma que conhece diversos casos em que cidadãos russos que se opunham à guerra “foram procurados por se manifestarem contra o que está acontecendo, acusados de crimes financeiros ou outros, comuns, e acabaram incluídos no banco de dados por este motivo”.

“Não é difícil burlar o sistema” destaca Nemets.

Além das informações sobre avisos e reclamações, a fonte da Interpol também forneceu à BBC milhares de mensagens trocadas entre países individuais pelo sistema de mensagens da entidade. Elas revelam outro caminho, menos formal, para rastrear as pessoas no exterior.

Uma mensagem de Moscou para agentes de fiscalização em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, mostra que a Interpol havia negado o pedido de um alerta vermelho, mas que a Rússia ainda queria ajuda para investigar o paradeiro da pessoa envolvida.

Este pedido vai contra as orientações da Interpol, de que os membros não utilizem seus canais com esta finalidade.

O vazamento também inclui uma mensagem sobre o jornalista Armen Aramyan, que fugiu da Rússia depois de ser condenado por “envolver menores em atividades perigosas”, ao noticiar protestos estudantis que apoiavam o então líder da oposição Alexei Navalny (1976-2024), em janeiro de 2021.

Linha de policiais, vestindo uniformes pretos com escudos e capacetes, bloqueando uma rua

Crédito, Aleksey Fokin/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Legenda da foto, A polícia de choque foi convocada quando milhares de pessoas em toda a Rússia protestaram contra a prisão do líder da oposição do país, Alexei Navalny, que morreu na prisão em circunstâncias suspeitas, em 2024

Aramyan foi para a Armênia e, dali, para a Alemanha.

A mensagem da Rússia para as autoridades policiais dos dois países ignorou o processo formal de emissão de alerta e difusão vermelha, pedindo “qualquer informação útil” sobre Aramyan e seu paradeiro.

A mensagem foi enviada em fevereiro de 2023, quando a Rússia estava sob medidas restritivas e suas mensagens eram verificadas antes do envio.

Não sabemos ao certo se a mensagem foi encaminhada. Mas, baseado na fonte dos dados, o informante acredita que sim.

A BBC exibiu a Aramyan uma cópia da mensagem. Ele respondeu estar chocado, mas não surpreso.

“Não acho que eles esperassem que a Alemanha enviaria a eles meu endereço, meu número de telefone e me extraditasse”, segundo ele. “Mas eles poderiam conseguir pelo menos algum tipo de pequena informação que ainda seria valiosa para eles.”

O vazamento contém outras mensagens, nas quais uma agência policial estrangeira responde ao pedido de informações enviado por Moscou.

Ela enviou detalhes sobre os movimentos de um aliado de Navalny chamado Lyubov Sobol e do conhecido desertor Gleb Karakulov. A troca de mensagens relativa a Karakulov aconteceu depois que a Interpol anunciou o aumento da sua fiscalização sobre Moscou.

Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova sentados em lados opostos de uma mesa, com uma bandeira russa ao fundo

Crédito, Sputnik/Mikhail Metzel/Pool via REUTERS

Legenda da foto, Um relatório da Interpol afirma que a Rússia solicitou difusões vermelhas para juízes do TPI

A BBC também teve acesso a relatórios internos da Interpol, emitidos entre 2024 e 2025, que demonstram preocupação crescente com as atividades da Rússia, por parte de altos diretores da organização.

Em um deles, uma autoridade sênior manifesta diretamente aos delegados russos “sérias preocupações” sobre o “abuso consciente” dos sistemas da Interpol pelo país. Ele afirma que houve casos de “flagrantes violações” das normas da entidade.

Apesar do aumento das restrições sobre a Rússia, os relatórios demonstram que cerca de 90% dos pedidos do país ainda eram aprovados pelas verificações iniciais em 2024. E também, no mesmo período, a CCF cancelou cerca de metade dos pedidos russos que foram objeto de reclamações.

Estes números levantam dúvidas se as medidas eram suficientemente rigorosas.

Um relatório descreve que, em 2024, a Rússia tentou impor difusões vermelhas a juízes e a um procurador do Tribunal Penal Internacional, quando o organismo emitiu ordens de prisão contra o presidente Putin e a comissária dos direitos das crianças do país, Maria Lvova-Belova, por suas ações em relação à Ucrânia. Os pedidos de Moscou foram rejeitados.

Mesmo com as preocupações sobre o abuso dos sistemas da Interpol pela Rússia, expressas dentro da organização, os relatórios demonstram que havia discussões ocorrendo em 2024 e 2025 sobre a possível retirada de maiores restrições à atividade russa.

Esta questão parece ter se definido a favor de Moscou.

O informante contou à BBC que, em 2025, a Interpol eliminou silenciosamente certas medidas adicionais contra a Rússia. Não se sabe ao certo até onde pode ter ido esta redução das restrições.

Apesar de repetidas solicitações, a Interpol afirmou que não poderia comentar o assunto devido às suas “rigorosas normas de processamento de dados”.

A BBC não conseguiu revelar todos os detalhes do vazamento para a Interpol, pois, para fazê-lo, poderíamos acabar revelando a fonte.

Mas, questionada sobre os pontos levantados pela investigação, a organização manifestou sua “preocupação de que diversas acusações aparentemente vêm de mal-entendidos sobre a forma de funcionamento dos sistemas da Interpol e da CCF ou de erros factuais sobre dados e mudanças dos sistemas da Interpol”.

“Não é verdade que priorizamos a cooperação policial sobre a prevenção de abusos”, declarou a organização.

“A Interpol segue seu regulamento, que proíbe expressamente o uso dos nossos sistemas para informações de caráter predominantemente político, militar, religioso ou racial”.

No passado, a Interpol declarou que pode fazer mais para evitar crimes garantindo que as linhas de comunicação permaneçam abertas.

A BBC solicitou comentários ao Ministério do Interior da Rússia, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Os advogados Yuriy Nemets e Ben Keith concordam que a Interpol deveria fazer mais para evitar o abuso dos seus sistemas.

“Países flagrados abusando dos avisos e difusões vermelhas de forma significativa e persistente deveriam ser suspensos do sistema por um período de tempo”, defende Keith.

Caso contrário, Igor Pestrikov receia que a Rússia, “apertando um botão, possa introduzir qualquer coisa, marcar você com qualquer crime. Isso permite que eles persigam você ainda mais, em todo o mundo.”

Com colaboração de Andreea Jitaru e Ned Davies



Fonte.:BBC NEWS BRASIL

Leia mais

Rolar para cima