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Introdução
A moda do “sol nas partes íntimas” viralizou com promessas de aumento de vitamina D e testosterona. Especialistas da Sociedade Brasileira de Urologia e Febrasgo desmentem os supostos benefícios, alertando para a ausência de provas científicas e os sérios riscos à saúde, como queimaduras e câncer de pele.
- A moda do “sol nas partes íntimas” (períneo e testículos) e suas supostas vantagens virais.
- Por que a ciência desmente o aumento de testosterona com exposição solar nos testículos.
- A ineficácia do “sol no períneo” para vitamina D e a sensibilidade da região.
- Os graves riscos: queimaduras, câncer de pele e impactos na fertilidade masculina.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O ano era 2019. Uma influenciadora estadunidense publica nas suas redes sociais uma foto, no mínimo, chamativa. A jovem está nua, no que parece ser uma montanha, deitada de costas sobre uma grande pedra.
Ela segura as pontas dos pés com as mãos e deixa o sol iluminar as suas partes íntimas. Na legenda, explica que 30 segundos de exposição solar nessa região pode melhorar os níveis de vitamina D, o sono, energia sexual e, até, a criatividade.
A imagem viralizou e deu início à nova era de uma prática que não é exatamente nova. Ela se chama perineum sunning (ou “sol no períneo” — a camada de pele entre os genitais e o ânus) e tem os seus possíveis benefícios discutidos há décadas.
A proposta também não é restrita às mulheres. Aliás, para os homens, existem ainda mais “dicas” do gênero, que apontam que o banho de sol nos testículos pode aumentar os níveis de testosterona.
Em 2026, essas “técnicas” voltaram à tomar a internet. Mas o que realmente se sabe sobre elas? E há vantagens para a saúde? A seguir, entenda cada uma:
Tomar sol nos testículos: há benefícios?
Os defensores do bronzeamento testicular costumam citar um estudo de 1939, que constatou que, em uma pequena coorte de homens com “estados mentais depressivos”, a irradiação UV nos genitais aumentou os níveis de androsterona (um derivado da testosterona) em “quase 200%”.
Mas especialistas destacam que a metodologia dessa pesquisa é questionável e as formas de medir a testosterona naquele tempo eram muitos diferentes das usadas atualmente, que são mais precisas.
“A comunidade científica vê essa análise como um estudo historicamente interessante, mas fraco para guiar conduta em 2026, não sendo base confiável para recomendar exposição genital ao sol nos dias de hoje“, explica Gustavo Marquesine Paul, coordenador do Departamento de Andrologia, Reprodução e Sexualidade da Sociedade Brasileira de Urologia.
Além dessa pesquisa um tanto ultrapassada, existem, de fato, estudos que sugerem que a exposição aos raios do astro-rei pode afetar os níveis de hormônios sexuais. Mas as análises ainda carecem de maior comprovação e, de todo modo, partem de propostas bem diferentes da ideia de colocar os genitais para tomar sol diretamente.
“O que temos hoje são duas linhas de informação que acabam sendo misturadas na internet“, menciona Paul.
A primeira diz respeito a alguns estudos populacionais que sugerem que passar mais tempo ao ar livre pode estar associado a níveis mais altos de testosterona e menor prevalência de testosterona baixa.
A segunda envolve estudos experimentais que mostram que a pele, quando exposta à radiação solar ultravioleta (UVB), pode participar de sinalizações que repercutem no eixo hormonal.
“Mas isso não equivale a dizer que expor especificamente a região genital ao sol traga algum ganho adicional, e muito menos que seja algo recomendável“, orienta o urologista. “O que existe de concreto para ‘sol nos testículos’ é que não existem evidências científicas de benefício nesse sentido”, completa.
Mesmo assim, nas redes sociais, até mesmo celebridades mostram já ter aderido à técnica, como o DJ e produtor musical norte-americano Diplo.

Vale também mencionar que, inicialmente, parte do discurso pró bronzeamento dos testículos recomendava a exposição da região não ao sol, mas à terapia com luz vermelha (RLT, na sigla em inglês), um tratamento não invasivo que utiliza comprimentos de onda de luz vermelha/infravermelha na pele.
Em teoria, essa seria uma forma de obter os supostos benefícios com mais segurança, já que a luz solar tem vários comprimentos de onda — incluindo ultravioleta (UV), que pode causar danos como fotoenvelhecimento e câncer de pele — e não é controlada.
No entanto, segundo Paul, não existe, hoje, evidências científicas que justifiquem a recomendação de RLT para elevar a testosterona em homens.
“Revisões recentes sobre terapias alternativas em saúde masculina descrevem resultados hormonais não significativos com “light therapy” e, na prática, o tema ainda está mais no campo do marketing do que da evidência robusta para esse desfecho”, explica.
E o sol no períneo e na vulva?
“A ideia de expor a região genital diretamente ao sol, como a vulva e o períneo, carece de qualquer comprovação científica e, ao contrário do que se propaga, não oferece benefícios adicionais à saúde, trazendo riscos significativos“, afirma a ginecologista Neila Maria de Góis Speck.
Speck é vice-presidente da Comissão Nacional Especializada do Trato Genital Inferior da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Segundo ela, a pele da vulva, do ânus e do períneo é extremamente fina e sensível, o que oferece riscos. Além disso, diferente daquilo que a trend prega, essas áreas não são “especializadas” em produzir mais vitamina D do que a pele de outras partes do corpo, como braços, pernas e costas.
É que a produção de vitamina D ocorre quando a pele é exposta aos raios UVB, sem importar muito onde.
Para a maioria das pessoas, expor áreas maiores e mais resistentes do corpo por um curto período (cerca de 10 a 30 minutos, algumas vezes por semana, dependendo do tom de pele e da intensidade do sol) é suficiente para atingir os níveis necessários.
De acordo Speck, a crença no perineum sunning parece ser “uma mistura de pseudociência com conceitos retirados de práticas esotéricas” somadas à uma interpretação equivocada de tradições antigas, como o taoísmo.
Por isso, ela crava: “não há nenhuma evidência científica que sugira que a região genital seja um ponto “energético” ou mais eficiente para essa absorção [de vitamina D]”.
Quais os riscos do sol nas partes íntimas?
“Os riscos são consideráveis e superam em muito qualquer suposto benefício”, afirma Speck.
Isso porque, como visto, a pele da região genital é uma das mais finas e sensíveis do corpo, além de não ser adaptada à exposição solar. Por isso, submetê-la ao calor do astro-rei pode trazer uma série de prejuízos.
Para os homens, do ponto de vista reprodutivo, há um ponto importante: no corpo humano, segundo Paul, os testículos ficam fora do abdome porque precisam de temperatura mais baixa.
“Aquecer demais a bolsa escrotal pode piorar a espermatogênese [produção de espermatozóides] então a prática pode ser contraproducente para quem se preocupa com fertilidade”, explica o urologista.
Além disso, das regras que valem para todo mundo, o primeiro e mais imediato perigo é o de queimaduras. “O risco é altíssimo“, avalia Speck.
No longo prazo, a conta pode ser ainda mais séria. A exposição à radiação UV sem proteção é o principal fator de risco para o câncer de pele, incluindo o do tipo melanoma (forma mais agressiva da doença).
A prática também pode levar ao envelhecimento precoce da pele, já que, de forma cumulativa, os raios promovem perda de colágeno, podendo causar flacidez da pele na região genital.
Por fim, Paul chama a atenção para o perigo indireto de se distrair com “atalhos” e adiar a avaliação adequada quando há sintomas de doenças que podem estar afetando a saúde reprodutiva, como o hipogonadismo (quadro de baixa produção de testosterona em homens), obesidade, diabetes e outros.
A luz solar contribui para os níveis hormonais?
“A exposição solar de forma geral e segura tem um papel importante na saúde hormonal, principalmente através da produção de vitamina D”, explica Speck.
A vitamina D, ao ser absorvida, se transforma em calcitriol, que é sua forma ativa. Daí, alguns cientistas defendem que ela pode estar mais para um hormônio multifuncional ou um “pró-hormônio” do que uma vitamina apenas.
Isso porque ela faz e acontece no organismo.
Os hormônios são mensageiros químicos produzidos pelas próprias glândulas do corpo para regular funções como metabolismo, crescimento e humor. Daí, a vitamina D… ou, melhor, o calcitriol… já demonstrou ter diversos efeitos benéficos, seja sobre o sistema imunológico, cardiovascular, endócrino, entre outras vias metabólicas.
Ela pode ajudar, até mesmo, na saúde reprodutiva feminina.”Estudos sugerem que níveis adequados de vitamina D estão associados a uma melhor fertilidade e podem ter um papel na regulação de condições como a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP)“, diz a ginecologista da Febrasgo.
A exposição à radiação solar também pode influenciar a produção de serotonina, um neurotransmissor que regula o humor, a saúde óssea e a modulação da reposta imune. “Portanto, obter vitamina D através da exposição solar segura (em áreas como braços e pernas) ou suplementação (quando indicada por um médico) é, sim, benéfico para o equilíbrio hormonal geral“, destaca Speck.
Os dermatologistas, contudo, recomendam muita moderação nessa exposição. Clique aqui para saber mais sobre o assunto.
Fonte.:Saúde Abril


