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1 de março de 2026

Stablecoins: bem-vindos ao novo mundo da tokenização – 01/03/2026 – Roberto Campos Neto

Stablecoins: bem-vindos ao novo mundo da tokenização – 01/03/2026 – Roberto Campos Neto

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O mundo das finanças passa por uma transformação que promete redesenhar o sistema financeiro: a tokenização de ativos. No centro dessa mudança estão as stablecoins, que funcionam como uma ponte mais homogênea entre o dinheiro tradicional e o ecossistema digital emergente. Quando se negocia um token, é muito mais eficiente que exista um dinheiro que interaja com ele, criptografado da mesma forma e igualmente programável.

Os criptoativos não são lastreados em ativos de referência nem oferecem remuneração e, por isso, tendem a apresentar maior volatilidade. Já as stablecoins são lastreadas em ativos de alta liquidez e baixo risco. Esse lastro lhes confere maior previsibilidade e as torna instrumento privilegiado de liquidação, transferência e conexão com aplicações em plataformas baseadas em blockchain. A esmagadora maioria das stablecoins —99%, segundo o BIS— é atrelada ao dólar.

Os dados ainda são fragmentados, mas observa-se um crescimento acelerado do uso de criptoativos em economias emergentes. Em alguns países da América Latina, seu uso tem registrado crescimentos acumulados da ordem de 300% em períodos recentes. As stablecoins dominam esse fluxo. No Brasil, cerca de 90% desse volume é composto por stablecoins.

Mas o que explica esse crescimento? As stablecoins estão sendo usadas predominantemente como instrumento transacional —para facilitar operações no ambiente digital— ou como reserva de valor? Para responder, é preciso observar o que acontece após sua aquisição. Evidências sugerem que o giro (turnover) das stablecoins na economia é significativamente menor do que o de outros meios de pagamento, indicando uso relevante como reserva de valor.

Hoje, qualquer pessoa pode entrar em uma plataforma digital e comprar stablecoins em poucos minutos. Já manter recursos em moeda forte, como o dólar, em países cuja moeda não é conversível envolve burocracia, custos e restrições. Por isso, verifica-se que a procura por stablecoins tende a ser maior quanto menor é a conversibilidade da moeda, maior sua volatilidade e o risco de controles de capitais, e menor a credibilidade da política monetária —algo refletido, por exemplo, em prêmios de risco elevados ou maior inclinação da curva de juros. Em síntese, a demanda por stablecoins em economias emergentes está associada ao desejo —e à facilidade— de acessar o dólar.

Mas quais são os casos de uso das stablecoins hoje? Observa-se o surgimento acelerado de carteiras digitais que conectam o mundo cripto ao sistema financeiro tradicional. As stablecoins exercem papel central nessa integração. Também ganham espaço em transferências internacionais, especialmente pela rapidez e pelo menor custo. Além disso, começa a ganhar escala a conexão entre moeda programável e sistema bancário tradicional — como na possibilidade de carregar um cartão de débito com ativos digitais para compras no varejo.

Mas o fenômeno vai além. Assistimos a uma expansão acelerada da tokenização. Parte relevante dos ativos físicos e financeiros tende a ser convertida em formatos tokenizados, com ganhos de eficiência na intermediação. A tokenização oferece maior transparência, segurança, colateralização, atomicidade e programabilidade. A integração crescente entre inteligência artificial, open finance e tokenização promete transformar profundamente o sistema bancário, com impactos sobre eficiência e inclusão.

Ainda não sabemos quem serão os protagonistas desse novo arranjo nem quem deterá a relação com o cliente bancário. Torna-se cada vez mais evidente, contudo, que agentes de IA passarão a operacionalizar parte relevante da vida financeira das pessoas. Bancos poderão manter ativos e passivos em tokens, e não apenas em contas tradicionais. Como consequência, vislumbramos que as stablecoins cresçam rapidamente nos próximos anos e passem a integrar o cotidiano financeiro das pessoas.

Nesse movimento, emergem dois grandes riscos. O primeiro é a dolarização gradual de economias menores por meio das stablecoins, com consequente perda de potência da política monetária. Se residentes passam a poupar e transacionar crescentemente em moeda estrangeira digital, reduz-se a capacidade do banco central de influenciar liquidez, crédito e ciclos econômicos por meio da taxa de juros doméstica. O segundo risco é a desintermediação bancária. A migração de recursos para stablecoins e o crescimento de carteiras digitais podem reduzir a base de depósitos, tradicional fonte de financiamento do crédito, elevando o custo de captação e limitando a concessão de crédito.

Precisamos, portanto, de instrumentos que permitam a concessão de crédito com base em ativos digitais. Em outras palavras, é necessário viabilizar a oferta de crédito em moedas programáveis. Esse modelo é conhecido como tokenized deposits (depósitos tokenizados). Curiosamente, o desenho do Drex foi concebido exatamente para enfrentar esse desafio. Ao estruturar a solução de depósito tokenizado já em 2022, o Banco Central antecipou um problema que agora começa a se materializar.

Além disso, em termos regulatórios, é preciso avançar na segregação de contas e de colaterais. Ou seja, quando uma pessoa compra determinado valor em stablecoins, deveria ser possível que ela verificasse, em uma conta, o valor das stablecoins registradas em seu nome e, em outra, o valor do colateral correspondente igualmente registrado em seu nome. Isso aumenta significativamente a transparência e a confiança nesse mercado.

Em síntese, a tokenização entrou em fase de aceleração, impulsionada também por mudanças regulatórias nos Estados Unidos. O avanço da inteligência artificial sugere que softwares complexos poderão ser produzidos de forma mais simples e barata, enquanto agentes de IA passarão a conhecer melhor os usuários e influenciar sua vida financeira. Ainda não está claro como os bancos e seus produtos se posicionarão nesse novo ecossistema, nem qual será a interface dominante com o cliente. O fluxo financeiro tende a se tornar mais rápido, operando sobre infraestruturas em blockchain. Esse cenário exigirá reguladores tecnologicamente mais preparados e com recursos adequados. O dinheiro será cada vez mais programável, e a política monetária terá de se adaptar. Bem-vindos ao novo mundo da tokenização.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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