Os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) abriram nesta quarta-feira (8) uma discussão sobre a possibilidade de manter o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, como governador interino do Rio de Janeiro ao menos até outubro, quando serão realizadas eleições para o Palácio Guanabara.
A possibilidade foi levantada pelo ministro Cristiano Zanin no momento em que votou a favor das eleições diretas para a definição do governador-tampão do estado, que concluiria o mandato em dezembro.
O ministro Luiz Fux apresenta neste momento o seu voto sobre o tema. O julgamento deve continuar nesta quinta-feira (9).
“Há uma questão remanescente que poderemos também discutir ao longo dos debates, que seria a realização imediata, a prevalecer esse entendimento, de eleições diretas, ou se pensaríamos uma outra hipótese, de eleição única, mas sempre de eleição direta”, disse Zanin.
“Aí nós poderemos definir o formato das eleições diretas, se elas ocorrerão agora e também em outubro, ou se faremos apenas uma eleição. E aí teremos que definir a permanência do presidente, eventual permanência do presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no cargo.”
O ministro Alexandre de Moraes afirmou que resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) prevê a possibilidade de “unificar em uma única eleição ordinária”.
“Deixei em aberto para que possamos chegar a essa conclusão, inclusive à luz do que dispõe a resolução”, disse ele, sem que tenha apresentado voto sobre no julgamento.
O plenário do Supremo começou a julgar nesta quarta a reclamação proposta no Supremo pelo PSD-RJ, do ex-prefeito Eduardo Paes, pré-candidato a governador, pedindo a realização de eleições diretas.
O argumento é que a renúncia de Castro na véspera do julgamento do TSE, em março, foi uma manobra para evitar a eleição direta, que poderia ser determinada pelo tribunal em caso de cassação no julgamento em que o ex-governador foi condenado.
A Constituição fluminense prevê eleição indireta, pelos deputados estaduais, caso a dupla vacância dos cargos de governador e vice ocorra sem condenação eleitoral. O estado está sem vice-governador desde o ano passado, quando Thiago Pampolha renunciou para assumir uma cadeira no TCE (Tribunal de Contas do Estado).
Zanin concordou com a tese do partido. “É evidente que a renúncia do ex-governador Cláudio Castro foi realizada em uma tentativa de burla às consequências do julgamento que foi realizado no Tribunal Superior Eleitoral”, disse.
Moraes ainda não votou, mas indicou acompanhar Zanin. “O próprio então governador dizia que iria renunciar na data limite, ou seja, 4 de abril. […] Qual a razão da renúncia [no dia 23 de março]? Razão eleitoral. Não é razão de desincompatibilização, a razão foi eleitoral, evitar a cassação.”
O advogado Thiago Boverio, representando o PSD, afirmou em sustenação oral na tribuna do STF que a eleição indireta não deve ser realizada porque “o Rio de Janeiro vitou Gotham City”.
“Se for realizada eleição em Gotham City indireta, é mais facil elegerem o Coringa do que o Batman. A situação é complicada.”
A permanência de Couto até outubro foi sugerida pelo advogado Gustavo Schmidt, também representante do PSD-RJ. Ele afirmou que o desembargador teria um papel de “assegurar paridade de armas sem abuso de poder e sem abuso do uso de máquina publica” nas próximas eleições.
“Se não for viável a realização de eleições diretas no curto prazo, que se pense na possibilidade do STF reconhecer a procedência da reclamação, mas modulando os efeitos da decisão, permanecendo o presidente do TJ-RJ como governador interino até lá. O papel do presidente do Tribunal de Justiça não é de governador típico. É um papel de transição, de resgate”, disse Schmidt.
A permanência de Couto foi proposta inicialmente por Moraes ao votar em favor da eleição direta no julgamento sobre a lei que estabelece as regras de eleições indiretas. Na ocasião, a proposta é que ele permanecesse até a realização de novo pleito.
A decisão de manter Couto é vista por deputados da base de Castro e até, sob reserva, de aliados de Paes como uma “intervenção branca” do STF no Rio de Janeiro. Isso porque a Assembleia deve eleger um novo presidente ainda este mês, nome que estaria à frente do desembargador na linha sucessória, segundo a Constituição fluminense.
O governo estadual não está, neste momento, sob comando do presidente da Alerj porque a titularidade do cargo está vaga desde dezembro, quando Rodrigo Bacellar (União Brasil) foi preso sob suspeita de vazar informações de uma operação contra o ex-deputado TH Joias, suspeito de ligação com o Comando Vermelho.
O deputado Guilherme Delaroli (PL), vice-presidente da Alerj, assumiu provisoriamente a presidência da Casa, mas não pode assumir o Palácio Guanabara por não ser o titular do cargo. Por este motivo, o governo está sob responsabilidade de Couto, presidente do TJ-RJ e último na linha sucessória prevista na Constituição fluminense.
A eleição para presidência da Alerj vai ocorrer porque Bacellar foi cassado no mês passado pelo TSE no mesmo processo que condenou Castro. Com o comando da Casa oficialmente vago —antes ele estava apenas afastado— a eleição deve ocorrer na segunda quinzena de abril, após o TRE oficializar a nova composição da Assembleia após a anulação dos votos de Bacellar.
O PSD defende a manutenção de Couto por vislumbrar a eleição do deputado estadual Douglas Ruas (PL), pré-candidato ao governo, para o comando da Alerj, onde a base de Castro tem ampla maioria.
Ruas venceu a disputa no mês passado, mas a eleição foi anulada pela Justiça porque foi realizada antes da recontagem dos votos após a cassação de Bacellar. A retotalização, feita na semana passada, não alterou a composição da Casa, mas a tumultuada sessão levou Moraes a ver uma “insegurança jurídica reinante em relação à chefia do Poder Legislativo estadual”.
Fonte.:Folha de S.Paulo


