8:43 PM
29 de março de 2026

Surto de meningite B no Reino Unido: por que o Brasil deve se preocupar

Surto de meningite B no Reino Unido: por que o Brasil deve se preocupar

PUBLICIDADE



Ler Resumo

O surto de meningite B registrado no Reino Unido nas últimas semanas deveria ser visto pelo Brasil como um espelho incômodo.

Quando um país com tradição em vigilância epidemiológica e organização vacinal volta a lidar com casos concentrados entre adolescentes e adultos jovens, o que está em jogo não é apenas a força de uma bactéria agressiva, mas a persistência de uma brecha de proteção em uma faixa etária que costuma passar à margem do debate sobre imunização.

A meningite é uma inflamação das meninges, membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal, e pode ter diferentes causas, como vírus, bactérias, fungos e até mecanismos autoimunes. Entre essas possibilidades, a forma bacteriana está entre as mais graves. A evolução é extremamente rápida e o potencial devastador. Em questão de 24 a 48 horas, o quadro pode avançar para sequelas neurológicas graves, amputações e morte.

A Neisseria meningitidis – bactéria responsável pela infecção – pode permanecer alojada na nasofaringe sem provocar sintomas até encontrar circunstâncias propicias e invadir a corrente sanguínea e desencadeando doença meningocócica invasiva. E essa é justamente a parte da história que mais deveria nos interessar.

Jovens no centro da transmissão da doença

A situação epidemiológica britânica guarda semelhanças importantes com a brasileira. Muitos dos jovens atingidos hoje no Reino Unido não receberam proteção contra o meningococo B na infância, afinal as primeiras vacinas contra a meningite B surgiram no início da segunda década dos anos 2000.

Continua após a publicidade

O resultado é uma lacuna imunológica justamente em um grupo com alta circulação social, maior chance de transmissão e, em situações específicas, risco aumentado de adoecimento.

A dinâmica de circulação da bactéria passa com força pelos adolescentes e adultos jovens, que costumam carregar o micro-organismo sem sintomas e o disseminam em ambientes de proximidade intensa. É justamente por isso que surtos em universidades, internatos, alojamentos e grandes centros urbanos exigem atenção especial.

O imaginário coletivo ainda associa meningite quase exclusivamente à infância, como se fosse um problema restrito aos primeiros anos de vida. Em parte, isso faz sentido. Crianças pequenas, especialmente as menores de 5 anos, estão entre os grupos mais vulneráveis. Mas, como já vimos de perto em outras epidemias, o problema não está apenas em quem adoece, mas também em quem transmite sem saber.

Continua após a publicidade

+Leia também: 10 gráficos para entender a crise na vacinação brasileira

Brasil também enfrenta lacuna vacinal

O que a situação na Europa expôs agora foi a combinação entre bactéria circulante, grupo suscetível e lacuna de proteção. E o Brasil não está em posição confortável para assistir a esse debate de fora.

Dados do Dados do Centro Nacional de Inteligência Epidemiológica e Vigilância Genômica, do Ministério da Saúde mostram que, no último ano, o país registrou 13,2 mil casos confirmados de meningite, dos quais 5,6 mil tiveram origem bacteriana. Dentro desse universo, 1,13 mil foram atribuídos ao meningococo, com sorogrupo B na liderança.

Por isso, não deveríamos esperar um episódio semelhante para reagir. Embora nosso Programa Nacional de Imunizações (PNI) seja um dos mais robustos do mundo, hoje ele ainda não contempla a proteção contra o meningococo B, disponível na rede privada no Brasil desde 2015.

Continua após a publicidade

Diante deste cenário, estamos frente a necessidade de ampliar a informação e trazer o tema para mais perto de famílias e comunidade médica. A situação epidemiológica da meningite B exige decisões preventivas conscientes, sempre à luz da realidade, da avaliação individual de risco e das possibilidades de proteção acessíveis em cada contexto.

Negligenciar a doença, neste momento, é insistir em olhar para o problema com uma lente antiga, enquanto a epidemiologia já mudou.

* Helio Magarinos Torres Filho, patologista clínico, diretor médico do Richet Medicina e Diagnóstico



Fonte.:Saúde Abril

Leia mais

Rolar para cima