CRÍTICA | SP
Tica Pizza
Quatro estrelas (muito bom)
R. Clodomiro Amazonas, 1.216, Itaim Bibi, região oeste. @ticapizza
Quando cheguei, nada indicava que a pizza do Tica entraria na lista das minhas preferidas da cidade. O modesto salão de 16 lugares estava vazio. No forno, apenas alguns pedidos do delivery. O papel de parede, um relógio e um telefone antigo esforçavam–se para remeter a uma casa de vó —o símbolo da casa é o rosto rabugento e enrugado de uma velha italiana. O cardápio, todo escrito numa imitação de letra cursiva, dava trabalho de ler.
Os valores saltaram aos olhos. A pizza, individual e no estilo napolitano, custa entre R$ 66 (a de muçarela) e R$ 87 (a de presunto cru com stracciatella). Com essas primeiras impressões e a constatação dos preços salgados, fiz os pedidos à única e animada atentou bem. Além de molho de tomate, muçarela artesanal e rodelas de abobrinha, essa opdente, sem muitas expectativas.

Pizza nduja, do Tica
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Folhapress/Priscila Pastre
A sensação começou a mudar quando observei o pizzaiolo na cozinha aberta. Com movimentos delicados usando a ponta dos dedos, ele manuseava corretamente a massa de fermentação lenta. Chamou a atenção o esmero que dedicava ao preparo delas, longe do piloto-automático.
Na hora de servir, a atendente entrega a redonda num prato e uma avantajada tesoura. Nada de talheres, toalha, sousplat ou jogo americano. A ideia é que cada um corte a própria pizza e coma com as mãos. Dizem que o uso da tesoura serve para mostrar melhor os alvéolos (que são as bolhas resultantes da fermentação). Na prática, não me pareceu fazer uma diferença significativa. Mas revelou-se uma atividade surpreendentemente prazerosa.
A primeira pizza que provei foi a zucchini (R$ 71). Estava tão suculenta que achei que não conseguiria dobrar o pedaço sem que a base ficasse encharcada. Mas ela se manteve firme e aguenção recebe stracciatella e folhas de hortelã. Foi um dos melhores e mais equilibrados sabores de pizza que eu já provei.
A marguerita (R$ 66) é devidamente preparada com muçarela fior di latte (queijo fresco de massa filada, que rende uma textura mais elástica) e manjericão fresco. Básica e gostosa, revelou o sabor rico em umami do molho de tomate da casa.
Na nduja (R$ 79), a combinação da marguerita recebe o salame típico da Calábria que dá nome a ela. Avermelhado, de textura pastosa e gosto defumado, ele é distribuído sem exageros. Na medida para não roubar a cena dos demais ingredientes. A finalização com mel levemente apimentado deixou sabor e textura redondos na boca.
A massa das pizzas estava macia, elástica e com certa crocância nas laterais. As bordas eram altas o suficiente para serem apreciadas, mas não enormes a ponto de intimidar a cobertura e querer dominar o mundo.
De sobremesa, pedi cannolo siciliano (R$ 18), descrito no cardápio como “extremamente crocante”. O recheio de ricota estava suave, fresco, pouco doce. Pena que a massa, aparentemente frita com muita antecedência, estava longe da crocância prometida.
Perguntei sobre a história do lugar para a atendente. Todas as respostas eram envoltas pela figura mítica daquela velhota ranzinza: “A vecchia quer que o salão seja pequeno”; “Dizem que a vecchia mora naquela portinha que fica sempre fechada”; Ou ainda: “Todas as receitas têm de ser do jeito da vecchia, senão…”
Mas a lenda parece só uma tentativa infrutífera de atribuir algum charme ao ambiente. No fim, o que Tica tem a oferecer é uma das melhores pizzas da cidade, sem qualquer outro atrativo. Se você é um amante de pizza, isso pode ser o bastante.
Fonte.:Folha de São Paulo


