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18 de junho de 2026

Tirana, capital da Albania, intensifica turismo depois de décadas de ditadura – 17/06/2026 – Turismo

Tirana, capital da Albania, intensifica turismo depois de décadas de ditadura – 17/06/2026 – Turismo

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Há uma sensação de vida nas ruas em plena terça-feira, por volta das 23h, em Tirana, capital da Albânia, pequeno país europeu com cerca de 3 milhões de habitantes, à beira do mar Adriático. Os bares cheios de locais mostram que a Albânia ainda está naquele meio-termo em que restaurantes, cafés e lojas começam a pipocar, mas ainda não se tornou mais uma vítima do turismo predatório, como muitas outras capitais do continente.

“Dez anos atrás não existia nada disso”, comenta o chef Ndoc Shtjefni, nome por trás do restaurante N’Tinga, aberto há menos de um ano com cozinha especializada em massas frescas combinadas com frutos do mar.

O recente boom de novos lugares, como o N’Tinga, acompanha o fim da ditadura comunista que governou o país por mais de quatro décadas até o início dos anos 1990. Shtjefni fala entusiasmado sobre essa nova fase e conta como o seu cardápio reverbera a mudança dos tempos.

A explicação está na história recente do país. O regime comunista priorizava a agricultura e a pecuária para a produção em massa de alimentos básicos tabelados. Não havia diversidade. Diante disso, frutos do mar frescos eram vistos como artigos de luxo, típicos da Itália ou da Grécia, países considerados inimigos ideológicos e notórios abrigos para emigrantes da Albânia.

Soma-se a isso o isolamento imposto pelo regime, que agravava a situação. Barcos de pesca eram vistos como potenciais rotas de fuga para o exterior e, por isso, tinham seu uso restringido ou até proibido. Na prática, além de não consumir peixe, a população não podia nem sequer frequentar as praias.

Com a abertura econômica e o acesso a ingredientes antes raros, Shtjefni se orgulha de servir um cappelletti de tinta de lula recheado com o próprio molusco e ricota, finalizado com um molho agridoce de laranja (R$ 47). Segundo o chef, é uma maneira de resgatar hábitos alimentares anteriores à ditadura e também de buscar referência na Itália, país vizinho que influenciou fortemente a cultura albanesa.

Essa valorização da culinária local aparece também no Mullixhiu, à beira do lago artificial do Grande Parque, ao sul da cidade. Ali, uma das receitas do chef e dono Bledar Kola é a truta cozida com ervas e vinho kallmet, uma variedade de uva nativa do país.

Kola afirma que o uso do kallmet está dentro da proposta do restaurante, que busca ingredientes locais e preparações típicas albanesas. O menu degustação custa o equivalente a R$ 180 e inclui ainda clássicos da culinária nacional, como a ali pasha, uma sopa com almôndegas de carne, arroz e ervas, e o qifqi, um tipo de bolinho de arroz com ovos. Kola recomenda o vinho da casa, invariavelmente um rótulo albanês, mas que varia de acordo com a estação do ano e a vontade do chef.

O ressurgimento da gastronomia albanesa caminha lado a lado com o crescimento da viticultura local e vem vencendo o preconceito da população.

“Antigamente, só se achava que os vinhos italianos eram bons. Hoje mudamos essa imagem”, diz Muharrem Çobo, um dos donos da vinícola que leva seu sobrenome e do restaurante Shendeverë, onde vende seus rótulos, que custam entre R$ 120 e R$ 1.680. A casa fica dentro do Castelo de Tirana, construção remanescente da era bizantina e uma das atrações turísticas da capital.

Dali, é fácil explorar outros marcos da cidade, como a praça Skanderbeg e o museu Bunk’Art 2.

A praça recebeu esse nome em 1968, em homenagem ao herói nacional albanês Skanderbeg, que liderou uma rebelião contra o Império Otomano no século 15. É mais uma das políticas nacionalistas do regime da época. Entre os prédios que a cercam, chama a atenção um cuja fachada reproduz o rosto de Skanderbeg.

Já o museu, instalado em um das dezenas de milhares de bunkers construídos na ditadura, conta a história desse período no país.

Se, por um lado, a ausência de um turismo voraz ainda preserva certa originalidade na cidade, por outro, deixa nítida a falta de museus e outras atrações para quem quer passar alguns dias por lá. Em maio, por exemplo, a Galeria Nacional de Artes estava fechada para reforma, assim como o Museu Histórico Nacional. Este reabre em março de 2028, enquanto o primeiro ainda não tem data para voltar.

O jeito, então, é caminhar pelos bairros de Tirana, e poucos lugares ajudam tanto a entender as transformações da cidade quanto Blloku, antigo bairro reduto da elite do partido comunista.

Durante a ditadura, o bairro era uma área residencial restrita aos membros do governo. Os albaneses comuns, por exemplo, não tinham permissão para andar ali.

Nas últimas décadas, porém, com a abertura do país e mudanças governamentais, a região nobre se transformou no principal polo de vida noturna da cidade, com alguns dos melhores bares, como o Nouvelle Vague e o Spy Speakeasy.

Sofokli Cali, um dos donos do Nouvelle Vague, é a cara dessa nova geração que está reconstruindo Tirana dentro do bairro do momento. Filho de exilados do regime, Cali, que nasceu na Grécia, retornou ao seu país para montar um bar de drinques autorais com ingredientes tradicionais.

O raki, destilado de uvas, e um vinho fortificado feito com uvas kallmet, as mesmas usadas na cozinha do Mullixhiu, compõem a versão de Cali para um negroni, o Deviated Negroni (R$ 54).

A poucas quadras dali, o Spy se dedica aos clássicos. O bar tem ares de secreto e faz questão de deixar os clientes esperando alguns minutos antes de abrir a porta que leva para o subsolo, onde fica o bar.

Antes de ir embora, passe pelo Oda Garden, onde a música folclórica ao vivo acompanha uma seleção de pratos típicos, ou pelo Te Shefat, especializado em carnes. São endereços que ajudam a entender o momento de Tirana, uma pequena cidade milenar que redescobre suas tradições enquanto constrói uma nova identidade.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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