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9 de janeiro de 2026

Toxina em produtos da Nestlé: o que é a cereulide e quais sintomas ela pode causar

Toxina em produtos da Nestlé: o que é a cereulide e quais sintomas ela pode causar

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou nesta quarta-feira (7) a suspensão de lotes de fórmulas infantis da Nestlé. A decisão atinge produtos bastante conhecidos por quem tem bebês em casa, como os das linhas NAN, Nestogeno e Alfamino.

Antes mesmo da medida da autarquia brasileira, a própria empresa já havia iniciado um recolhimento voluntário dos produtos em mais de 20 países. O freio veio após a identificação de um risco potencial de contaminação por cereulide, uma toxina produzida pela bactéria Bacillus cereus.

Essa substância provoca sintomas gastrointestinais, como náuseas e vômitos — daí a decisão pelo recall preventivo. Segundo a Nestlé, o problema foi detectado em análises de rotina feitas no controle de qualidade. 

No Brasil, a medida suspende temporariamente a venda de lotes das marcas Nestogeno, NAN Supreme Pro, NANLAC Supreme Pro, NANLAC Comfort, NAN Sensitive e Alfamino. A orientação é que eles não sejam utilizados até nova comunicação das autoridades sanitárias. A lista de lotes proibidos está disponível no site oficial da Nestlé.

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Mas, afinal, o que é a cereulide? VEJA SAÚDE conversou com especialistas e explica quem é essa toxina, quais sintomas podem surgir após a ingestão de alimentos contaminados, como reduzir o risco de exposição e quais medidas devem ser adotadas em casos de intoxicação:

O que é Bacillus cereus?

O Bacillus cereus é uma bactéria muito comum. “Ela está presente no ambiente, no chão, em superfícies, nos alimentos… enfim, em todos os lugares. E nós consideramos impossível erradicá-la completamente“, explica o infectologista Renato Grinbaum, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

É difícil impedir a sua presença no ambiente porque essa bactéria é dura na queda, graças aos seus esporos — uma espécie de casca protetora — que lhe permitem sobreviver por mais tempo mesmo em temperaturas extremas.

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Consequentemente, a B. cereus pode contaminar vários alimentos, como carne bovina, peru, arroz, feijão e vegetais. “Todo e qualquer alimento vai ter um pouquinho dessa bactéria“, alerta o infectologista.

Mas Grinbaum tranquiliza quanto ao seu risco à saúde. “As bactérias Bacillus cereus, em geral, não produzem grandes complicações”, diz.

O problema maior, segundo o especialista, está na abundância. Ingerir esses microrganismos em grande quantidade pode ser prejudicial, não exatamente pela bactéria em si, mas principalmente por causa das toxinas que ela pode produzir. Uma delas é a cereulide.

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Outro alerta é que a Bacillus cereus se multiplica rapidamente em alimentos fora da geladeira. Então, é fácil chegar a esse cenário mais preocupante.

Além disso, há um adendo importante: apesar de ser resistente, a fervura ainda pode matar esse microrganismo, no entanto, não elimina a toxina. Por isso, é muito importante tomar medidas (que explicaremos abaixo) para impedir que uma proliferação significativa se instaure.

O que acontece ao ingerir um alimento contaminado?

A ingestão de alimentos contaminados pelo Bacillus cereus pode levar, em geral, a dois tipos de quadros distintos: diarreia (sem outros sintomas) ou síndrome no trato gastrointestinal superior (isto é, com náuseas e vômitos, mas sem “dor de barriga”).

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Isso depende do que foi consumido: a bactéria viva ou a toxina que ela produziu. No primeiro caso, quando o alimento contém uma grande quantidade de bactérias ativas, elas conseguem atravessar o estômago e se multiplicar no intestino. Assim, a toxina é produzida dentro do corpo.

O resultado é um quadro de diarreia aquosa. Os sintomas surgem, geralmente, entre 6 e 15 horas após o consumo de alimentos que ficaram em temperatura ambiente por mais de duas horas.

Carnes, leite, vegetais e peixes estão entre os alimentos mais associados a esse tipo de manifestação. A intensidade varia, mas, em episódios mais fortes, pode haver desidratação.

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Já no segundo cenário, o problema é a toxina formada no alimento antes mesmo de ser ingerido. É o caso da cereulide. Aqui, os sintomas aparecem mais rápido — geralmente entre uma e seis horas — e se manifestam sobretudo como náuseas e vômitos intensos, quase sempre sem diarreia.

Esse tipo de intoxicação é mais comum após o consumo de alimentos ricos em amido, como arroz, massas, batatas e alguns queijos.

+Leia também: O que ocorre numa intoxicação alimentar?

A infecção pode matar?

Não. Apesar de bastante desconfortável, esse quadro costuma ser curto e tende a se resolver espontaneamente em até 24 horas.

“O risco maior é a desidratação pelo vômito ou pela diarreia”, explica Albert Bousso, diretor e pediatra do Hospital Infantil Darcy Vargas, unidade pública gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita (SP). Por isso, manter uma ingestão adequada de líquidos é primordial.

“Esses sintomas devem ser observados com muita atenção pelos pais e pelos familiares. Uma vez identificados, o médico deve ser notificado”, diz o pediatra.

Apenas em situações muito raras, especialmente em pessoas com o sistema imunológico comprometido, a infecção por Bacillus cereus pode evoluir para formas mais graves, como infecção generalizada (sepse) ou acometimento dos olhos, com risco de perda da visão.

Por que crianças correm maior risco?

Apesar do baixo risco no caso da Bacillus cereus, os pequenos são mais vulneráveis às reações desagradáveis das intoxicações alimentares em geral. Isso se deve ao fato de que eles têm o sistema imunológico em desenvolvimento, corpos menores e metabolismo mais rápido.

Entre os bebês, perdas rápidas de líquidos por vômitos podem causar desequilíbrios importantes em pouco tempo.

De acordo com um relatório global da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma em cada 10 pessoas adoecem a cada ano a partir da ingestão de alimentos contaminados, enquanto 420 mil morrem por essas doenças. Segundo a entidade, destas, as crianças menores de 5 anos correm um risco particularmente elevado e 125 mil morrem anualmente por doenças transmitidas por alimentos

Como reduzir o risco de exposição

Segundo Grinbaum, seja na indústria, restaurantes ou em casa, é preciso focar na cocção e no resfriamento rápido dos alimentos. Afinal, quanto mais tempo a comida permanece em temperatura inadequada, maior a chance de formação de esporos e toxinas.

Assim, a regra é: quanto menos tempo o alimento ficar fora da geladeira, melhor.

Por isso, diz o infectologista, a orientação é que, se não for consumir imediatamente, o ideal é guardar o alimento na geladeira ou no congelador logo após o preparo. “Esse cuidado ajuda a evitar a formação das toxinas”, ressalta o especialista.

Alimentos armazenados por tempo excessivo, que perderam qualidade ou foram congelados de maneira inadequada devem ser encarados como um risco potencial.

Em casos como o da Nestlé, o infectologista avalia que a decisão pelo recall foi adequada. “É muito difícil eliminar completamente essa bactéria do ambiente, por isso a presença dela não significa, necessariamente, uma falha no processo produtivo. Ainda assim, retirar o produto do mercado é a conduta correta para evitar riscos à saúde”, explica.

O que fazer em caso de suspeita de intoxicação

Diante de vômitos persistentes, recusa alimentar, prostração ou sinais de piora, a orientação é procurar atendimento médico, especialmente quando se trata de bebês.

Em caso de infecção, vale lembrar que não existe antídoto específico contra a cereulide. Mas o quadro costuma se encerrar sozinho. “O tratamento basicamente é suporte clínico, hidratação, manutenção do estado geral do paciente e avaliação de riscos de intoxicações mais graves, embora seja extremamente raro”, orienta Bousso.

O pediatra também lembra que, até o momento, não há registro de casos de adoecimento relacionados às fórmulas suspensas da Nestlé. Segundo o especialista, não há motivo para alarme. “Com a retirada dos lotes contaminados ou suspeitos, o problema deve se resolver”, tranquiliza.

E o que fazer se tiver o produtor em casa?

Quem tiver algum dos produtos incluídos no recall deve suspender o uso e entrar em contato com o SAC da Nestlé para devolução e reembolso integral, pelo telefone 0800 761 2500 ou pelo e-mail falecom@nestle.com.br, com atendimento 24 horas.

Para saber se o item faz parte do recolhimento, basta conferir o número do lote na embalagem e compará-lo com a lista disponível no site oficial. da empresa. Em caso de sintomas após o consumo, a orientação é procurar atendimento médico.

Segundo a Nestlé, os produtos não incluídos no recall seguem seguros e continuam sendo comercializados normalmente.

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Fonte.:Saúde Abril

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