Num almoço recente de família, recebi uma provocação deliciosa. Minha cunhada, mãe de um garoto incrível, me perguntou meio brincando: “Por que você não escreve um livro para o seu sobrinho?”. Fiquei imediatamente tentado…
O que escrever para despertar numa criança o desejo de conhecer o mundo? Não que ele precise ser estimulado nesse sentido… Com três anos ele já viajou um bocado e só de ouvir minha primeira ideia, a de falar sobre um garoto que visita crianças de outras culturas, disse lá do outro lado da sala, displicentemente: “Esse menino sou eu”.
De cada lugar que visitei em 2025 eu mandava um vídeo curto no WhatsApp dizendo que estava esperando ele lá: em Dubai, em Lisboa, em Morro de São Paulo. E minha cunhada sempre mandava imagens dele assistindo a tudo fascinado dizendo: “Eu quero ir lá!”.
Talvez o espírito nômade já esteja no DNA da família. Meus irmãos são também viajantes fanáticos —estamos cada um num canto do planeta enquanto escrevo isto. Mas, para além dessa vocação, e se eu escrevesse algo realmente inspirador para ele?
Quando eu era criança, esses livros não eram tão criativos como os de hoje. Teve o “Tintim”, claro, que comecei a ler lá pelos dez anos de idade. Minhas primeiras “viagens literárias” foram com ele: Tibete, Escócia, Egito, a Lua! Mas por onde eu começaria minha narrativa para uma criança do século 21?
Comecei a lembrar das minhas paradas de 2025. Quatro continentes, 14 países, alguns mais de uma vez… Brasil, perdi até a conta! E me perguntei: “o que me move em todas essas viagens?”. O que faria alguém que não conhece tão bem o mundo querer sair por aí?
A primeira resposta que veio foi… gente! Eu sempre digo que não viajo para ver monumento, viajo para ver gente. E nunca me decepciono quando descubro que, além das diferenças culturais que nos separam, há coisas básicas no ser humano que nos conectam.
Somos, na verdade, muito parecidos. Debaixo das camadas dos nossos costumes, das nossas crenças, daquilo que vestimos, da nossa pele, somos bastante iguais. E é isso que eu queria mostrar num livro para o meu sobrinho.
Que ele encontrasse meninos e meninas que jogassem bola no Oriente; que gostassem que seus pais lessem uma história antes dormir no Polo Norte; se entupissem de chocolate da África; corressem pela rua na Escandinávia; tivessem um animal de estimação nos Andes —por exemplo… uma lhama?
E aí fiquei pensando…. como esse menino viajaria pelo mundo? Um chapéu mágico? Uma mochila encantada? Um globo terrestre com poderes esquecido na estante de sua casa? Aí lembrei de uma coisa que tem tudo a ver com as minhas andanças: cartões postais!
Já contei aqui dessa minha teimosia de ainda mandar postais de onde visito. E se esse menino encontrasse uma caixa desses cartões escondida embaixo da cama dos seus pais e cada um deles o transportasse para o lugar de onde ele foi mandado?
Pronto! Achei o veículo ideal para as aventuras do livro. Vai dar um pouco de trabalho escolher que histórias eu vou apresentar nas suas páginas. Escalas não faltam: de Maiorca a Alter do Chão; do Atacama à Cidade do Cabo; de Belém a Tulum. Agora só falta o mais importante: escrever!
Adivinha como vou começar 2026…
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Fonte.:Folha de S.Paulo


