Essa é uma história de amor. E também de Carnaval. E também de vinho.
A carioca Julia Naar dividia suas atividades de tradutora do inglês e do francês com a de carnavalesca —tocava flauta e trombone na Espetacular Charanga do França, agremiação da Santa Cecília, em São Paulo—, quando conheceu o francês Antoine Le Court.
Com um diploma de relações internacionais e um mestrado em enologia, ele passava uma temporada no Brasil após um giro pelo mundo acompanhando vindimas em diferentes países. Por aqui, o plano era viajar o país de Kombi e sair fermentando uvas onde as encontrasse. Mas, no dia anterior à expedição, o veículo foi roubado e o francês, como se diz em bom português, foi ficando.
Primeiro, deu uma força no salão da Enoteca Saint Vin Saint, que ainda era um dos únicos redutos do vinho natural em São Paulo. Depois, aproveitou a água da Cantareira para fazer suas primeiras cervejas paulistas selvagens. Começou a fermentar uvas e também frutas nativas. Passou a conectar agricultores com produtores de vinho e virou uma figurinha importante no cenário local do vinho natural, que ainda engatinhava. E foi na Santa Cecília, bairro onde toca o Charanga, que viu Naar pela primeira vez.
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Os dois se apaixonaram e começaram a namorar, mas Le Court tinha que voltar à França para trabalhar na colheita no Jura, pequena região fetiche do vinho natural, que fica na fronteira com a Suíça e que também é conhecida pela produção do queijo Comté.
Naar acabou se mudando para lá e, como num piscar de olhos, os dois se viram moradores da região, reformando com as próprias mãos uma casa construída em 1756 num vilarejo de cem habitantes (isso mesmo, não é erro de digitação), e planejando vinhedos.
Hoje, duas filhas depois, os vinhedos estão plantados em terras adquiridas de vizinhos e deram a primeira colheita no ano passado. Desde 2018, saem da adega da Casa Antolià —como chamam a propriedade de pedra onde vivem— cerca de dez vinhos por ano, rotulados como Les Valseuses (os valsantes, vendidos no Brasil pela importadora Barbagianni).
Além das uvas próprias, eles também vinificam as que compram de produtores amigos espalhados por toda a França. Essa peculiaridade geográfica faz com que os vinhos sejam classificados como Vin de France, sem a Denominação de Origem Controlada Arbois no rótulo, já que não seguem as regras locais nem utilizam apenas uvas nativas.
Um desses rótulos é o Ces Gens-Là, um tinto bem levinho e elétrico, com muita textura, que aponta para uma maceração suave, mas longa. É feito em Les-Planches-près-Arbois, onde fica a casa, mas com 50% de gamay do Beaujolais e 50% de chardonnay de Bugey. O nome, assim como o de todos os vinhos feitos pela dupla, vem de uma canção. Neste vinho, o compositor e intérprete é Jacques Brel.
E onde está o Carnaval nessa história?, você deve estar se perguntando. Estava na minha taça, enquanto eu ouvia o relato de Naar e Le Court: um pét-nat rosé batizado de Cadê Meu Carnaval 2023, em homenagem à música de Ednardo.
Feito com chardonnay do Jura, colombard e bourboulenc do Languedoc, e cinsault e mourvèdre da Provence, o vinho entregava exatamente o que seu nome prometia, exuberância e alegria com notas de fruta vermelha bem ácida. A etiqueta que estampa o rosado também é carnavalesca e tem assinatura de artistas brasileiros, como Flávia Mielnik e Clarisse Romeiro.
O Carnaval já foi também levado por eles ao Jura, quando os amigos da fanfarra paulistana Cornucópia Desvairada os visitaram. A ideia era que plantassem vinhedos, mas acabaram também pondo o bloco na rua de Arbois.
Vai uma taça?
Para quem ainda não escolheu os vinhos do Carnaval, fica a dica: muitas lojas e importadoras estão criando caixas com vinhos selecionados para o feriado. O Cono Sur Bicicleta Riesling 2023 (R$ 75 na La Pastina) é um achado, muito fresco e cítrico. Já o Amitié Chardonnay DOVV (R$ 125 na loja online da vinícola) é bem exuberante, cremoso, com notas de abacaxi, harmonizando bem com uma fantasia bem tropical.
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Fonte.:Folha de São Paulo


