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8 de abril de 2026

UXUA Maré: O luxo pé na areia da mais nova hospedagem de Trancoso

UXUA Maré: O luxo pé na areia da mais nova hospedagem de Trancoso

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Chegar a Trancoso não acontece de uma vez – pelo menos nunca foi assim pra mim. A chegada começa antes, ainda na estrada, quando o sinal do telefone desaparece e eu sigo tentando, por força do hábito, até entender que já não há por que insistir. Ao pisar no epicentro do vilarejo, o Quadrado, algo muda de lugar: a lógica se desfaz, e o tempo do relógio já não dita o que vem depois.

O gramadão que se estende de uma ponta a outra, a igrejinha branca voltada para o mar, as casas coloridas. Parece tudo muito simples à primeira vista, mas está longe de ser. Tem uma harmonia ali que não foi desenhada para impressionar, e talvez por isso funcione tão bem. Sempre paro um pouco e observo as pessoas. Crianças correndo, cavalos pastando, alguns jogam futebol, outros capoeira, gente sentada conversando fiado sem pressa nenhuma.

No fim da tarde, quando o sol começa a cair atrás da Igreja de São João Batista, o gramado se transforma em ponto de encontro. A música ao vivo percorre a praça embalada pela brisa, as lojinhas abrem suas portas coloridas, pequenas lâmpadas penduradas nas árvores se acendem e o mar escurece ao fundo. Não existe um momento claro de transição. O tempo só segue e, sem eu nem perceber, fico mais do que planejei.

Quadrado Trancoso
Quando o dia se despede, o Quadrado vai ganhando ainda mais vida (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

Foi ali que nasceu o UXUA. O nome foi dado por Hayo, filho de um chefe pataxó, e significa maravilhoso na língua do seu povo. Entender isso muda o resto. Fui juntando a história aos poucos, sem que ninguém me entregasse pronta.

O começo de tudo

Wilbert Das era o diretor criativo da Diesel quando chegou a Trancoso pela primeira vez, no início dos anos 2000. Encontrou um lugar que parecia suspenso no tempo: casas simples, a igrejinha voltada para o Atlântico, um ritmo de vida que pouco tinha mudado desde os tempos em que a vila era apenas um vilarejo de pescadores. Comprou uma casa no Quadrado, queria restaurar e passar um tempo. Não tinha grandes planos naquele começo. Mas começou a olhar em volta e ver outras casas abandonadas, algumas já se perdendo. Chamou o empresário norte-americano Bob Shevlin e os dois foram recuperando essas construções, uma depois da outra, sem urgência de transformar em produto. Parecia mais uma decisão de não deixar desaparecer. Quando perceberam, tinham ali um conjunto.

Praia do Uxua Casa Hotel & Spa, Trancoso, Bahia
Mordomia garantida na base do Uxua na Praia dos Nativos, próxima ao Quadrado (Uxua Casa Hotel & Spa/Divulgação)
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O UXUA é exatamente isso. Não funciona como hotel no sentido clássico. Não tem só um prédio central, não tem repetição. São 19 casas espalhadas pelo Quadrado, cada uma com sua história. Algumas sempre estiveram ali. Outras vieram de longe, desmontadas, numeradas e reconstruídas peça por peça. Gosto de perceber esses detalhes: a madeira não é nova, os objetos têm marcas, os tecidos vêm de tear. Muita coisa foi feita ali perto. Nada parece recém-colocado, e isso muda completamente a sensação de estar no lugar. Tem também a presença de quem é da região, artesãos, comunidade pataxó, não como detalhe decorativo, mas como parte do que sustenta e constitui aquilo tudo.

Piscina do Uxua Casa Hotel & Spa, Trancoso, Bahia
Piscina do Uxua Casa Hotel & Spa em pleno Quadrado (Uxua Casa Hotel & Spa/Divulgação)

O reconhecimento veio. Em 2024, pela sexta vez consecutiva, o UXUA foi eleito pela Condé Nast Traveler entre os melhores resorts da América do Sul. As listas continuam. Mas isso não alterou em nada o que acontece no fim do dia. O Quadrado segue igual.

Por um tempo, achei que essa era a experiência inteira do UXUA. Essa relação direta com a vila, com o encontro, com a vida acontecendo na praça.

Até ir para Itapororoca.

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O UXUA Maré

São quinze minutos de carro em direção ao sul da vila, mas a mudança não é pequena. A estrada já mostra isso: as casas somem, a vegetação fecha, o mar aparece mais presente no trajeto. Quando desci do carro, o silêncio era absoluto.

O UXUA Maré, inaugurado em junho de 2025, está dentro de seis hectares de mata e restinga, com 180 metros de frente para o mar. Na chegada, quase nada se mostra de imediato. As casas vão surgindo aos poucos, apenas quatro, distantes uma da outra. Caminhos de areia, clareiras naturais. Levei alguns minutos para entender a escala do lugar.

UXUA Mare
Entre a mata e o oceano, a paisagem segue praticamente intocada em Itapororoca (UXUA Casa Hotel & Spa/Divulgação)

Fui conhecer a praia. Itapororoca é longa, areia branca, quase deserta. O mar é transparente. Na maré baixa, surgem as piscinas naturais entre os recifes de coral. Caminhei um tempo sem cruzar com ninguém. No final da praia, avistei apenas um pequeno barco de pescador.

No dia seguinte, acordei sem saber a hora e não senti falta de saber. Ouvi primeiro os pássaros, depois o vento nas árvores, e o mar como trilha incidental. Fiquei deitada só escutando, sem pressa de levantar.

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O caminho até a praia atravessa a vegetação. Tem cheiro de terra, depois de maresia, e a areia branca aparece de repente. Cada casa tem seu próprio apoio de praia, uma estrutura simples de madeira com sombra, rede e espreguiçadeira. Sentei e fiquei mais do que imaginei, sem pensar no que viria depois.

UXUA Mare
Em Itapororoca o apoio de praia oferece tempo sem pressa (UXUA Casa Hotel & Spa/Divulgação)

O bar fica ali perto, quase invisível entre as árvores. Foi esculpido a partir de um tronco de pequi encontrado caído na propriedade e trabalhado à mão até virar balcão e presença. Decorado com peças de cerâmica feitas por artistas locais, construído em palafitas para não interferir na fauna e flora do entorno. Não é mobiliário, é matéria do lugar que ganhou função sem perder a forma que já tinha. Água de coco gelada, caipirinhas, drinks com frutas da estação, alguns petiscos. Tudo chega até você sem quebrar o silêncio. Não tem música, que bênção.

UXUA Maré Trancoso Bar na Praia
Quase miragem: escondido na natureza, o bar serve drinks em meio ao silêncio (UXUA Casa Hotel & Spa/Divulgação)

No centro da propriedade, uma clareira voltada para o mar abriga o Mesa Maré. A chef Renata Buim cuida da cozinha com uma lógica simples e precisa: o que chega de mais fresco vira o prato do dia. O cardápio não é fixo. Peixe de Itapororoca, legumes e ervas da horta cultivados no próprio terreno, ingredientes da fazenda orgânica UXUA Roça, mel das colmeias da propriedade, geleias de frutas nativas, como a grumixama, que me lembrou a jabuticaba.

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A mesa posta já é parte da experiência. Folhagens colhidas no jardim viram jogos americanos, um diferente do outro, dispostos sobre a madeira como se tivessem sido esquecidos ali. Entre eles, arranjos de flores, travessas de barro, cestaria artesanal. Puro charme, nenhum excesso.

Mesa Mare UXUA Mare Trancoso
A cozinha segue o que o entorno oferece, com ingredientes frescos, locais e sem cardápio fixo (UXUA Casa Hotel & Spa/Divulgação)

Os pratos chegam aos poucos. Saladas com folhas colhidas horas antes, ainda com aquela textura viva. Legumes assados com ervas da horta, crocantes por fora e macios por dentro. Peixe grelhado com molho cítrico. Frutas tropicais cortadas na hora, algumas que você reconhece, outras que descobre ali. O café da manhã segue a mesma lógica e merece o mesmo tempo: iogurte caseiro, pães e bolos recém-assados que chegam ainda quentes. 

Mesa Maré UXUA mare Trancoso
Frutas tropicais, pães recém-assados e iogurte caseiro compõem um café da manhã simples e precioso (UXUA Casa Hotel & Spa/Divulgação)

As casas do UXUA Maré

As quatro casas têm histórias próprias, e essa é a parte mais surpreendente do projeto.

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A Casa Azul e a Casa Amarela carregam uma história que eu precisei ouvir duas vezes para acreditar. As duas eram parte de fazendas centenárias abandonadas no interior de Minas Gerais, a centenas de quilômetros do litoral baiano, prestes a virar entulho. Wilbert Das as encontrou, decidiu que não iam desaparecer assim, e mandou desmontá-las do jeito que se desmonta um relógio: peça por peça, cada viga numerada, cada janela catalogada, tudo fotografado antes de sair do lugar. Do cerrado para a Mata Atlântica, do passado rural mineiro para uma clareira à beira do Atlântico.

Artesãos locais reconstruíram tudo com os materiais originais, o cedro, a canela, a braúna, mas abriram os espaços por dentro, deixaram a luz e o vento entrar de um jeito que a fazenda original nunca permitiu. Cada uma tem três suítes. O tempo que essas peças carregam não some com a reconstrução. Sente-se na espessura da madeira, no peso das portas, no jeito que o piso cede levemente sob os pés. Nada disso se compra novo.

A Casa Branca é a maior do conjunto e também a mais garimpada. Wilbert Das foi reunindo portas e janelas antigas ao longo de anos, cada uma com sua história, sua tinta descascada, sua ferragem original. É dela a varanda mais generosa de todas as propriedades do UXUA.

A Casa Verde já existia. É a cabana original da propriedade, restaurada por artesãos e hoje abriga a experiência do Mesa Maré. Dentro dela, um fogão a lenha ainda em uso é o coração da cozinha. O almoço acontece sob as árvores numa grande mesa compartilhada, com o mar visível entre a vegetação.

No entorno de todas as casas, o terreno está em regeneração contínua. Espécies nativas foram replantadas, outras consideradas extintas foram reencontradas. Em 2025, o UXUA Maré entrou na lista dos cem melhores lugares do mundo da revista Time. A floresta não é cenário. É parte ativa do projeto.

Ficar no Quadrado e depois ir para o Maré muda a leitura do lugar. Senti isso claramente. Um é encontro, movimento, gente. O outro é silêncio, espaço, tempo dilatado. Se você tenta comparar, perde. Não é sobre escolher o melhor. É sobre entender o que cada um faz com você.

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Fonte.:Viagen

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